Diálogo entre Theon e Hipátia

Autor

José Carlos Fernández

Partilhar

Numa tarde quente, onde um avermelhado sol tingia com os seus dedos de sangue as paredes das casas enquanto as sombras cresciam como se quisessem devorá-los, Hipátia encontrou Theon inclinado sobre uma dezena de papiros, absorto neles, como se o mundo em redor se tivesse desvanecido nos seus pensamentos e neles viajasse como num mar sem fim. Uma lucerna romana com a face de um Hélios-Rei estampada no seu barro fazia dançar a sua chama, viva e alegre, desafiando as sombras que se dilatavam cada vez mais, sem temer a noite, que parecia esperar nos umbrais da casa.

Hipátia, de alma sempre atenta ao misterioso sussurro e significado de tudo o que nos rodeia, teve uma espécie de pressentimento e tentou fixar na sua imaginação esta cena de um Sol que morre, ensanguentado; e uma chama que dança, alegre, sem medo das sombras, e o seu pai absorvido nos seus estudos, indiferente ao mundo que o rodeava. Sem querer aprofundar o seu significado, quis fixar as letras símbolo desta cena para lê-lo na sua alma quando fosse necessário.

“— Pois o que é realmente difícil — exclamou Hipátia —
é fazer alusões a estes Mistérios e,
sem revelar nenhum segredo ao profano”

— Olá Hipátia, não me tinha apercebido da tua presença, como estás? E os teus discípulos? — perguntou Theon.
— Estão muito bem — respondeu Hipátia — crescem interiormente quase sem se aperceberem, como flores e os novos rebentos ante o impulso da Primavera. Mas há que ajudá-los para que a Luz abra caminho nos seus corações, há que desfazer os blocos de gelo da sua ignorância e de certos hábitos mentais que os aprisionam. Bem, já podes imaginar, todos vivemos esse processo doloroso e, tantas vezes, de incerteza. E tu pai, que fazes tão compenetrado nos teus livros?
— Estou a preparar um ensaio sobre a estrela Sírio e a rever alguns papiros egípcios sobre isso – replicou Theon. E outro sobre o rio Nilo e as suas cheias quando, como sabes, entram em conjunção o Sol e a nossa Estrela Mãe.
— Pois o que é realmente difícil — exclamou Hipátia — é fazer alusões a estes Mistérios e, sem revelar nenhum segredo ao profano, sugerir ao filósofo que siga o fio da sua intuição e penetre no bosque sagrado da sabedoria.
— É verdade Hipátia — reconheceu Theon — ainda que tenha o exemplo e a inspiração de muitos sábios egípcios que me precederam e escreveram sobre estes mistérios sublimes de Sírio e do Nilo. Claro, encobrindo sempre os seus ensinamentos com símbolos de um modo tão engenhoso que, como bem disseste, nada significam para o profano e tudo desvelam perante o olhar penetrante do Iniciado. Nas alegorias religiosas e nos textos filosófico-mistéricos como o Livro da Oculta Morada, o Livro das Horas e tantos outros, assim como nas cenas astrológicas representadas nos templos há numerosas alusões. Ainda que esta seja uma linguagem intuitiva, pouco favorável ao carácter grego e menos ainda ao tempo em que vivemos. Nestes dois tratados sobre Sírio e as cheias do Nilo devo fundamentar-me no que outros escreveram e se, mesmo assim, interpretar parcialmente o simbolismo dos mitos gregos, ensinamentos de Platão, poemas de Hesíodo, elementos da religião mitraica, etc… e abrir as pétalas deste Lótus de Sabedoria, derramar um perfume que seja útil aos enamorados da alma de tudo o que vive… quanto tempo me permitirá a vida continuar estes escritos?… não sei — disse Theon como se soubesse o que não queria revelar.
— Vais comentar no livro a relação que há entre Sírio, o Tempo e a Consciência? — perguntou Hipátia com curiosidade.
— Sim — respondeu o filósofo — mas de um modo velado que apenas possa saber realmente de que estou a falar, aquele que já esteja iniciado nesta Filosofia. Como tu sabes, nós os egípcios medimos o tempo pela relação entre o Sol e Sírio. O ano nasce da conjunção de ambas as es­trelas, que se produz quando as águas do Nilo inundam as terras. Mas existe outro Nilo celeste que fertiliza a Terra inteira e as nossas consciências, divinizando-as, embriagando-as de Luz, e é ele que se derrama desde a Estrela Sírio através do Olho aberto do nosso Sol quando ambos coincidem no Céu. Sírio é o Olho direito de Anubis, e Anubis é o Senhor dos Limites e, portanto, do Tempo. Para medir o tempo há que fixar um ponto de referência que geralmente é o Sol. Mas o Sol também se desloca aparentemente no céu, num movimento retrógrado através do Zodíaco que se completa a cada 26.500 anos devido ao movimento de pião do eixo de rotação da nossa Terra. Isto significa que o Sol não é uma referência fixa suficientemente exacta.

“Sírio é o coração espiritual do nosso Cosmos, o Sol do nosso Sol, o Olho de Eternidade que rege a nossa evolução, aquilo que aviva o fogo da consciência e da mente na alma humana – disse veementemente Theon.”

— Se escolhermos uma estrela — continuou Theon nas suas explicações — como todas elas têm, além dos próprios movimentos, este aparente de retrocesso dos equinócios, assim também não são um ponto que possamos chamar de imóvel no céu. No entanto, o movimento real de Sírio sobre o fundo de outras estrelas compensa o movimento aparente de retrocesso equinocial, o que faz com que seja uma referência quase exacta para medir o tempo. Nos arquivos dos nossos templos sabemos que 1460 anos de Sírio equivalem a 1461 do nosso Sol (estamos a falar da passagem de ambos pelo mesmo ponto do Zodíaco) pelo que neste ciclo temporal o calendário solar e o de Sírio coincidem, podendo-se medir o tempo, se compararmos ambos os calendários, com uma precisão quase perfeita. Isto é válido astronomicamente, mas do ponto de vista mistérico é ainda mais importante. Arquimedes não dizia «dai-me um ponto imóvel e deslocarei, usando a lei da alavanca, o universo»? Pois bem, este ponto imóvel é, de certo modo, a Estrela Sírio. Sírio é o coração espiritual do nosso Cosmos, o Sol do nosso Sol, o Olho de Eternidade que rege a nossa evolução, aquilo que aviva o fogo da consciência e da mente na alma humana – disse veementemente Theon. E como Senhor do Tempo e dos Limites está, portanto, em relação com o número 9, número que determina os ciclos e as medidas do tempo. Se somarmos os produtos de 9 o resultado é sempre 9:
9 x 1 = 9
9 x 2 = 18 (e se somamos o 1 e 8 o resultado é nove)
9 x 3 = 27 (e, de novo, 2 + 7 = 9)

E sempre assim; por isso o 9 é o símbolo do tempo e da consciência, que se geram a si mesmos. Esta simples tabuada matemática expressa mistérios tão profundos que, quase não nos podemos referir a eles com palavras, por mais que pareça um jogo infantil. Sírio é o Senhor do Tempo pois contém dentro de si o princípio e o fim de toda a evolução do nosso sistema solar, de que é o regente. Nós, os egípcios, representámos esta verdade de um modo simbólico nos nossos textos ao dizer que a barca solar, no seu perpétuo movimento, dirige sempre a proa na direcção desta estrela. Hesíodo, na sua obra O Escudo de Héracles, representa Sírio emanando uma série de círculos concêntricos que nunca acabam, abarcando todo o Escudo, ou seja, todo o Universo. E, na nossa religião, Sírio é também Ísis, a Virgem que amamenta o Mundo.
— O deus Mitra é outra representação de Sírio — continuou — e de todos os valores místicos que esta estrela irradia na alma humana. Não o vemos nas estelas a rodear com o seu braço o Sol, indicando assim que é superior na Hierarquia Celestial; e ambos, Mitra e o Sol, juntos, abençoando os seres humanos com a ajuda do Deus Mercúrio? — Concluiu Theon visivelmente emocionado pela profundidade dos símbolos.

Theon, como um dos mais insignes filósofos da Biblioteca e do Templo de Serápis, tinha escrito um grande número de livros dos quais, infelizmente, muito poucos sobreviveram: um comentário aos Elementos de Euclides, os Dados, um Tratado de Óptica, várias obras de comentários aos textos matemáticos e astronómicos de Ptolomeu como, por exemplo, aos 13 livros do Almagesto (Sintaxis matemática), dois comentários às Tábuas: o grande comentário, escrito em cinco livros e o pequeno comentário, apenas em um.

Sabemos que também ensinou e escreveu comentários sobre o Corpus Hermeticum e os Hinos Órficos, ambos sublimes compêndios da Doutrina Secreta. O primeiro um compêndio egípcio e o segundo grego. Theon também escreveu estudos sobre augúrios e práticas de magia ritual como, por exemplo, um intitulado Sobre os sinais e o exame de pássaros e grasnidos de corvos.

“São os sonhos da alma que assassinamos ao entregarmo-nos à inércia e à voracidade do mundo, ao deixar de viver segundo os imperativos da nossa consciência e fazê-lo amodorrados e seduzidos pelos desejos e ilusões do mundo.”

— E já leste os últimos dois poemas que escrevi, Hipátia? — perguntou Theon retomando a conversa.
— Sim, e impressionaram-me vivamente — respondeu Hipátia. — No teu poema funerário (aquele em que uma mãe chora o seu filho, um jovem marinheiro afogado no mar) poucos se aperceberão que é também um poema alegórico. A mãe representa a alma que chora a sua obra não concluída; o espírito que chora a personalidade que se afundou nas frias águas do oceano de matéria, transformado num cadáver sem vida. De todos os poemas que li é o melhor que expressa a dor que sinto, como Mestre, quando alguns dos meus discípulos, a quem quero como filhos, não são capazes de superar as provas do mundo e precipitam-se para as suas fauces abertas esquecendo tudo o que sabem, perdendo a sua divina razão, até morrer a inquietação da sua alma no oceano frio e abissal de uma vida sem ideais; apagada para sempre a sua chama interior, aquilo que os fazia semelhantes aos deuses em dignidade e beleza.
— No teu poema — continuou a falar Hipátia enquanto relembrava na sua imaginação os versos do seu pai — as aves marinhas voam em círculos sobre o lugar onde o marinheiro se afundou: são os Ideais, os sonhos e anseios, tudo aquilo que devia ter plasmado e dado vida… ficam a revolutear sem um lugar onde pousarem. São os sonhos da alma que assassinamos ao entregarmo-nos à inércia e à voracidade do mundo, ao deixar de viver segundo os imperativos da nossa consciência e fazê-lo amodorrados e seduzidos pelos desejos e ilusões do mundo. O poema que escrevestes, sobre um escudo que se converte num abnegado e fiel servidor, é também muito belo e evoca significados filosóficos muito profundos. Combate ao lado do seu senhor e salva-lhe a vida numa batalha naval e, depois, quando o barco naufraga, ampara-o no mar até chegar a local seguro.
— Adivinho o mistério que está por detrás destes versos — continuou Hipátia. — A todo aquele que jurou servir um Ideal divino e por Ele combater na batalha da vida os Deuses entregam um escudo no qual vai gravada a sua efígie, o seu selo, a sua garantida protecção. É um Duplo Luminoso, um Génio salvador, cuja missão é servir quem serve o Plano Divino, esse Plano que é para os filósofos a evolução de toda a Humanidade. Os textos sagrados egípcios referem este Duplo Luminoso que acompanha, como uma Arma ou Escudo Mágico, os verdadeiros servidores da Obra dos Deuses. Recordo agora de memória um, o do Livro dos Cantos Potentes que diz: «Sol nascente, tu susténs-te a ti mesmo, sobre o teu escudo, em nome do deus que está colocado sobre o teu escudo. O teu nome é mais poderoso que os deuses, o teu nome do deus sentado no centro da tua nave» — recitou a jovem. — Como dizem os sacerdotes iniciados egípcios, o escudo representa a pureza e sobre essa pureza de vida o discípulo ou «guerreiro de luz» escreve o Nome do seu Eu secreto, que é o nome do seu Mestre-Deus.

Hipátia reflectiu uns segundos antes de continuar:

— Também nos mitos babilónicos fala-se deste amigo divino ou duplo luminoso — disse — é o gigante Enkidu que acompanha Gilgamesh. Os discípulos de Mani, cuja religião é pura arte e que se estendem desde o país de Shin até à cidade de Roma, prestam-lhe culto com o nome de «Duplo» (Sizygia). O que o poema tem de pedagógico, tal como o escreveste, é que quem o ler aprofundará mais e mais segundo os seus conhecimentos e vivências. Quanto mais profunda é a alma, mais profundos os significados que encontrará neste texto…

Excerto do Livro: “Viagem Iniciática de Hipátia: Na Demanda da Alma dos Números”, de José Carlos Fernandez, Director da Nova Acropole Portugal

Go to Top