Astronomia no Antigo Egipto

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Nova Acrópole

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No início do terceiro milénio, as conjecturas sobre o antigo Egipto continuam em confronto: os seus monumentos foram projectados em bases científicas e astronómicas, como defendem alguns investigadores, ou são fruto do acaso, segundo os mais incrédulos.

O instrumento astronómico egípcio característico era a merjet, muitas vezes também escrito como merkhet ou mesmo de outras formas; recorde-se que na escrita egípcia ou na árabe as vogais não se escrevem. Este instrumento, de acordo com vários autores, é descrito das seguintes formas:

Consiste numa estreita barra horizontal terminando num pequeno bloco saliente. Tem dois buracos numa das extremidades do bloco para pendurar um fio de prumo. Literalmente, significa “instrumento de conhecimento.” Podemos interpretá-lo como um indicador de direcção das estrelas (Edwards).

Consiste numa haste de palmeira com um corte em V na parte superior, fazendo as vezes de um reticulado de um moderno teodolito. Ele está ligado a uma prumada chamada” tj”, que permite determinar a posição de alongamento máximo das estrelas. (Zaba)

De acordo com a reconstrução esquemática “segundo a escrita hieroglífica” assemelha-se a uma pínula que consta de um pé para fixá-lo no chão e de um fio de prumo para colocar o conjunto “em paragem” nivelá-lo e orientá-lo. (Pochan).

Como podemos ver, não há acordo quanto à forma deste instrumento, que é mencionado por este nome, em muitos textos antigos. Edwards diz que no Museu de Berlim, há um instrumento como o que ele descreve. Álvarez López utilizou instrumentos com estas características, obtendo uma precisão muito baixa devido à imprecisão do centro de posicionamento. Edwards, ao interpretar merjet  como “indicador” postula três tipos de merjet :

1) O primeiro serve apenas como um indicador de direcções,
2) O outro que tem mais uma prumada, para a observação do alongamento máximo das estrelas,
3) Um terceiro que tem a haste graduada e permite medir o comprimento da sombra do conjunto sob a luz solar.

Quanto aos relógios, Zaba diz que foram utilizados três tipos diferentes: o relógio de água, o relógio de sombras e o relógio astral ou de medição da altura das estrelas. O relógio de sombras, baseado no comprimento da sombra projectada por um instrumento orientado para o Sol, é bem conhecido. A base do relógio astral reside nos chamados “decanes”. Contudo concentrar-nos-emos agora no estudo dos relógios de água ou ampulhetas de água, e em particular na encontrada em Karnak.

O procedimento é simples. A ampulheta consiste num vidro em forma de cone truncado invertido, que se enchia de água até à borda quando o sol se punha, pois o seu uso era nocturno, quando não se pode medir a sombra solar. No fundo tem um pequeno buraco engenhosamente calculado. Na parede interior da ampulheta, há doze colunas com onze pseudoburacos mais ou menos espaçados, que correspondem às 12 horas da noite, escalonados de acordo com os doze meses do ano. Quando a água chegava ao nível da primeira marca do mês em questão, a segunda hora da noite começava.

Eles acreditavam que a alturas iguais de água correspondiam tempos iguais. Com as dimensões desta ampulheta, o raio da parte superior é o dobro do da parte inferior; o relógio atrasa-se meia hora na primeira metade da noite e em seguida recupera o atraso. Mas os egípcios não possuíam qualquer ferramenta métrica para descobrir esta imperfeição. Além disso, a drenagem torna-se irregular quando o nível está baixo. A sua invenção remonta ao início da dinastia XVIII (1680 a.C.). A ampulheta encontrada em Edfú, que é mil anos posterior, mede o tempo com maior precisão. O recipiente é tão grande que o seu nível praticamente não varia no decorrer da noite. A água é recolhida num recipiente cilíndrico sendo por isso a altura da água proporcional ao tempo decorrido.

Instrumentos ópticos?

Investigadores russos encontraram no Egipto, mapas astronómicos de surpreendente precisão, com a posição das estrelas milhares de anos atrás.
Também encontraram lentes de vidro, esféricas, de grande precisão, possivelmente utilizadas em telescópios. As lentes só se podem polir com um produto abrasivo: óxido de césio, que só se produz com o auxílio da eletricidade.

Esta citação de Kolosimo pertence mais à ficção científica do que a outra coisa, mas é difícil de refutar as afirmações com base em pressupostas descobertas, devido ao segredo que as caracteriza.

«(…)…. na melhor das situações, a exactidão da determinação do meridiano  sem contar com os erros inerentes ao método, seria equivalente à do astrolábio.(…)»

Álvarez López chega por um caminho diferente, à afirmação do emprego de instrumentos ópticos, pelos antigos egípcios há milhares de anos. Depois de analisar o método proposto por Zaba para determinar o meridiano, tenta levá-lo à prática, mas com pouco sucesso, pois os erros das orientações eram da ordem do grau de arco. Há pouca precisão no posicionamento do centro da estação, já que, como ele diz, o conjunto comporta-se como se as partes de um astrolábio se mantivessem separadas.

Isto é, na melhor das situações, a exactidão da determinação do meridiano  sem contar com os erros inerentes ao método, seria equivalente à do astrolábio. O astrolábio inventado por Hiparco no século II a.C., teria um erro de medição de 30′. O astrolábio mais perfeito, construído por Tycho Brahe, no século XVI, tinha um erro de 10′. O Observatório de Paris, construído em 1660, utilizando binóculos de observação, tem um erro de orientação de 15′. O observatório com melhor orientação, dos construídos sem instrumentos ópticos, é o de Uranienburg, mandado construir por Tycho Brahe em 1580.

Há apenas duas soluções possíveis. Os antigos egípcios construíam as pirâmides com uma orientação muito boa por acaso ou porque usaram instrumentos ópticos, diz Álvarez López. Como a primeira hipótese é insustentável, tão repetitiva é essa casualidade, que haverá que admitir a segunda hipótese. Mesmo assim, ele chega a afirmar que os erros de orientação na Grande Pirâmide não são tantos, mas que estão realizados de propósito para fazer nota de outras características astronómicas, como o movimento do polo.

Orientações curiosas

Cremos que foi Piazzi Smyth o primeiro que chamou a atenção para a curiosa inclinação do primeiro corredor da Grande Pirâmide, que é conhecido pelo nome de siringa. Essa dita inclinação tem um ângulo de 26º 17′. Faz supor que a pirâmide foi construída de propósito num lugar de latitude 30º N, ainda que agora a verdadeira latitude seja de 29º 58’5″N. Ele diz que essa hipótese não corresponde exatamente para evitar o erro de refração, ou melhor, a consequência do movimento em latitude 1″,38/século, ou talvez o desprendimento dos continentes.

Portanto, o corredor estava orientado não em direcção ao Pólo Norte, mas à estrela polar da época, Alpha Draconis, cuja distância polar era de 3º 43′, nos anos 2123 a.C. e 3440 a.C. Piazzi Smyth elege a culminação inferior, pois se tivesse escolhido a superior, a inclinação da siringa seria de 33º 43′ e teria sido necessário “cavar mais fundo”. P. Smyth, em seguida, afirma que a Grande Pirâmide foi inaugurada oficialmente no equinócio de outono do ano 2170 aC. e, ainda para além da orientação do corredor para a estrela Alpha Draconis, as Plêiades estavam na vertical da pirâmide. Esta situação não se repete senão que sejam passados 26000 anos.

Outras explicações mais simples desta dita inclinação afirmam que é devido ao uso da simplicíssima pendente de 1/2 para a construção do corredor; assim, colocando duas pedras horizontais por uma vertical, conseguimos essa pendente de 1/2 que corresponde a um ângulo de 26°34′. As complicadas explicações de Piazzi Smyth trazem-nos à memória aquele ditado “qui prouve trop, ne prouve rien”, que no fim significa que, quem tenta fazer com que todos os dados coincidam milagrosamente com o que queremos provar, está provavelmente a tentar fazer-nos ver uma situação muito pouco clara.

Pochan também está totalmente em desacordo com a visão de Piazzi Smyth. Ele afirma que a pirâmide foi construída, pelo menos no ano 4800 a.C. e, naquele tempo nenhuma estrela se observava perto do polo. Além disso, “este sistema de orientação é absolutamente irrealizável”. Pretender que fosse escavada de noite, na rocha, por operários de cantaria uma baixada em direcção a uma estrela de quarta magnitude apenas percetível ao olho humano, é uma loucura.

Orientação dos templos

De acordo com Joseph N. Lockyer, os templos solares egípcios estavam orientados de forma que no nascer e no pôr do sol do dia mais longo do ano, um raio de sol atravessava um corredor habilmente construído que comunicava com o interior do santuário. Um raio de luz que passasse através de uma passagem estreita de 500 jardas até um santuário orientado adequadamente, não se mantem mais que um par de minutos, e depois desaparece. Além disso, a intensidade da luz vai “crescendo” até um máximo que coincide com o momento exato do solstício, e depois diminui até desaparecer. Assim, os sacerdotes podiam determinar a duração do ano com precisão do minuto, por isso é que teriam chegado a conhecer a sua décima milésima parte: 365,2422. O templo de Amon-Ra em Karnak foi construído de modo que no nascer e no pôr do sol do solstício de verão, a luz solar entrava no templo através do eixo do santuário. De acordo com Lockyer era um instrumento científico com uma precisão muito elevada, porque com ele poderia determinar-se a duração do ano com uma precisão considerável.

Extrapolando para trás a partir da orientação actual do edifício, e tendo em conta a pequena mas progressiva mudança na inclinação do eixo da Terra. Lockyer aplicou o sistema que havia utilizado para Stonehenge, e estimou que o templo tinha sido construído até ao ano de 3700 a.C..

Heródoto, na sua visita ao templo de Tiro, descreve dois pilares de ouro e uma pedra verde brilhante à meia-noite. De acordo com Lockyer, “não há dúvida de que no santuário escuro de um templo egípcio, a luz da Alpha Lyrae, uma das estrelas mais brilhantes nos céus boreais, elevando-se na atmosfera clara do Egipto, poderia ser suficientemente forte para criar um brilho aparente que se reflectia nas superfícies a que se refere Heródoto “.

«(…)O templo de Amon-Ra em Karnak foi construído de modo que no nascer e no pôr do sol do solstício de verão, a luz solar entrava no templo através do eixo do santuário. De acordo com Lockyer era um instrumento científico com uma precisão muito elevada, porque com ele poderia determinar-se a duração do ano com uma precisão considerável.(…)»

Lockyer reparou que a orientação dos templos em relação ao Sol, proporcionava um calendário útil para milhares de anos, já que a inclinação do eixo da Terra não varia mais de um grau em seis mil anos. No entanto, a orientação dos templos em relação às estrelas só pode cumprir a sua função por duas ou três centenas de anos, porque a cada ano o nascer e o pôr das estrelas atrasa-se em relação ao Sol 50”, que se converte em 3º num prazo de duzentos anos. O templo, necessitaria então de uma reorientação, ou deveria ser erguido outro templo.

Luxor, por exemplo, possui quatro alterações de orientação bem definidas no eixo do templo.

Na nossa opinião, notamos uma falta de rigor científico na obra de Lockyer que parte do princípio que os templos egípcios foram orientados na direcção Este-Oeste de forma precisa, quando esse facto não é admitido pelos estudiosos dos templos egípcios; mais parece que os egípcios tenham orientado os seus templos para o rio Nilo, que atravessa o Egipto de Norte a Sul, de forma a favorecer certas cerimónias.

Além disso, quando Lockyer quer datar os templos, baseia-se no facto indemonstrável de que no momento da sua construção foram perfeitamente orientados no sentido desejado, e a comparar assim, ele contraria o que existe actualmente.

Somente consideramos irrefutáveis aquelas provas, que com base em certas iluminações através de passagens ou portas – como em Stonehenge – não permitem erros de interpretação.

A Grande Pirâmide como Observatório Astronómico

Segundo Proclo, a Grande Pirâmide foi utilizada como um observatório astronómico, quando o nível atingiu o tecto superior da grande galeria, sendo então uma ampla superfície elevada e quadrada.

A passagem ascendente está construída com uma inclinação idêntica à da passagem descendente que já estudamos antes. Isso pode ter sido feito por meio de um feixe de luz reflectido numa superfície líquida.

«(…)Segundo Proclo, a Grande Pirâmide foi utilizada como um observatório astronómico, quando o nível atingiu o tecto superior da grande galeria, sendo então uma ampla superfície elevada e quadrada.(…) (…)a grande galeria tem uma forma especial que permite moldar uma graduação da declinação das estrelas. As pedras do tecto da galeria não se apoiam umas nas outras, mas movem-se de forma independente e podem ser removidas para ter uma visão mais ampla do meridiano, e inclusive pode até mesmo mover-se apenas uma pedra, para aí centralizar as observações.(…)»

A grande galeria está orientada por este método para o meridiano Sul. A passagem também é extremamente recta, há apenas meio milímetro de erro na sua rota. Assim, um observador situado no início da galeria, assumindo que esta não tinha tecto, teria conhecimento do meridiano do lugar, e poderia assim anotar as passagens das várias estrelas pelo meridiano. Se conhecemos a latitude, podemos determinar a declinação da estrela, ou altura acima da eclíptica, e vice-versa.

A grande galeria tem uma forma especial que permite moldar uma graduação da declinação das estrelas. As pedras do tecto da galeria não se apoiam umas nas outras, mas movem-se de forma independente e podem ser removidas para ter uma visão mais ampla do meridiano, e inclusive pode até mesmo mover-se apenas uma pedra, para aí centralizar as observações. Com ampulhetas podem-se anotar os tempos das passagens pelo meridiano. Com sete observadores pode-se observar nos sete níveis diferentes da galeria. Na superfície superior podem-se calcular azimutes.

Antoniadi, tal como Proctor, também acredita que a passagem ascendente e a descendente foram usadas como um telescópio, e afirma que no ano de 3400 aC., estavam orientadas, respectivamente, para as estrelas Alpha Centauro e Alpha Draconis.

McNaughton, não obstante, diz que a passagem ascendente estava orientada para a estrela Sirius entre os anos 5600 e 5100 a.C., porque culminava entre 26º 18 ‘e 28º 18’.

Careri visita o Egito em 1693 e afirma que existem inúmeras provas que fazem pensar que os egípcios deviam usar a plataforma superior da Grande Pirâmide, antes de ela ser acabada de construir, para realizar observações astronómicas.

Alguns meses mais tarde, De Chazelles, membro da Academia Francesa de Ciências, viaja ao Egipto e também afirma que as pirâmides foram usadas como observatórios astronómicos, pois os egípcios, ao construi-las tinham a ideia de as utilizar como “gnomons” ou quadrantes solares, para marcar por intermédio das sombras, a mutação do sol nos solstícios. ”

Juan Carlos del Rio

Bibliografia:
El enigma de la gran pirámide. A. Pochan.
Egipto, Manual de Simbolismo y Arqueología. F. Schwarz.
Secrets of the Great Pyramid P. Tompkins.
Le problème des Pyramides d’Egipte. J.P.Laner.

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