Na recente película sobre a vida de Margareth Thatcher, magistralmente interpretada por Maryl Streep há uma cena muito sugestiva. Recriminam-na por carecer de sentimentos, perguntam-lhe o que sente sobre um problema x, e ela responde questionando porque não lhe falam de razões e de argumentos, e não de sensações, pelo contrário tão instáveis. Expõe aí o carácter fleumático do inglês típico, armado nos seus raciocínios experimentais berkelianos com os que, por certo, unidos a uma coragem fora do comum, conseguiram domar tantas adversas circunstâncias e estender por todo o mundo o seu império, com as suas luzes e sombras, como tudo o que se projecta nesta terra. Não esquecemos a bíblia de moral principesca e verdades eternas da obra completa de Shakespeare, verdadeira armadura ou esqueleto anímico e heróico de Inglaterra durante vários séculos. Esta tensão heróica, fria racionalidade – dando o devido lugar, apenas dentro, a sentimentos e emoções, e nisto muito semelhantes ao carácter japonês antigo – e moral shakespeariana permitiu-lhes ser foco civilizatório até quase à Segunda Guerra Mundial em que, paradoxalmente foram os grandes perdedores, como demonstrou o seu império desmembrado vários anos depois e o fracasso eleitoral de Churchill. Este carácter indómito e sereno ao mesmo tempo, racional mas sempre na experiência, sem se perder nos labirintos cartesianos, tão caros ao povo francês; não é o que hoje prevalece. Dá-nos a impressão que se partiu num caleidoscópio (1) de vivências e emoções, que já não conseguem ser dirigidas pelas ideias e não sabemos agora onde está o norte, o sul, o este e o oeste. O mar de pranto e as ondas psíquicas transbordando todos os diques e medidas na morte da princesa Diana, ou o converter em heroína e paradigma moral a vulgaríssima ex-actriz de reality show Jade Goody, são muito indicativos disso. Já sabemos que quando os povos apodrecem na sua decadência é quando o dinheiro se converte na medida de todas coisas. E no entanto, não é este o carácter, carne de demagogos e todo o tipo de enganos o da sociedade descrita um século antes por Bram Stoker no seu Drácula, por exemplo, ou o de Cinco Semanas em Balão de Júlio Verne. Lendo estas obras, como ao ler as de Shakespeare, entendemos como os ingleses foram capazes de se lançar à conquista do mundo, e como o seu idioma é hoje a língua internacional por excelência, tendo substituído o francês.
Este romance, Cinco Semanas em Balão foi a primeira das “viagens extraordinárias” escrito por Júlio Verne e editado pelo seu amigo Jules Hetzel em 1863, convertendo-se num best seller de tal magnitude que lhe garantiu as vendas de tudo o que escrevesse durante a vida. Uma leitura ainda hoje de interesse para todos, mas muito especialmente para adolescentes, os que estão a forjar os conceitos e directrizes que governarão as suas vidas. Reúne todos os ingredientes para despertar a sua atenção: aventura, viagens, terras desconhecidas, amizade real, descrição da natureza humana, povos e tribos que para os leitores daquela época seria como se fossem extraterrestres, tão diferentes do que eles conheciam. Quantas gerações aprenderam geografia com os romances de Júlio Verne e um bom Atlas, seguindo com entusiasmo o périplo das suas narrações. Hoje praticamente já quase não se aprende geografia, apesar dos formidáveis meios audiovisuais de que dispomos, e tão pouco procuramos um tipo de exemplaridade moral e os nossos filhos foram obrigados a ler os melodramas humorísticos do “Diário de um banana” e proibiu-se-lhes, inicialmente as aventuras de Harry Potter que, infelizmente, também não são boas para geografia e história e sim para o retorno da dimensão mágica, que governa não só a imaginação mas também a própria existência no seu nível pararracional (ou seja, o nível de mistérios do que o racional é apenas a parte emergida, como sucede num iceberg).
«Que bem Platão tratou o enigma destas três partes ou funções da alma humana, e que chama racional, irascível e concupiscível!»
Há muitas paisagens e ensinamentos memoráveis: as descrições desde a altura (de uma terra que Verne não conhecia senão através dos livros e que deve recrear, portanto, com a imaginação), de costumes, fenómenos atmosféricos (como a chegada do poderoso e perigoso Simun, “vento venenoso”, em língua árabe, que os salva da inanição em que se encontravam), o achado das fontes do Nilo e do Lago Vitória (o mesmo nome que o balão que os faz atravessar África), o ataque com palomas incendiárias – antiquíssima táctica de guerra – e o ataque que sofre também o balão, pelos brita-ossos de bicos acerados; o sacrifício generoso e a aventura de Joe depois de cair no lago Chad; a necessidade de ir liberando peso até inclusive fazer cair a nacela que os suportava, e poder assim desprender-se sobre o rio Senegal.
Os três protagonistas do livro parecem encarnar, remontados pelo balão (perfeito símbolo de engenho e artifícios humanos que, fundamentados na ciência, permitem eludir todo o tipo de obstáculos) a santa trindade da alma humana constituída por e sintetizada no cérebro, coração e mãos (pensamento, sentimento e actos) que devem estar “em linha”, isto é, harmonizados. O Dr. Fergusson, cujo lema é Excelsior, é pura vontade e conhecimento, o seu amigo Richard Dick Kennedy, pura coragem, e o servo e também amigo incondicional do Dr. Joseph Wilson, acção, serviço e sacrifício. Que problemas se se deixa de guiar a razão, se o frio do medo entibia o coração humano, ou se aquele que deve servir em nós se considera princípio, meio e fim de tudo se deixa levar pela cobiça, não querendo servir mais do que a si mesmo. Que bem Platão tratou o enigma destas três partes ou funções da alma humana, e que chama racional, irascível e concupiscível! Que metáfora a do balão, identificando-a coma própria condição humana! Se onde diz balão, lemos “consciência” ou domínio sobre a mente, ou sobre os elementos da nossa personalidade, parece-nos esclarecedor que:
– E porquê precisamente um balão?
– Porque com ele não hei-de temer o calor, as torrentes, as tormentas ou as febres – respondeu o doutor-. Sinto calor? Elevo-me. Tenho frio? Descendo. Encontro uma montanha? Passo por cima dela. Um precipício? Franqueio-o. Um rio? Atravesso-o. Uma tempestade? Domino-a. Não me fatigo ao avançar e detenho-me onde me compraz. Voo com a velocidade do furacão e o mapa africano aparece ante os meus olhos como o maior atlas do mundo.
Interessante também o estudo dos efeitos da cobiça sobre a alma humana. Quando encontram uma mina de ouro e Joe carrega o balão, com tanto peso que já não se pode mover, e o sofrimento moral que lhe causa ir abandonando o apreciado metal segundo as necessidades, crescentes, de movimento (liberdade). Recorda-nos Júlio Verne que o espírito de aventura e o risco numa alma ainda não demasiado contaminada podem vencer esse desejo imoderado de riquezas e poder.
«Que metáfora a do balão, identificando-a coma própria condição humana! Se onde diz balão, lemos “consciência” ou domínio sobre a mente, ou sobre os elementos da nossa personalidade»
Há afirmações no livro, simples, directas, extremamente pedagógicas e portanto importantes de serem ouvidas e meditadas pelos jovens, e que não devem ser esquecidas pelos que já não o são:
As fantasias existem enquanto não existir ninguém disposto a fazê-las realidade (responde o Dr. Fergusson ao seu amigo Ricardo, que tenta dissuadi-lo de fazer a viagem, pois considera-a impossível), e logo:
– Mas não tens em conta os perigos, os obstáculos que vais encontrar no caminho?
– Os obstáculos estão para vencê-los – disse Fergusson com um sorriso – e os perigos existem em todas as partes. Inclusivamente em Londres há perigos, querido amigo. Se o recheio de uma sanduiche não estivesse em bom estado, tu mesmo correrias agora um grave perigo.
E quando estão em pleno deserto, com uma temperatura de 70 graus centígrados, extenuados e sem água:
– Não devemos desesperar – protestou Samuel-. O calor asfixiante sempre é presságio de tormenta.
– Nunca perdes a esperança?
– Nunca – afirmou o doutor – e tu tão pouco o deverias fazer. Creio que sempre há uma solução para os problemas, mas é preciso ter paciência e estar preparados para recebê-la no momento oportuno.
Muito interessantes também as reflexões que faz da relação do ser humano com a Natureza:
– Creio que o deserto é uma monstruosidade – disse a Samuel. Nele podes morrer de sede, de fome ou de calor. Pode matar-te um leão à entrada de um oásis ou acabares feito pó por um remoinho de areia e vento.
– Mas é parte da natureza.
– E que natureza!
– Umas vezes ajuda-te, outras vezes ataca-te. A estratégia consiste em encontrar o equilíbrio justo entre o que podes e não podes fazer com ela.
– Mas isto implica um risco constante, – exclamou o escocês.
– Tudo isto implica riscos. A questão está em querer assumi-los.
Oxalá recuperemos o discernimento necessário para saber o que ler e o que evitar, pois do mesmo modo que os frutos ainda não maduros, em descomposição ou inclusive os intencionalmente envenenados, tudo aquilo que lemos e pensamos é o alimento e sustento da alma. A sua maior ou menor qualidade determinará a nossa saúde mental, o nosso senso comum e capacidade de raciocínio, elevando, como no Balão Victória deste livro de Júlio Verne, os nossos estados de consciência, os nossos estados de alma, a alegria, a serenidade; ou a angústia interior, o desespero ao descender desnecessariamente aos nossos próprios infernos da mão traiçoeira de um mau livro. Há nimbos e presságios de loucuras colectivas. Obras como as de Kryon, ou a pornografia barata e pouco subtil, lamentável e vergonhosa de best seller como a série de As 50 Sombras de Grey são frutos envenenados, o equivalente “lícito”, embora amoral, das drogas leves e duras que arruínam e são a “nata” das nossas sociedades. Do sadismo e masoquismo da trilogia de Millenium de Stieg Larsson, há vários anos, ao erotismo com pretensões literárias, fazendo passar uma e outra vez, as mesmas sobre o barro e detritos dos mais básicos instintos sexuais. O que é que sucede? Nesta campanha organizada de demolição dos valores e da psique humana, teatro diabólico que descreve Platão no Mito da Caverna, todos os anos irão envenenar as nossas almas com substâncias podres, tóxicas, cujos efeitos internos qualquer pessoa com uma certa sensibilidade pode comprovar em si mesmo? E nós, como carneiros sem juízo, vamos todos em massa e cegos aonde nos varejam, ou seguindo a cenoura que é deslocada? Quem está disposto a vender a sua dignidade interior, sabendo que a sua alma fragmentada vai ser dada às bestas, às hienas que rirão ao devorar a carniça já sem vida.
O que semeamos, colheremos e aquilo de que nos alimentamos é o que se converte na nossa saúde ou enfermidade, tanto no físico como no mental. Sejamos judiciosos!
Jose Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole

