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Mencionaremos agora três poemas mais do vate Helena Galvão, reveladora de profundas verdades filosóficas expressas na linguagem musical da Lira de Orfeu.
Este primeiro, sem título, aparece no portal do seu blogue, e é além disso de ensinamento, canto e oração:
De toda a energia, doar
até o último fôlego.
A cada dia, marchar
até os pés do crepúsculo.
De cada flor, entregar
até a última pétala.
Pois que não há sentido
em querer, como nossa,
uma gota sequer
do néctar que alimenta a grande Vida.
De toda a dor, entregar
até a última lágrima.
De todo alento, doar
como fosse uma dívida.
Com todo o amor, fabricar
deste mais puro bálsamo,
que torna mais leve a caminhada,
malgrado todas as feridas.
De toda luz, vou portar
a menor de tuas lâmpadas.
De tua mão, vou tomar
não mais que um só átomo
que sacie minha sede
e me torne uma fonte
que fecunde esse vale
e dê um novo fôlego
aos que ascendem rumo ao horizonte.
Nada mais ansiar reter, por ilusão,
mais nada.
Só caminhar e alcançar sentir-me, então,
parte desta estrada.
Alçar voo da mais alta montanha
e ousar ver, enfim,
a unidade daquilo que há em tudo
com aquilo que há em mim.
Esgotar de vez a lógica e o sentido
de um mundo cego,
que ousa dividir o infinito
entre aquilo que acredito
e aquilo que nego.
Levar à exaustão todo o recurso,
toda a razão,
que bloqueia o Grande Rio, em seu curso,
que separa a minha da tua mão.
Deixai, Senhor, que eu prove de teu cálice
na justa medida.
Não permiti, Senhor, que eu me embriague,
com tão forte vinho,
que já não entenda a Vida,
que já não veja o Caminho.
Sabeis que, em meu peito, há uma cifra,
uma mensagem.
Há que haver fôlego para entregá-la ao mundo
antes que chegue ao termo esta viagem.
Senhor, fazei com que meu nome seja Entrega,
sonhai comigo sem reservas, sem limites,
pois que tu sabes e, um dia, eu saberei,
que, sem dúvidas, serei
aquilo em que tu acredites.
E este que canta como a alma pode despertar para a verdadeira juventude, como a chama do Mestre faz com que este desperte o verdadeiro sentido da vida, o reencontro consigo mesmo, com a sua verdadeira natureza. Este é o segredo do amor e a sabedoria, o dom da Filosofia, que como a Deusa Atena, não só desperta as almas mas também com o seu elmo, lança e gira, vela sempre por elas.
Havia um jovem que eu vi, um dia,
cuja fúria de viver e de dar vida
soprava quase como um furacão.
Coração jovem, com força incontida,
corria o risco de que sua munição,
mal dominada e pouco conhecida,
sujeita a qualquer súbita explosão,
causasse a ele e aos demais dor e feridas.
Pedi acesso a esse coração
e fui tão gentilmente recebida!
Pude mostrar-lhe, paulatinamente,
ou relembrar-lhe, já que o pressentia,
qual era a única e justa direção
sobre a qual vale usar sua artilharia.
Presenciei lágrimas em um rosto jovem
ao relembrar de coisas tão antigas.
Ergui de novo, com ele, as mesmas vigas
do templo que já habitamos algum dia.
Hoje, a alegria que me traz essa lembrança
vê-se tingida de tristeza e medo,
pois que, na ânsia de dizer-lhe tudo,
deixei para trás metade do segredo.
Sinto-me honrada por me ter aberto
as portas de um recinto tão sagrado,
mas só se deixa a sala de um tesouro
com a segurança de deixá-lo bem trancado.
Ladrões que profanam templos,
sempre os houve e haverá.
Penetram, com vozes ruidosas…
Misturam, a jóias preciosas,
garrafas, palavras vazias.
Trocam o brilho do eterno
pela embriaguez de um dia.
Profanam, com zombarias,
nossas preces mais queridas.
Confundem esterco com ouro,
vivem a desonrar tesouros,
e a isso chamam “vida”.
Se posso pedir-te ainda algo,
agora, meu jovem, te peço:
deixa-me entrar novamente,
dá-me, uma vez mais, acesso.
Eu trago comigo uma espada
e vou ensinar-te a usá-la.
Verás que, à sua frente, se cala
a torpe e profana mentira.
Retoma, outra vez, tua ira,
empunha-a e entra comigo.
Depressa, a banir bravamente
o baixo e covarde inimigo.
É tua a minha mão; toma, aperta-a,
depressa a trancar essa porta.
Purificado é teu peito
de toda impura invasão.
E lembra que a mão que ora apertas
lutará sempre contigo
toda vez que o inimigo
vier a rondar teu portão.
E este outro, tão belo, dedicado ao seu mestre, Luís Carlos, chamando os “ventos do discipulado”, que embalsamam, limpam, purificam e nos trazem mensagens de uma bondade e justiça eternas, desconhecida neste mundo opaco.
És como o vento, cujo sopro e intensidade
varia qual a estação e o momento:
sopra com força e dissipa as tempestades,
sopra suave e desperta os sentimentos.
A antiga flâmula, ao passares, se agita,
e expõe seu símbolo ao olhar que a busca, atento,
e traz à tona as suas lembranças mais bonitas
que tu despertas, com teu impulso… és como o vento.
Qual Hanuman, filho do vento, forte e puro,
protagonista do antigo Ramayana,
por arejares tanto assim a alma humana,
te brindará o Senhor Vayu, no futuro…
Sopro imperioso, pai de todos os meus sonhos,
que insuflas ar ao mais sagrado dos momentos,
fazes vibrar, rosa dos ventos, a minha alma,
e emitir sons meu coração, ao som dos ventos…
Jose Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole









