Autor
Partilhar
Autor
Nova Acrópole
Partilhar
Sempre que nos embrenhamos na história da Filosofia, e em particular nos obscuros trechos pré-socráticos, deparamos com a «questão órfica». Os primeiros cristãos, os neo-platónicos, os neo-pitagóricos, os eclécticos, os sincretistas e os neo-académicos encaram geralmente a paternidade do Orfismo com devoção.
Contudo, embora esta influência seja universalmente aceite, o Orfismo continua a constituir um mistério tão incompreensível como os oráculos caldeus – com os quais está relacionado – ou a estância de Platão no Egipto.
A figura lendária de Orfeu é mais enigmática do que a de Pitágoras, mas desperta idêntica paixão. Jâmblico, Porfírio, Plutarco, Pausânias, Virgílio e Ovídeo mencionam e associam constantemente questões filosóficas profundas ao Orfismo; Platão cita os Hinos Órficos como tratando-se de material fiável, e Clemente de Alexandria e Orígenes procedem a uma profunda e reverente evocação da figura de Orfeu.
Os historiadores modernos tratam este tema com o máximo cuidado e, apesar de não negarem este parentesco, abstêm-se de contribuir para esta tese, sustentando, quando muito, a ideia da provável existência de um reformador religioso anterior a Homero e a Hesíodo.
Inúmeros filósofos e estudiosos, desde Empédocles e Píndaro até Blavatsky e Werner Jaeger, aproximaram-se desta figura enigmática e obscura.
Façamos um pouco de História
Pôs-se a questão de saber se a Religião Órfica, associada aos cultos Dionísicos da Trácia, corresponderia a um vestígio, existente na Grécia Helénica, das civilizações micénica e mesmo cretense. Vejamos qual era o panorama histórico há cerca de 5.000 anos.
Segundo a cronologia comummente aceite, por volta do ano de 1100 a.C. registou-se a invasão dos Dórios. Antes disso, outro grupo indígena e não helénico habitava a Ática e o Peloponeso: os Aqueus. Mas, aproximadamente entre o início do terceiro milénio e o ano de 1400 a.C., desenvolveu-se na bacia do Mediterrâneo, entre a Itália e as costas da Ásia Menor, uma civilização florescente cuja capital se situava em Cnossos, a ilha de Creta, cujas ramificações no continente europeu alcançaram uma identidade própria que iria receber a designação de «micénica» graças à sua grandiosa cidade fortificada, que dava pelo nome de Micenas.
Soi dizer-se que o processo começou na Idade Neolítica, cerca de 4.000 anos a.C., e que chegou à Idade do Bronze por volta de 2.800 a.C.. Posteriormente, floresce até atingir épocas de grande esplendor com etapas intermédias, até que, muito mais tarde, por volta de 1.400 a.C., Cnossos e a maioria das cidades do continente acabaram por ser saqueadas e destruídas. Na sua época de maior auge, esta civilização cretense micénica estendeu-se desde Cnossos até às ilhas do Mar Egeu, e chegou mesmo a atingir as costas da Ásia Menor e da Palestina. Aí por volta do ano de 1.600 a.C., a chama da capital minóica já estava a extinguir-se e as filiais do continente emergiam como suas sucessoras.
A Arqueologia legou-nos uma mostra impressionante da arte cretense e micénica nos palácios de Cnossos, e foi cotejando, uma após outra, afirmações consideradas «fabulosas» até ao século passado, tais como a guerra de Tróia e o Labirinto, desenterrados, respectivamente, por Schliemann e por Evans. Heródoto afirma que a base étnica micénica era composta por jónios helenizados, provavelmente dirigidos por uma aristocracia vinda da Ásia, enquanto que outras fontes assinalam a presença de homens vindos por mar, e que, segundo testemunhos egípcios, foram saqueando à sua passagem as costas europeias e africanas.
Quiçá estaremos perante dois fenómenos distintos, tendo um deles, pelo menos, ficado imerso na lenda, e que nos diz que, após o último afundamento do continente que Platão designou por Poseidonis há cerca de 11.800 anos, o continente africano terá sido repovoado, e que a já multimilenar civilização egípcia terá então voltado a erguer-se, sob uma unificação imposta por Menés Narmer, há qualquer coisa como 7.000 anos a.C. Nessa altura, uma corrente migratória asiática terá repovoado parte da Europa e penetrado no Egipto, trazendo consigo os seus próprios elementos.
Alguns povos tinham emigrado da África para a Europa através do estreito de Gibraltar, e é assim que vamos encontrar vários povoamentos sucessivos, que provinham da culturalmente riquíssima bacia do Mediterrâneo e se concentraram na zona do Mar Egeu. Paralelamente, a Ásia Menor era povoada por um povo de enigmática origem atlante, renovado pelas migrações, em que se impunham os cultos do Mazdeísmo de Zoroastro, que alcançaram inexoravelmente as costas jónicas.
Estes Aqueus xánthoi (de cabelos avermelhados) cantados por Homero penetraram no continente europeu e dominaram paulatinamente os habitantes originais e assimilaram as suas formas de vida, tendo contudo implementado a sua língua e caracter guerreiro fortemente dominador.
As referências ao estilo de vida dos Aqueus que atribuímos a Homero contrastam com as formas matriarcais predominantes nos cultos minóicos, com as suas deusas terrestres e lunares, e os cultos característicos do boi que se multiplicam por vasos, ânforas e murais, e que Mário Roso de Luna apresenta como marco das primitivas hordas atlantes que emigraram com grandes dificuldades, do continente desaparecido até à Ásia, através do continente africano e da gélida Europa. Os Aqueus trouxeram consigo cultos mais enérgicos: a força física, as caçadas e a guerra, impondo uma sociedade masculinizada que se foi fundindo com os antecedentes ancestrais, dando assim origem a uma mitologia e religião dominada por deuses importados, mas que a nível popular se manteve orientada para os cultos animistas.
Este panorama, convulsivo mas até certo ponto uniformizado, foi violentamente sacudido por outra invasão, desta vez proveniente do norte, que penetrou na península destruindo todos os vestígios da civilização micénica, arrasando as suas cidades-fortaleza e mergulhando a Europa num período de obscurantismo que iria prolongar-se por mais de três séculos. Trata-se dos Dórios, uma corrente provavelmente indo-europeia que simplificou o estilo de vida dos povos já decadentes, mas que, através da sua energia renovadora, impôs a forma helénica, a Grécia Clássica, cerca de 1.200 anos a.C.
A sua arte, menos emotiva, era extremamente intelectual e a sua concepção do mundo tornou-se racionalista, impondo-se à forma de expressão decadente dos povos cretenses e micénicos.
No século VII a.C., surgiu um personagem mítico associado aos mais misteriosos e antigos deuses do panteão grego; Orfeu, que abriu Escolas Iniciáticas, promoveria uma reforma religiosa e conseguiria difundir uma forma de vida altamente espiritual que inundou a racionalidade grega de uma elevada devoção mística.
Orfeu Histórico
Este enigmático personagem mítico-histórico vivera por volta de 3.000 anos a.C., mas a História «oficial» mergulha-o num passado nebuloso que vai muito para além do século VI a.C., porque nessa época registariam uma ampla difusão os chamados Hinos Órficos, que influenciaram todas as personalidades ilustres da época, desde Plutarco a Platão, coincidindo com o fenómeno cultural dos Pré-socráticos.
Em termos históricos, não se sabe praticamente nada acerca dele, e a tradição grega situa-o «muito antes» de Homero e de Hesíodo, os primeiros poetas gregos. Tudo indica que nasceu na Trácia, a pátria de Dionísio, e a que se encontrava intimamente ligado.
Blavatsky afirma que Orfeu significa «enegrecido», isto é, de tez escura, por via do seu vínculo a povos orientais e da sua relação com a Índia, onde, segundo Heródoto, sediou os seus Mistérios.
Fala-se da sua pureza extrema, e tudo indica que reformou antigos cultos de magia lunar, convertendo-os em cultos solares, em que eram proibidos os sacrifícios e o consumo de carne. Parece que era um músico exímio, que tangia uma lira que lhe havia sido oferecida pelos Deuses, e que ele transformou depois, de 7 para 9 cordas.
“Blavatsky afirma que Orfeu significa «enegrecido», isto é, de tez escura”
A sua morte encerra um mito de inegável conteúdo simbólico. Pensa-se que terá sido esquartejado às mãos de mulheres trácias, furiosas porque os seus maridos estavam de tal forma envolvidos com a mensagem órfica que abandonavam o lar e as suas obrigações. Além disso, parece que Orfeu, desgostoso com a desgraça de Eurídice, a sua esposa mística, nunca mais voltou a olhar para outra mulher, nem admitiu mulheres na sua Iniciação. Talvez estejamos aqui perante um caso de rejeição, não propriamente da mulher em si mesma, mas antes dos cultos femininos que, naquela época, se tinham degradado e derivavam de práticas de feitiçaria e animistas.
Diógenes Laércio afirma que Orfeu morreu às mãos de duas mulheres e que, no seu epitáfio, situado em Dória (Macedónia), ainda hoje se pode ler:
«O cantor da lira de ouro, Orfeu de Trácia, foi aqui sepultado pelas Musas, e o Rei das Alturas, Júpiter, feriu-o com os seus raios inflamados.»
Pausânias e Estrabão avançaram uma explicação religiosa e histórica para a morte de Orfeu, dizendo que o poeta se excedera na sua prodigalidade em revelar segredos, ou que terá entrado em conflito com as crenças populares e que foi, por isso, perseguido e esquartejado às mãos do povo.
Orfeu Mítico
A Mitologia apresenta Orfeu como filho de Eagro e da Musa Calíope, e a tradição esotérica relaciona-o com Arjuna(1), uma vez que a sua descida aos Infernos em busca de Eurídice em muito se assemelha à viagem de Arjuna a Patala, atrás da sua esposa Ulupi.
Eurídice era uma ninfa que, atraída pelo canto de Orfeu, se enamorou dele e se converteu em sua esposa, mas, um dia, perseguida por Arísteo (na versão de Virgílio), pisou acidentalmente uma serpente que lhe mordeu, provocando-lhe a morte. Inconsolável, Orfeu dirigiu-se às portas de Hades, o reino de Plutão, para tanger a sua lira e suplicar que a sua esposa lhe fosse devolvida. As diversas versões diferem neste ponto. Algumas afirmam que o seu canto amoleceu o coração do próprio Cão Tricéfalo(2), e que a roda de Ixíon(3) se deteve, permitindo o regresso de Eurídice; mas outras, incluindo o comentário de Platão, dizem que o pedido lhe foi negado, e que, pelo contrário, lhe foi dito que para ele próprio entrar em Hades, deveria passar por uma morte atroz.
Após este episódio, encontramo-lo vagueando inconsolável pelas margens do rio Estriarão e evitando todo o tipo de contacto com mulheres. Ésquilo afirma que as Ménades(4), num impulso orgiático, o esquartejaram como se fazia nos sacrifícios (ver a versão de As Bacantes de Eurípides), invejosas por não lhes ter sido permitido entrar nos seus Mistérios e incitadas por Dionísio, agastado porque o poeta oferecia todas as manhãs orações a Apolo.
Ele foi enterrado pelas Musas na Trácia e, segundo outras versões, as diferentes partes do seu corpo terão sido espalhadas por toda a Grécia, à excepção da cabeça, que, juntamente com a sua lira, foi parar ao rio Ebro, onde ele continuaria a profetizar e a cantar até que, por ordem de Apolo, foi enterrado como forma de o silenciar, e em sua homenagem ergueu-se então um templo.
Orfeu também aparece como membro da tripulação no famoso poema mítico Os Argonautas, assumindo o papel de cantor mágico que, seguindo o conselho de Quíron, recorre ao poder do seu canto sempre que a força dos heróis não é suficiente. O relacionamento dos heróis com a religião, incluindo as cerimónias, as oferendas e as visitas aos santuários, é presidido por Orfeu que, sem ser um guerreiro, adquiriu uma importante mística no périplo dirigido por Jasão (Argonautiká, Apolónio de Rhodes, 240 a.C.).
Como teremos oportunidade de constatar no que diz respeito aos mistérios, Orfeu reúne os dois poderes divinos que se justapõem na sua mensagem, os cultos dionisícos e o aspecto apolíneo, que vai por sua vez mitigar e sublimar o espírito primitivo e semi-selvagem com que se adorava o Baco da Trácia.
Orfeu Místico
O Orfismo enquanto doutrina seria reconhecido a partir do século VI a.C., depois de alguns pré-socráticos, como Empédocles e Pitágoras, e posteriormente Platão, se lhe referirem com suficiente autoridade e de modo explícito. Reconheceu-se então uma teogonia contida nos chamados Hinos Órficos. Os seus ensinamentos, baseados no mito dionísico, referem-se principalmente ao estado de trânsito em que se encontra a Alma e, portanto, à sua transmigração de vida em vida, numa peregrinação purificadora conducente à contemplação dos Deuses. Contém, como tal, um estrato escatológico (sobre o fim do mundo e da humanidade) muito importante, que se encontra mencionado nos mitos de Perséfone e de Dionísio; os seus rituais iniciáticos relacionavam-se com as vitórias obtidas através da experiência psicopómpica e o posterior renascimento triunfal.
“O relacionamento dos heróis com a religião, incluindo as cerimónias, as oferendas e as visitas aos santuários, é presidido por Orfeu “
Deduz-se de todos esses ensinamentos um forte sabor a Osirismo e, como veremos adiante, Pitágoras e Platão fazem girar as suas principais afirmações em torno destas ideias.
O Orfismo encerra uma proposta teológica concreta, semelhante à de Hesíodo, mas com um alcance diferente. No princípio de tudo, a Noite substitui o Caos. O culto da Mãe Noite enquanto antecedente da Luz conduz-nos ao antagonismo primordial de todas as cosmogonias tradicionais. Por detrás do conceito da Noite (Caos-Oceano), encontra-se um aspecto mais misterioso da Divindade a que chamam Fanes, e de que surge toda a objectivação.
Fanes coloca em marcha a Noite, de que surge um primeiro ovo que se divide em dois, céu e terra, que por sua vez têm por filho o Espírito Cósmico, Eros, o Velho Amor, pai de todos os Deuses. Cabe-lhe a ele gerar a manifestação dos Deuses e dos homens. Depois, a genealogia prossegue como em Hesíodo, excepto na existência de uma singular identificação entre Dionísio e Fanes. Zeus preside ao concílio dos Deuses, mas na realidade, não passa de uma outra aparência de Dionísio (Zeus-Zagreo), que, como veremos mais adiante, numa terceira geração, delega o governo no jovem Dionísio. O esquema da Cosmogénese é o que está representado nesta página.
Aristófanes compôs uma comédia, As Aves, em que incluiu uma história da cosmogonia órfica, e Ferécides de Siro, que vivera perto do fim do século VI a.C., explicaria os princípios do Universo num sentido mais racional e através de uma tríade eterna constituída por Zeus-Cronos-Ctónia (Gea). Zeus, o vivente, e Ctónia, o subterrâneo, constituíam uma dualidade fundamental antagónica, tal como Seth e Osíris. Estes conteúdos encontram-se disseminados pelos chamados Poemas Órficos ou Rapsódia, atribuídos, não a Orfeu, mas sim a Onomácrito, algures no século VI ou V a.C. .
Jaeger duvida da apresentação que alguns autores fazem da questão órfica como tratando-se de uma religião compacta, com um fundador, uma doutrina e uma comunidade, devido à universalidade do personagem e às suas recompilações tardias que, como afirmámos, se estendem do século VI a.C. até ao início da época cristã. Inclusivamente, afigura-se notável o culto que os primeiros grupos cristãos renderam a Orfeu, a quem elevaram à categoria de um santo precursor de Cristo.
O Orfismo impôs uma Bios, uma forma de vida, de abstinência e de purificação e, além disso, determinados rituais de exorcismo e de expiação que requeriam uma certa preparação e fortalecimento psicológico, que poderíamos relacionar com os Mistérios Menores. O facto de diversos pseudo-profetas e mendigos se terem dedicado a propagar doutrinas de salvação faz com que os autores da dimensão de Platão tecessem críticas, não ao Orfismo em si mesmo, mas ao aproveitamento popular dos seus rituais.
Outro aspecto fundamental da doutrina órfica é a ideia, de origem oriental, da transmigração das Almas. O conceito grego da Psiché como Alento separado do corpo é fundamentalmente órfico já que, na crença homérica, a vida postmortem é interpretada como o errar de sombras apegadas aos respectivos corpos e condenadas ao Hades para toda a eternidade, sem possibilidade de ressurreição. Píndaro, indubitavelmente influenciado pelos conceitos órficos, narra em contrapartida os prémios e castigos da Alma depois da morte e a esperança num outro destino, numa outra vida.
“Outro aspecto (…) da doutrina órfica é a ideia, de origem oriental, da transmigração das Almas.”
O Hyeros-Logos (Palavra Sagrada) é um poema místico-cosmogónico que, na sua versão mais remota, também atribuída a Onomácrito, descreve uma teogonia que faz transparecer uma clara referência a enigmas de carácter astronómico-astrológico e antropogenético. Entre os rituais órficos esotéricos incluía-se o da transmissão da Palavra de Poder, o aion, emblema da Tetraktys que os pitagóricos desenvolveram, verdadeiro mantra cantado como o «aum» dos indianos, com recitações secretas em harmonia com as pulsações das cordas da lira, e que na sua vibração reconstituía o ritual da manifestação. O aion resume as sete vogais sagradas associadas à encarnação do homem e à sua posterior unificação por intermédio do poder místico do agente mágico do som. O homem, elevado à categoria de um deus, como se fosse Dionísio encarnado, liberto das suas amarras materiais, elevava-se ao estado de consciência da Epopteia, grau espiritual reconhecido com devoção entre os participantes.
O Orfismo e os Pré-Socráticos
Os pré-socráticos representam o culminar cultural e filosófico grego, e a influência do Orfismo faz-se sentir de modo assinalável nas suas doutrinas.
Por exemplo, em Anaximandro (século VI -V a.C.), podemos encontrar:
«Mas seja qual for a origem da génese das coisas que existem, será aí que estas terão necessariamente de se corromper; posto que estas últimas têm que cumprir o castigo e sofrer a expiação devidos pela injustiça praticada, de acordo com os decretos do Tempo.»
Nesta expiação reconhece-se o iniludível sentido órfico da existência transitória sofrida pela Alma na Terra.
Em Parménides, adivinhamos o sentido da evolução e transporte místico epóptico, passando por estádios graduais da Realidade. O eleático tinha, sem dúvida, passado por Provas Mistéricas, já que o seu poema Da Natureza é altamente simbólico e a sua relação discipular mais que provável com o próprio Pitágoras aproximam-no inegavelmente do Orfismo. O trânsito que as «Filhas de Hélio» lhe propõem para chegar à luz é uma clara alusão à polaridade órfica do mundo:
«Vem, pois vou dizer-te (e suplico-te que prestes bem atenção às minhas palavras) quais são as únicas vias de indagação concebíveis.
A primeira sustenta o que é e o que não pode ser; e este é o caminho da convicção, aquele que busca a Verdade.
Mas o outro declara: não é, e este não ser tem que ser.
Este último caminho, há que dizê-lo, não se pode explorar, pois o que não é, não só não pode ser conhecido (visto que se encontra muito para além do nosso alcance), como não pode ser expresso por palavras, posto que pensar e ser são uma e a mesma coisa.»
Heraclito, de quem nos chegam textos sob a forma de aforismos, expõe a doutrina moral dos órficos. O seu conceito de Sophón, o sábio, fala-nos do trânsito em busca da purificação e da perfeição.
Em Empédocles, que com toda a certeza foi órfico até aos seus últimos dias, encontramos o esforço no sentido de elevar o conhecimento vulgar dos fenómenos a uma Teologia dos Elementos onde assoma com clareza o mesmo antagonismo característico do Orfismo. No seu poema intitulado As Purificações manifestam-se toda a sua inquietação pelo delineamento órfico da pré-existência e a metempsicose(5).
Orfismo e Pitagorismo
Pitágoras, o Mestre de Samos, é o pré-socrático que todos os autores antigos e modernos citam como aquele que esteve mais próximo do Orfismo. Diz-se que a essência das suas complexas doutrinas se encontra impregnada do sentido de transcendência dos Mistérios Órficos.
“A nossa natureza é, como tal, dupla; nascemos dos Titãs, filhos da Terra, mas na nossa formação entraram os restos de Dionísio”
Os Versos Áureos, compilação posterior dos ensinamentos de Pitágoras, contêm os preceitos morais, filosóficos e mesmo esotéricos do Hyeros-Lógos, o poema órfico mais comentado da Antiguidade.
A identificação entre Orfismo e Pitagorismo baseia-se na sua concepção da Alma, o trânsito através de diversas vidas, as proibições e rituais próprios do Pitagorismo e o muito esotérico conceito da etapa acusmática(6), que era coroado com a transmissão da Palavra Sagrada, o aion, por sua vez cantado no mais puro estilo órfico.
O orfismo e a história da Filosofia
Ao retomarmos as ideias acerca da Alma e a força com que elas aparecem no desenvolvimento da filosofia pré-socrática, podemos deduzir que também o grosso das ideias de Sócrates e de Platão terão sido inspiradas pelas tradições órficas. O Fedon, o Timeo, o Fedro e fragmentos da República e de As Leis encontram-se repletos de alusões órficas. O próprio Aristóteles refere-se, na sua fase académica, à Alma em termos puramente órficos, quando, no momento da morte, vêm ao cimo – diz ele – as experiências para-psíquicas.
Os Neoplatónicos proclamam-se honrosamente órficos, e o mesmo fazem os Eclécticos, os Sincretistas, os Neopitagóricos e uma imensidão de outros grupos que penetraram profundamente no Cristianismo, como os Gnósticos, e até em Santo Agostinho encontramos ideias órficas. Grande parte dos ataques que os apologéticos e os Padres da Igreja movem contra o Paganismo grego encarniçam-se contra o Orfismo e, contudo, rendia-se culto a Orfeu nas catacumbas, como o testemunham numerosos crucifixos encontrados ostentando o nome de Orpheo Bakikoi.
Mistérios órficos e religião
Os Mistérios (Telekai), segundo reconhecem historiadores da filosofia ocidental, constituem uma base obrigatória para se poder compreender a origem e força da mística filosófica de muitos pensadores gregos e romanos. São classificados como Religiões Mistérico-Mágicas e Mistérico-Filosóficas; entre as primeiras, os críticos incluem o Orfismo e, entre as segundas, o Órfico-Pitagorismo, diferenciando-as entre si segundo a relevância maior ou menor da faceta cultural ou da especulativa.
Os Mistérios de Deméter em Elêusis encontram-se inicialmente associados a cultos agrários, mas em que a semente de trigo lançada à terra não morre, antes desabrochando para a luz depois de enterrada. Pode-se observar aqui um modelo de reencarnação. O Mito de Perséfone-Coré, filha de Deméter, simboliza a fase dos Mistérios associada à peregrinação da Alma pelo mundo subterrâneo. Perséfone foi raptada por Hades e a mãe, desesperada, dirige-se à mansão do deus e consegue que este lha devolva temporariamente. A partir de então, Coré passará dois terços do ano com a sua mãe, e um terço com o esposo.
Em termos míticos, diz-se que este conhecimento da Imortalidade fez com que mãe e filha quisessem trazer para a Humanidade os Mistérios que iriam celebrar-se em Elêusis, não longe de Atenas, relacionados com o Outono e a ocultação da semente, e os postulantes deveriam ter sido antes iniciados nos Mistérios Menores da Primavera. Segundo Epifânio, estes remontariam a cerca de 1.800 anos a.C. e teriam sido fundados por Eumolpo, rei da Trácia e sacerdote, herdados dos Mistérios celebrados no Egipto em torno da figura de Ísis. Realizavam-se com a festa da vindima, ao longo de sete dias, e o candidato vitorioso alcançava o grau de Epopta, contemplador das verdades divinas, algo semelhante ao grau de dialéctico que Platão impunha na contemplação dos Arquétipos.
Antes da Iniciação propriamente dita, celebrava-se a festa do «Pão e Vinho», e os candidatos tinham acesso a um livro de pedra, o Petroma, de carácter altamente esotérico. Pisístrato, o tirano ateniense que sucedeu a Sólon no século VI, edificou o novo Telesterión de Elêusis e os Mistérios floresceram amparados pelo seu governo.
O mito de Dionísio-Baco, o Osíris trácio, e que constitui a base dos Mistérios Órficos propriamente ditos, pode-se resumir da seguinte forma (recorrendo a uma versão «unificada», pois autores antigos como Pausânias, apoiados por Clemente de Alexandria, atribuem a origem do mito não aos trácios, mas sim aos cretenses): quando Zeus anunciou que ia legar o governo dos Deuses ao jovem Dionísio, os Titãs, regressados à vida na nova ordem, roídos de inveja e instigados por Hera, que não aceitava o filho de outra mãe, imaginaram uma forma de evitar que se consumasse semelhante atropelo à dignidade divina. Ofereceram então à criança alguns brinquedos para distraí-la.
Tudo indica que estes brinquedos eram um cone, um rombo, um espelho, maçãs do Jardim das Hespérides, um fuso, um novelo de lã, etc., cujo simbolismo astronómico-astrológico seria demasiado moroso explicar aqui. Enquanto ele brincava, mataram-no e esquartejaram-no. Zeus entregara a custódia de Dionísio aos Curetes, mas estes foram enganados ou subornados com presentes sumptuosos que Hera lhes enviou. Os Titãs alimentaram-se depois com os restos da carne do pequeno Deus falecido. Os restos dos seus membros foram identificados por Apolo e conduzidos a Delfos. O seu coração foi levado a Zeus por Atena, para que este o fizesse renascer. Na sua cólera, Zeus fulminou os Titãs com os seus raios, e dos seus restos fumegantes surgiria uma nova raça, a dos mortais.
A nossa natureza é, como tal, dupla; nascemos dos Titãs, filhos da Terra, mas na nossa formação entraram os restos de Dionísio; portanto, também existe dentro de nós uma natureza divina e celestial. Este último Dionísio, o menino ressuscitado, serviu de inspiração ao ritual dos Mistérios Órficos e das representações dramáticas que se lhes associaram. Assim, o Orfismo recria o Mito segundo o qual o homem é libertado por Dionísio, que purifica os seus elementos terrestres e purga a culpabilidade da natureza corrupta, reencontrando-se com a sua verdadeira essência através do renascimento. O Iniciado é um Epopta, um libertado do jugo do corpo (Soma), a tumba (Somé), e este processo é relacionado por Plutarco com os rituais de Osíris.
Orfeu modificou o culto primitivo de Dionísio que antes se celebrava na Trácia, por sua vez já deformado nas festividades báquicas, outorgando-lhe um carácter altamente purificador. Os seus seguidores usavam trajes de linho branco, abstinham-se de comer carne e produtos animais, mantinham um estado de castidade pura e levavam uma vida mística de grande pacifismo e religiosidade que propiciou o ressurgimento da cultura, o florescimento da Filosofia e das Artes e o regresso dos Mistérios na sua manifestação mais depurada.
Francisco Duque Videla
Notas:
- Um dos principáis heróis do Mahabharata hindu.
- O cão de três cabeças que escolta a entrada de Hades.
- Personagem condenado a girar eternamente no Inferno grego, atado a uma roda em chamas.
- Sacerdotisas do culto inferior de Dionísio, dançarinas frenéticas.
- Transmigração das almas de uns para outros corpos
- Ruído imaginário de instrumentos ou de vozes
Teogonia- geneologia e filiação dos Deuses Psicopómpica –
Epóptico- relativo aos mistérios de Elêusis








