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Autor
José Carlos Fernández
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Os ensinamentos mais difíceis e metafísicos nos quais parece que a alma se expande e eleva, num céu em que o discípulo é incapaz de permanecer muito tempo, eram acompanhados por diálogos filosóficos orientados sempre por Hipátia, à maneira socrática da maiêutica; e estes acompanhados por recriações e explicações de mitos e fábulas que, essas sim, se fixavam na memória para sempre. O valor dos outros ensinamentos dependia do estado de alma alcançado e algumas destas vivências não eram fáceis de evocar novamente e apenas eram recordadas como uma maravilha difícil de explicar. No entanto as lições psicológicas e morais destes mitos e fábulas eram recordadas durante toda a vida.
Por detrás de algumas destas fábulas inocentes encontravam-se, além disso, verdadeiros mananciais de sabedoria, e não só moral…
Um dia, por exemplo, no meio de um desses diálogos filosóficos em que se debatia o sentido da generosidade e do sacrifício, Hipátia narrou a fábula do cozinheiro, atribuída a Esopo:
«Um cão entrou numa cozinha num momento em que o cozinheiro estava ocupado. Este virou-se e vendo o cão que fugia disse-lhe: Oh tu! Entende que onde quer que estejas te vigiarei, não me tiraste um coração, deste-mo».
— Deveis conhecer esta fábula — disse-lhes Hipátia — a evidente moral que podemos deduzir é que podemos transformar em virtudes os aparentes males da vida, por exemplo os bens materiais que nos são arrebatados e que a partir de daí estaremos mais precavidos. Talvez se tudo nos fosse dado conforme aos nossos desejos e sem nunca corrermos um risco, tornar-nos-íamos preguiçosos, abúlicos; deixaríamos de perceber o sentido da vida, cobertos pelo barro da negligência.
Pensar, queridos discípulos, que caminhamos porque o movimento provoca um desequilíbrio e que no próprio movimento se estabiliza. Se nos negássemos a aceitar desequilíbrios, a perder o que pertence ao passado procurando o futuro, permaneceríamos enraizados na terra. Se não queremos que a vida nada nos arrebate do que já nos é inútil, pereceremos esmagados pelo peso daquilo que já não serve para nada: rancores sem sentido, desejos de felicidade do que foi e hoje é já impossível, experiências dolorosas nem assimiladas nem esquecidas, etc. Todos estes ensinamentos abrem-se, como que em leque, ao meditar sobre esta fábula. Platão dizia que devemos acorrentar as estátuas dos Deuses para que não voltassem às suas moradas celestes: está claro que falava alegoricamente! O que queria dizer é que devemos atar as intuições e as vivências filosóficas, os voos da alma a imagens mentais, a recordações simples que nos permitam ter sempre presente as ideias que, de outra forma, retornam ao céu sem deixar rasto.
Hipátia continuou com a exposição:
— Mas esta fábula, como todas as de Esopo, guarda ensinamentos mais subtis relacionados com a condição celeste da alma humana, ensinamentos de Astro-psicologia esotérica e ainda de Alquimia. O cozinheiro é cada um de nós que no nosso próprio interior estamos sempre a «cozinhar» aquilo que pensamos: toda a informação que chega do mundo, por um lado, e a resposta emocional que provoca. É a consciência como sala de comando do exército onde entram os mensageiros chegados de todas as partes e o eu-general planeando a sua estratégia ou simplesmente deixando-se levar pelos seus desejos e temores. O cão simboliza a Estrela-Cão, isto é, Sírio e também o deus egípcio Anubis. Segundo os ensinamentos mistéricos – já falámos disso em várias ocasiões (dialogava naquele momento com os discípulos mais avançados) – a raiz espiritual da consciência está ligada ao influxo dessa Estrela, dentro da teogonia de Deuses Criadores. Como se um raio da alma divina de dita estrela, de Sírio, despertasse nesta consciência um Eu Espiritual. Este é o Coração Vigilante referido na fábula ou o coração de Ar e fogo dos textos herméticos. Mas é necessário que a consciência abandone a relação com o mundo dos sentidos, ou melhor, com os seus apetites desenfreados representados pelo coração de carne que o cão rouba. Sem esse sacrifício não pode brilhar a Estrela dos Mistérios dentro da Alma humana. O «cozinheiro» disse vigiará incessantemente onde quer que se encontre este cão, isto é, que a consciência se virará para esse foco de luz perpétua, uma e outra vez, no meio das evoluções cíclicas da vida, no meio da alternância da luz e da obscuridade, alegria e tristeza, tormenta e bonança. É portanto uma forma muito rude e familiar de expor o mistério da Iniciação.
Depois explicou-lhes outra fábula de Esopo, a da serpente que se apresenta nas bodas de Zeus com uma rosa na boca como oferenda e Zeus responde que não queria tirar a rosa dos seus lábios. A lição moral era claramente que o poder (simbolizado por Zeus) tem que manter-se precavido frente à adulação (rosa) e o engano dos língua-de-serpente, isto é, dos que querem envenenar a mente e manipular os poderosos com turvos propósitos. Mas depois Hipátia começou a fazer uma leitura esotérica da fábula: a Serpente era a energia e vontade primordial que dorme no coração de tudo o que existe, uma forma da Mãe do Mundo. As bodas de Zeus, a epopteia final da alma humana, a sua consumação no fogo espiritual divino, e a rosa o centro energético mais elevado, no topo da cabeça, abrindo a sua luz e esplendor multicor ao ser vivificada por esta serpente que era, definitivamente, a serpente Oreus da simbologia egípcia.
Noutro dia explicou-lhes outra fábula de Esopo, a galinha que incuba ovos de serpente e uma andorinha avisa-a que a irão devorar quando crescerem. Hipátia disse-lhes que eles próprios eram essa galinha imprudente quando deixavam de manter-se alerta aos processos das suas almas e vidas interiores. Que a andorinha era, tal como se ensina na religião egípcia, a alma imortal ou luz divina que apenas pousa no topo das coisas, no mais elevado, ou seja, a sabedoria, a voz da consciência que não erra. Entre as serpentes que ocultamos, disse para prestarem especial atenção à do orgulho que nos isola e separa da corrente da vida, que nos faz desobedecer aos nossos Mestres e ao melhor de nós mesmos, que nos converte em tiranos e que nos pode afastar da Senda. O orgulho, continuava, impede que o conhecimento se transforme em vivência e por isso se estanca e apodrece, e deixando de ser uma bênção converte-se, sem luz, numa maldição que afoga a alma.
Excerto do Livro: “Viagem Iniciática de Hipátia: Na Demanda da Alma dos Números”, de José Carlos Fernandez, Director da Nova Acropole Portugal









