O Barqueiro e o Erudito

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Autor

Nova Acrópole

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Conta-se que uma vez um homem erudito aproximou-se da margem de um rio, para que o barqueiro lhe permitisse atravessá-lo. O erudito parecia que carregava toda a sua importância junto com o seu conhecimento, como se temesse perdê-lo. E assim, com soberba de letrado, disse ao humilde e serviçal barqueiro:

– Podes passar-me para a outra margem?

– Sim, claro, são duas rupias.

E o letrado, temendo sujar-se ao tocar o barqueiro, entregou-lhe essas moedas.

Quando já estavam a atravessar o rio, e enquanto o barqueiro fazia o seu trabalho, o erudito perguntou:

– Barqueiro, estudaste Sânscrito, a língua em que foram escritos os Vedas, os Upanishads, as epopeias do Mahabharata e o Ramayana, todos os Puranas e Upapuranas, a língua de Valmiki e Vyasa, a língua com que foi escrito o glorioso Bhagavad Gita, resumo de todo o conhecimento?

– Não senhor, nada sei de dita língua

– Oh, que desperdício de vida, então nada te posso dizer da beleza das suas estruturas sintácticas, dessas formas sublimes analisadas pelo ilustre Patanjali.

– E sabes, por acaso, Latim, a língua de Virgílio e de Cícero, tão agradavelmente sonora e rítmica, como dizia nos seus discursos o grande pretor romano, Quo usque abutere patientia nostra, que significa “Até quando abusarás da nossa paciência”?

– Não senhor, disso também não sei nada.

– Oh que tristeza de vida, então também, não terás lido os versos amorosos de Ovídeo e Catulo, ou as tragédias de Séneca. Oh, Oh, Oh, perdeste sem dúvida metade da tua vida.

E conheces os mistérios da Geometria, que permite medir as distâncias e as superfícies, classificar os ângulos, reconhecer os tipos de triângulos e fundamentar o cálculo diferencial para, claro, poder estudar a Dinâmica dos Fluídos, tão necessário num trabalho como o teu?

– Oh, senhor, nada sei de Geometria

– Bem, bem, bem, oh, vida miserável e arruinada, perdeste metade da tua vida.

E Aritmética, para distinguir os números racionais, os transcendentes, os imaginários?; sabes que Pi, o número que resulta da divisão da circunferência pelo diâmetro é um número transcendente, tal como o número que permite calcular a forma de uma Ciclóide, que é como a forma que assume esta corda estendida na tua barca?

– Não, não, nada sei de Aritmética

Nisto as águas do rio começaram a agitar-se, movidas por uma tempestade que, de repente, e com surpreendente violência começou a agitar a barca. Porém o erudito estava tão possuído pelos seus conhecimentos e com tanta soberba para com o humilde barqueiro que não se apercebia. Repetia, perdeste metade da tua vida inutilmente. E continuava instigando o nosso barqueiro com perguntas com as quais demonstrava orgulhosamente o seu saber.

– Ah claro, e seguramente também não sabes nada de Metafísica, dos mistérios da ontologia e as categorias do Ser..

– Ah, desculpe, desculpe, senhor, e você sabe nadar?

– Eu, eu, e porque me pergunta isso, eu não sei.

– Pois nesse caso, vai perder a sua vida inteira, porque esta barca afunda-se, afunda-se, afunda-se.

Mais importante que acumular conhecimentos é encontrar o sentido da vida, como um fio mágico que conduz a nossa existência. O grande sábio Pitágoras dizia que melhor que um tonel de conhecimento é uma gota de verdadeira sabedoria, e a sabedoria que já é a alma da vida, é quem nos pode orientar no meio das tempestades do mundo. A nossa vida é uma barca frágil, o barqueiro é a consciência. O que é mais importante que chegar, a tempo e bem, ao porto sonhado, e não afundar-se nas enganosas águas do que não somos, não cedendo aos cantos de sereia do mundo? O mais importante de aprender é a Arte De Viver.

 

Nasrudin

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