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Nova Acrópole
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Obteve na Universidade de Paris o grau de doutor em Medicina. Mas também tropeçou nesta cidade com quem viria a ser o seu perseguidor implacável: Calvino. Foi este quem o delatou ante a Inquisição de Viena, que o condenou a ser queimado vivo com os seus livros.
As grandes figuras do Renascimento concordam em reconhecer a relação essencial do homem com a Natureza, e é sobre esta base que a corrente humanista estabelece a premissa fundamental da investigação experimental moderna. A nova investigação está fundamentada na observação e na experiência, aspectos que só podem colocar-se em acção através de um interesse vital que provém do facto de que o homem está imbricado na Natureza, e que uma das suas faculdades cognoscitivas mais eficazes deriva, precisamente, da sua relação com ela. Neste sentido interessa –nos destacar uma personagem surpreendente e não suficientemente conhecida do Renascimento: Miguel Servet.
Apaixonado pela medicina e pela teologia
Podemos afirmar sem nos equivocarmos que Miguel Servet foi um dos médicos mais cultos do seu século, sem desconhecer por isso a Teologia, que tinha sido a guia inamovível de qualquer outro conhecimento. Aliás, interessaram-lhe a Filosofia, as leis e todos os ramos da ciência do seu tempo.
Sabe-se que nasceu em Espanha, ainda que não seja certo que tenha sido na actual província de Lérida ou em Tudela, no reino de Navarra. Inclinamo-nos para esta segunda opção e pela data de 1509. Muito cedo mostrou disposição para os estudos, de tal forma que aos catorze anos já sabia latim, grego e hebreu. Dedicou-se intensamente à Teologia, e ainda que se tenha apaixonado pela Medicina, logo quis relacioná-la com os mistérios originais da Divindade.
Quase com vinte anos, o seu pai enviou-o para Toulouse, na França, para estudar leis. Foi aqui que as suas fortes afeições teológicas despertaram. Também se comenta que esteve previamente em Itália, na corte do imperador Carlos V, onde teve contacto com um movimento heterodoxo de arianos renovadores. Na Alemanha e na Suíça conheceu o movimento protestante. Encontra-se entre as suas amizades mais frequentes, nesta época da sua vida, o próprio Calvino.
Em 1531 publicou a sua obra De trinitatis erroribus. Esta obra valeu-lhe duras críticas dos protestantes, especialmente de Zwinglio, que o consideraram orgulhoso, disputador, blasfemo e herege pela sua doutrina antitrinitária. Em Basileia proibiu-se o livro e alguns magistrados propuseram a sua perseguição.
Um ano depois publicou um segundo livro sobre o mesmo tema, pelo que devido a isso teve que abandonar a Suíça e partir para França, sem deixar as suas ideias teológicas mas dedicando-se a outros estudos. Para sua segurança pessoal mudou de nome –com o qual tinha assinado os seus escritos– pelo de Miguel Villanovano ou Michel de Villeneuve.
PERSEGUIDO POR HEREGE
Durante os vinte anos seguintes dedicou-se à Medicina, mas o seu espírito inquieto levou-o também a indagar pela Geografia, a Astronomia, a Matemática, etc. Alcançou o grau de doutor em Medicina na Universidade de Paris. Mas nesta cidade também tropeçou com quem viria a ser o seu implacável perseguidor: Calvino. Foi este quem o denunciou perante a Inquisição de Viena, que o condenou a ser queimado vivo com os seus livros, e as suas cinzas arremessadas ao vento. Para fugir do seu delator Servet foi a Genebra, onde tropeçou outra vez com Calvino; prendeu-o, denunciou-o novamente e levou-o à fogueira com os seus escritos.
Mas antes de tão triste fim, passou por Lyon, onde empregou o seu tempo em estudos de Geografia e Matemática. Em 1535 publicou um trabalho admirável para a sua época: uma nova edição da Geografia de Ptolomeu.
Em 1536 voltou a Paris, onde aprofundou os seus estudos de anatomia como tutor e companheiro do grande Vesalio, um pouco mais jovem que Servet. Adquiriu grande fama e renome, não somente como médico mas também como matemático e astrólogo, reunindo entre os seus discípulos muitas personagens eminentes daquele tempo. Como nas suas aulas falava da ignorância dos médicos de Paris em temas astrológicos, foi denunciado pelos seus colegas como suspeito de heregia. Para defender-se destas acusações escreveu um opúsculo que, de resto, contém dados tão interessantes como a descrição de um eclipse de Marte pela Lua, que Servet interpretava como produtor de pestes, guerras, catástrofes e perseguições contra a Igreja.
No Parlamento de Paris decretou “que podia continuar Michel de Villeneuve fazendo da Astrologia profissão, mas sem falar dos particulares influxos dos astros”, e forçaram-no a entregar todos os exemplares do seu opúsculo.
Depois de uns anos de vaguear inquieto de uma cidade para outra, volta a Lyon em 1541, onde publica a segunda edição de Ptolomeu, que dedica ao arcebispo de Viena, antigo discípulo seu. No ano seguinte publica a Bíblia latina, com notas próprias e interpretações sobre as profecias, de tal forma que alguns dos seus biógrafos opinam que Servet é o pai da exegese racional das doutrinas evangélicas, adiantando-se nisso a Giordano Bruno, Spinoza e outros racionalistas destacados.
Depressa se muda para Viena chamado pelo arcebispo, e ali vive tranquilo e apreciado por todos como médico durante doze anos, sem esquecer os assuntos teológicos.
As suas relações com imprensas e livreiros de Lyon puseram-no outra vez em contacto com Calvino, com quem trocou correspondência. Servet não pôde evitar as imediatas disputas teológicas e o emprego de termos pouco bajuladores para quem, no fundo, pretendia redimi-lo. As cartas do médico começaram a encher-se de ironias e, por fim, mandou-lhe o rascunho do seu livro Christianismi Restitutio, recomendando-lhe desta maneira que o lesse devagar: “nele encontrarás coisas estupendas e inauditas (com efeito, já descreve a circulação pulmonar), e se preferires, irei eu mesmo a Genebra explicar-tas”.
Calvino não quis recebê-lo, mas escreveu assim sobre Servet: “… Pois se vier não sairá vivo das minhas mãos ou pouco valerá a minha autoridade”.
DURA CRITICA À RELIGIÃO
Depois de muitas peripécias, Servet conseguiu publicar esta obra, que era uma dura crítica contra as ideias teológicas, tanto católicas como protestantes. Apesar de ter tido muito cuidado na distribuição dos exemplares, um deles caiu nas mãos de Calvino, que o utilizou para a mencionada denúncia perante a Inquisição de Viena.
Toda a sua vida foi um conjunto de sucessos extraordinários que o convertem num pensador de primeira linha, tanto no aspecto religioso como no científico. As suas ousadas opiniões teológicas, as suas discussões com os reformadores da época, as suas disputas com os doutores da Escola de Paris e, sobretudo, a sua trágica morte, despertaram a curiosidade dos estudiosos e, lamentavelmente, mais fora de Espanha que dentro dela. Depois da sua morte em Genebra em1553, queimado na fogueira com os seus escritos, o esquecimento ocultou-o durante mais de um século e meio. Uma primeira, ainda que incompleta biografia de Servet apareceu em Londres em 1712. Em Espanha, devemos ao ilustre Menéndez Pelayo uma biografia completa de Servet na sua História dos espanhóis heterodoxos.
Dr. António Alzina
Bibliografia
História da medicina. Pedro Laín Entralgo.
História dos espanhóis heterodoxos . Menéndez Pelayo.
Apontamento biográfico de Miguel Servet do Dr. José Goyanes Capdevila. Madrid, 1932









