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Autor
José Carlos Fernández
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Logo após chegar a Alexandria e ter uma entrevista com Olímpio, Hipátia começou a pensar como e onde organizar uma Escola de Filosofia. Descartou a primeira opção, a mais fácil: aproveitar os contactos do pai e das suas amizades para ser nomeada magister de retórica ou assumir a cátedra de alguns dos mestres que trabalhavam como funcionários públicos da cidade, pagos com o erário público. Em tempos tão turbulentos como os que se viviam, ela não podia ser um dígito dos poderes estabelecidos, sobre o que se podia ensinar ou não e como. Não tinha sido Iniciada nos Mistérios para mendigar o seu pão. Não havia realizado o Grande Juramento para depois deixar de obedecer ao seu Destino, o Plano da Vontade Divina, e vender-se aos poderes do mundo.
Não, a sua Escola devia ser totalmente independente e nem sequer ter relação com o Museu ou a Biblioteca de Alexandria, no Templo de Serápis, tal e como a tinha aconselhado o sábio Olímpio.
A sua própria casa, grande e espaçosa, lhe serviria de Escola; dispunha de salas amplas, jardim e, inclusive, salas subterrâneas interessantes para certos exercícios místicos e para um pequeno laboratório alquímico. Construiria um pequeno auditório especialmente para as conferências públicas que daria pelas tardes. Seria suficiente que se pudessem sentar comodamente cem ou cento e cinquenta pessoas e serviria também para determinadas encenações teatrais, secretas, pois os decretos de Teodósio tinham proibido o teatro como uma manifestação de paganismo, mesmo nos recintos privados. Este teatro estaria reservado para os seus discípulos mais íntimos e seria utilizado não para entretenimento mas sim para corporizar ritualmente certas verdades ou mistérios que, ao serem expressados só com palavras, é como se fossem profanados. No fundo, este teatro serviria para adaptar aos tempos e dificuldades actuais o teatro alegórico, representado sempre nos Mistérios, quer sejam de Osíris, de Eleusis, Delfos ou Samotrácia. As Escolas de Mistérios estavam corrompidas pelo medo, fechadas ou destruídas e os discípulos mais directos de Hipátia, Iniciados na Filosofia, deviam experimentar através da alegoria teatralizada certos «factos sagrados» que desenterravam recordações da alma, evidências íntimas ou anseios impossíveis, todo um tesouro de iridescentes jóias sepultadas pelos medos do século ou que o barro do mundo tinha sujado.
Também dispunham de um terraço, em cima, para todas as suas aulas práticas de astronomia; o caminho e estudo, segundo Platão, que abre a porta à mais elevada teologia. Ou para, nas calorosas noites de Verão, continuar os seus diálogos filosóficos sobre a alma ou sobre o sentido profundo da vida, beijados pela luz bondosa das estrelas.
Na Escola não se aceitaria nenhum tipo de sectarismo religioso, político ou racial. Estava aberta a cristãos ou a fiéis das religiões antigas ou, inclusive, mistéricas (como a de Mitra) e também àqueles que nada tivessem a ver com nenhum tipo de credos ou cultos. Estava aberta a romanos, egípcios, judeus, núbios, germanos ou godos… A única coisa que se exigia era uma aristocracia da alma, uma nobreza interior que sentisse o apelo dos mais puros ideais e não dos interesses e vaidades do mundo; e um sentido da medida inata capaz de separar o aparente dos jogos de ilusões. Era necessário, também, uma mente acostumada à reflexão, à solidão interior e à capacidade de abstracção, sabendo ler, naturalmente e com toda a alma, no livro da vida sem fantasias. E estas últimas condições apenas para o círculo mais íntimo: aqueles que desejavam penetrar nos Mistérios da Filosofia, jovens geralmente ainda sem demasiados vínculos com o mundo.
As suas dissertações à tarde, como tinham feito Aristóteles ou Plotino e mesmo o seu Mestre Plutarco, estariam abertas a quem quisesse e sem necessidade de pagar nada, podendo entrar e sair sem nenhum tipo de restrição. Mesmo que, na realidade, fosse difícil, muito difícil, entrar para ouvir a jovem filósofa e não permanecer até à meia-noite para escutar as respostas às perguntas que se formulavam ou os diálogos inspiradíssimos que surgiam na sua presença. A beleza da sua alma, a graça e o encanto da sua juventude; o poder vibrante, luminoso, das ideias que expunha; a musicalidade da sua voz cuja melodia e som pareciam ser da Lira de Orfeu; a luz áurea dos seus olhos verdes como o mar convertiam os seus discursos numa cerimónia religiosa, na qual o tempo se detinha e todos, ricos ou pobres, anciãos e jovens, crentes ou não de um qualquer culto, entravam em comunhão mística donde saíam com lágrimas de gratidão nos olhos, melhores, mais fortalecidos ante a tragédia da vida e com um sentido de humanidade profundo, renovado, a salvo dos ventos pestilentos da discórdia.
O círculo de discípulos mais íntimos devia ter um programa secreto porque o objectivo era elevar homens-colunas que sustentassem a sociedade, não só alexandrina, mas também de todo o Império Romano em decadência. E para isso era necessário fazer com as suas almas uma alquimia poderosa. Para fazer almas livres das suas próprias paixões e das paixões dos outros, para evitar que aqueles que assumem responsabilidades públicas se convertam em tiranos e sejam seduzidos pelas tentações do poder, é necessário um renascimento, ou melhor, uma ressurreição interior como a que tinha vivido Hipátia no Templo de Ísis.
Várias vezes por semana, pela tarde, reunia na sua casa já transformada numa Escola de Filosofia a gente de Alexandria mais interessada e cada vez até mais sublimada pelo discurso de Hipátia. E assim, pouco a pouco, iam-se aproximando as almas e os jovens que iriam formar o «coro» dos seus discípulos; os quais iam não só a beber o mel dos ensinamentos de Hipátia mas também a ajudar a difundir a sua luz ao mundo. Eles seriam os seus verdadeiros filhos da sua alma, pois se ela tinha decidido não gerar através da carne, era para amamentar com a sua sabedoria, e até com o sangue da sua vida, esta nova família unida com os laços indissolúveis do espírito. Esta irmandade que, unida, pode atravessar as diferentes portas e provas da vida e até da morte.
Um dos seus primeiros discípulos foi Sinésio, de uma das melhores famílias de Cirene e com a mesma idade que Hipátia. Sinésio tinha sido cuidadosamente educado na sua província natal em estudos helenísticos e retórica. Era activo, amante das armas e das tradições castrenses, um guerreiro nato, apaixonado também pelos exercícios equestres e a caça. Ficou perdidamente apaixonado pela sabedoria e beleza de Hipátia e, como ele mesmo afirmaria, abandonou a tentação de ser um dos melhores oradores do seu tempo, um herdeiro de Díon Crisóstomo, para consagrar-se à Filosofia junto de Hipátia. E a Filosofia estava indissoluvelmente associada ao sacrifício e a não querer, se não for necessário, subir no veloz carro da Fortuna e viajar melhor a pé(1): «O lote dado pela divindade à venerável filosofia é o infortúnio» diria frequentemente. Vários anos depois, em 397, Sinésio chegaria a ser embaixador da sua pátria perante o Imperador e sua corte em Constantinopla. E, inclusive, como um acto de renúncia exemplar, bispo na Ptolemaida.
Também foi convocado ao círculo de Hipátia, e se tornaria no amigo íntimo de Sinésio, o nobre Herculiano e o seu irmão Ciro, nascidos em Panópolis, muito bem relacionados e de trato habitual com membros do governo e militares de alta patente em Alexandria. E Olímpio, um jovem cristão, terratenente da Pieria Síria; um apaixonado dos modos aristocráticos rurais incluindo, claro, o amor aos cavalos, aos cães e à caça, como Sinésio. Olímpio, relacionado também com as melhores famílias de Alexandria, frequentava o chefe das armadas imperiais. Permaneceria junto de Hipátia durante dez anos, até 402.
Também formou parte deste círculo sagrado Hesíquio que viria a ser governador da Alta Líbia nos primeiros anos do século V; e Teocteno, a quem chamavam «o santo pai»; Atanásio e Teodósio, que mais tarde seriam dos melhores oradores e gramáticos de Alexandria; e Gaio, também íntimo de Sinésio, a quem este chamava «o homem mais compreensivo».
Estes, e dezenas de discípulos mais, formaram as almas selectas que Hipátia formaria cuidadosamente. Todos eles se consideravam, para lá de serem cristãos ou não, membros da mesma Família espiritual e a maior parte assumiram cargos destacados, imperiais e eclesiásticos. A Escola de Hipátia, na sua intimidade, era um atanor onde se estava a forjar um dos núcleos de benfeitores daquele século, de almas heróicas que, ainda que não pudessem resistir ao lamaçal de causas acumuladas durante centenas de anos, podiam fazer-lhe frente e enobrecer a vida. Se compararmos Hipátia com Vésper, a estrela da tarde, os seus discípulos eram os últimos raios de luz de um ocaso ensanguentado.
No seu programa de estudos iria incluir, sem dúvida, a retórica e os estudos helenísticos; danças de euritmia e exercícios de ginástica extraídos dos Templos, necessários para canalizar a energia solar e harmonizar os centros nervosos; Matemática e Geometria Sagrada (que incluía a Ciência dos Volumes ou Esteronomia); a Música, para regularizar a Psique e Hinos Sagrados segundo as tradições órficas e pitagóricas. Coroa destes ensinamentos, como explica Platão na República, era a Dialéctica e a Maiêutica. Esta última é o diálogo interior, o uso do logos, da mente, não para defender as próprias convicções perante os outros mas sim para eliminar as dúvidas, transmutando-as em certezas. Maiêutica é Renascimento interior, a arte de dar à luz, como fazia Sócrates com os seus discípulos. Maiêutica é a busca da verdade, a libertação do erro e das falsas opiniões geradas pelas sombras emocionais.
Os seus discípulos estudariam também com ela Astronomia, o vestíbulo da Teologia, da verdadeira Teologia, ou seja, o conhecimento da natureza e alma das Potências Celestes e como harmonizar-se com Elas. A Astronomia coroava os estudos de Matemática e Geometria Sagrada, pois utilizava os seus métodos e corolários mas era, na realidade, irmã celeste da Música. E como afirmara Platão, Astronomia não é só o estudo da posição dos astros, pois «não há nada sensível que seja objecto de ciência», mas sim a interpretação e vivência de que os Astros são Números Corporais e das relações da sua natureza e movimentos.
Para além de todas estas ciências e apenas para os discípulos escolhidos que tivessem superado uma série de provas – sendo estes os que constituiriam a verdadeira irmandade ou família espiritual – Hipátia ensinava-lhes, sob prévio compromisso de manterem em segredo tais conhecimentos, todo um programa de Doutrinas Esotéricas sobre o Homem e o Cosmos. Este núcleo de ensinamentos herméticos era uma adaptação muito resumida de tudo o que ela tinha aprendido na sua Iniciação nos Mistérios, e formava a chave e quinta-essência de todos os outros ensinamentos, aquilo que os verdadeiramente iluminava e lhes dava um sentido de finalidade e transcendência. Hipátia repetia-lhes que todos estes conhecimentos, e a chama desta Sabedoria Eterna, permitiam que, gradualmente, as suas almas fossem libertadas de impurezas, o Olho interior se libertasse da prisão do mundo e que a mente se harmonizasse, convertendo-se, pouco a pouco, na câmara de ressonância da Alma Universal, tornando-os assim mais sábios, mais puros, melhores e mais justos, e podendo estender essa Luz espiritual sobre os outros e até sobre a Natureza. O uso destes conhecimentos para outros fins, e pior, para engrandecer o sentimento de importância pessoal, o ego animal e dominador, era profanar estes ensinamentos e atrair fortemente ao próprio coração os poderes das sombras. Era necessário, portanto, ser-se muito cuidadoso e caminhar pela vida, dizia ela, como se o fizéssemos sobre a superfície gelada de um lago… quando já começa a fazer calor.
Estes últimos ensinamentos, as Doutrinas Herméticas, eram como uma chave de ouro para ler muito mais além do que aparentemente diziam as obras de Platão; permitia entender o verdadeiro significado das suas alegorias e até das alegorias dos Livros Sagrados do Cristianismo e de muitos outros povos. Os textos herméticos que circulavam por todo o Império Romano e mesmo vários papiros que Hipátia lhes mostrava e traduzia da linguagem hieroglífica, sem esta chave de ouro estavam fechados como um criptograma não resolvido. E, no entanto, fazendo «girar» esta chave é como se a luz rasgasse um véu de sombras e aparecessem maravilhas, paisagens grandiosas e cenas de sabedoria cujas imagens e significados penetravam na alma como uma fonte de bênçãos, deixando-lhe uma marca de «terror sagrado»: a sensação vertiginosa de um abismo espiritual. Ainda que a verdadeira «chave de ouro» que permite abrir todas as portas e preencher os vazios do conhecimento, a que permite o recto discernimento e completar os vazios da nossa ignorância seja a lei da analogia; o princípio hermético de «Assim é em cima como é abaixo», que estabelece uma relação indissolúvel entre o microcosmos-homem e o macrocosmos-universo.
Deste modo os seus discípulos mais directos aprendiam a origem do Cosmos, a história da Humanidade em ciclos de milhões de anos, o estudo pormenorizado de como a corrente da Vida Una se expressa nos diferentes reinos mineral, vegetal, animal e humano, e os ramos em que se abre esta árvore da Vida, aprendiam Medicina Esotérica… e tantas e tantas matérias das quais Platão esboça um desenho no seu Timeu, uma das obras preferidas das escolas neoplatónicas teúrgicas.
Nalguns destes ensinamentos os discípulos tinham que demonstrar que não se deixavam governar pela fantasia e conservavam um senso comum a toda a prova.
Hipátia usava muito um exemplo que era uma das provas de acesso dos pitagóricos ao seu Templo-Escola, prova a que ela mesma tinha sido submetida em criança por um astrólogo caldeu que visitou o seu pai Theon. E que ela, tendo apenas quatro ou cinco anos, superou com sucesso.
Hipátia desenhava sobre um quadro três pontos formando um triângulo equilátero e perguntava aos seus discípulos, um a um;
— Qual é a figura geométrica que tens ante teus olhos?
— Três pontos — respondiam.
— E por que não um triângulo? — tornava a perguntar Hipátia.
— Porque é a mente que «imagina» e traça as linhas entre os pontos. — Respondeu Hesíquio. De tal modo que, se me deixo conduzir por ela, deixo de ver os três pontos e agora vejo um triângulo. A mente está aí, indómita como o vento, deixando-se levar pelas suas recordações, pelas suas esperanças ou pelos seus desejos, deformando a realidade, matando a verdadeira percepção, como uma lente colorada que deforma e falseia o que vemos. Na realidade, o que vêem os olhos… e a mente, se está serena e calma, são três pontos.
— Claro — respondia Hipátia. — Pensa que se o discípulo se pode deixar levar por estes jogos de fascínio mental com três pontos, o que sucederia se não fosse capaz de dominar a sua mente e fantasia quando o Mestre descreva geométrica e aritmeticamente uma infinidade de segredos sobre o Ser. A diferença que existe entre aquilo que ensina o Mestre e o que o discípulo pode desenhar numa mente governada pela sua fantasia ou egoísmo, levá-lo-ia a labirintos sem saída que submergiriam a sua alma nas trevas. Por isso o senso comum é vital, três pontos são três pontos e um triângulo é um triângulo; há que poder separar com uma linha matemática o que se sabe, o que não se sabe e o que se opina. As estrelas distantes aparecem aos nossos olhos como pequenos focos ou esferas de luz, mas são pontos já que estão tão distantes que não ocupam nenhum ângulo visual. E isto demonstra-se quando aumentamos a imagem usando lentes ópticas: aumentamos a imagem e no entanto não aumenta o ponto de luz, aumenta a sua luminosidade mas não o seu tamanho. Nesta analogia, a estrela distante é uma verdade que penetra na alma, é o que sabemos, e a estela de luz que a rodeia é o que opinamos e que se vai fundindo na obscuridade do que ignoramos. Deste modo, meus queridos discípulos, nunca contamineis os ensinamentos com as vossas fantasias, sede fiéis a eles e se chegar o momento de transmiti-los a quem estiver preparado, nunca os deformeis. Como dizem os sacerdotes egípcios: «Ensina com o método dos sábios, não acrescentes uma vírgula à instrução recebida».
Excerto do Livro: “Viagem Iniciática de Hipátia: Na Demanda da Alma dos Números”, de José Carlos Fernandez, Director da Nova Acropole Portugal









