A RELIGIÃO LUNDA

Autor

Jose Carlos Fernández

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A RELIGIÃO LUNDA

O povo Lunda, actualmente com meio milhão de integrantes, está distribuído pelo Congo, Angola e Zâmbia. Desde o século XVII ao XIX formaram um notável Império, baseado maioritariamente por elementos culturais do Império Luba, com o qual se associaram e ao que, em grande parte, absorveram. No século XIX foram substituídos no seu poderio pelos Chokwe de quem também assimilaram influências culturais e artísticas.

O seu Deus supremo e criador é chamado NZAMBI, a quem não se brinda nenhum tipo de culto, nem ninguém se pode dirigir directamente a ele em orações, estas são enviadas aos espíritos dos Antepassados. Pois é um dever imperativo reconhecer a dádiva dos antepassados e realizar cerimónias e gestos de agradecimento. A adivinhação é importante no momento de estabelecer contacto com os mesmos, e harmonizar-se com eles, quando não apazigua-los de infracções cometidas que depois se convertem em doenças, infertilidade ou má sorte na caça. Os Antepassados também podem afligir as linhagens que não se comportam como devem, ou seja, compartindo liberalmente os bens possuídos em vez de os disputar violentamente. Os principais métodos de adivinhação são a cesta, onde se atiram até 60 objectos que, segundo são dispostos nela e a forma como caem, são lidas pelo adivinho (1); e os chamados oráculos de fricção (faz-se roçar duas peças de um ídolo ou objecto ritual em madeira)

Outra cerimónia importante é o acto de plantar uma árvore num bosque sagrado durante a entronização, árvore que representa os antepassados do novo governante.

O Deus Nzambi dotou cada ser vivo com uma série de qualidades próprias, que determinam a sua fortuna. Ao homem benzeu com a inteligência. Mas este deve precaver-se de certo tipo de entidades sinistras que povoam o mundo invisível, associadas ou sob o controlo dos feiticeiros, que podem debilitar e ainda matar se não são descobertas a tempo e neutralizadas.

Ao contrário dos Luba, que não representam os seus heróis e reis em esculturas, estão os Lunda onde são muito importantes as figuras do antepassado mítico comum (também dos Chokew) CHIBINDA ILUNDA.

Há entre os Lunda uma cerimónia que explicita o seu matriarcado. O marido e a mulher, uma vez casados, devem ir viver durante vários anos na aldeia da mãe e junto da sua cabana, até que o marido se acostume à sua sogra (e imagino que seja iniciado por ela nas regras do dever ser). Dado o embaraço da situação, depois de ter filhos, a cerimónia de kwingishya põe fim a esta prática e ambos podem ir para outra aldeia.

São também de grande importância as cerimónias de iniciação dos jovens, chamada mukanda e das jovens meninas, nkanga. A cerimónia mukanda dura um mês, os jovens, em grupos e com idades compreendidas entre os 10 e 15 anos são isolados na floresta, circuncisados, instruídos nas tradições e conhecimentos secretos do seu povo, na nova conduta que se espera deles, são instruídos em habilidades especiais, são postos à prova, num ambiente de grande disciplina e trabalho duro. Esta cerimónia começa e termina com um acto ritual em que se festeja dançando e cantando, narrando histórias; personagens mascarados encarnam potências e espíritos da natureza.

A cerimónia para virgens, nkanga, realiza-se individualmente para cada uma, não no bosque, como a anterior, mas na própria casa. São excluídas de todo o trabalho físico durante três meses, são cuidadas com mimo e instruídas em etiqueta social, história e destrezas próprias do seu sexo, isoladas numa cabana e visitada apenas por uma mulher mais velha dos arredores. Ao contrário dos rapazes, não se realiza nenhum tipo de ablação. A cada menina é atribuída uma jovem que vela por ela e é a sua constante companheira. A aspirante deve permanecer em silêncio e só pode falar, sussurrando, com esta jovem “madrinha”. Esta cerimónia começa e termina com um ritual de ostentoso rebuliço, que incluem canções obscenas em que se exaltam as virtudes femininas e se denigrem os vícios dos machos. Ao finalizar a mesma entregam-se roupas e dinheiro como presente por entrar na sociedade dos adultos.

 

Jose Carlos Fernández

Director Nacional da Nova Acrópole em Portugal

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