A Qualidade de Vida no Antigo Egipto

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Nova Acrópole

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“Salve, ó Nilo! a ti que chegas em paz para dar vida ao Egipto. Tu matas a sede à terra em todos os lugares, deus dos grãos, senhor dos peixes, criador do trigo, produtor da cevada. Bendito sejas.”

Breves notas, curiosidades e textos egipcios procurarão apenas dar umas pinceladas de um quadro extremamente colorido e feliz como o que foi o da vida quotidiana do antigo Egipto alternada entre a felicidade do trabalho e os mais de 105 dias festivos por ano unidos por um sentido social imbuido de grande sentido de justiça e humanismo.

A Agricultura e as estações:

A divisão do ano, que marcava o ritmo da vida, era baseada nas estações e na relação que se estabelecia entre o ser humano e os ciclos anuais. Essa divisão era marcada por três estações de quatro meses, cada um deles denominado como primeiro, segundo, terceiro ou quarto mês da respectiva estação.

Akhet

Era a primeira estação, que iniciava em fins de Julho e ia até Novembro.
Era a estação das inundações e por isso o período de maior descanço dos agricultores passando mais tempo em família.
Realizavam-se numerosas festividades de Ano Novo, celebrando a Renovação do Mundo, que era marcado pelo surgimento da Estrela Sirius a oriente antes do nascer do Sol.

Peret

A segunda estação que ia de Novembro a Março e caracterizava-se como a estação da germinação.
Mal a terra emergia das inundações, trabalhavam-na e semeavam-na. Através de canais e diques mantinham a irrigação dos campos, para tal utilizavam um sistema de medição do caudal do Nilo, o nilómetro, e engenhosamente a retirada da água para a irrigação era feita através de um elevador de água denominado chadouf.
O trabalho no campo era uma alegre comunhão com a natureza, acompanhado de canções e música como hinos à natureza, ao trabalho e à vida.

Chemou
A terceira estação, que cobria os meses de Março a Julho, e que correspondia à estação das colheitas.
Pinturas e baixos relevos egipcios mostram a alegria das colheitas. Enquanto se aguardava a nova cheia procedia-se às colheitas, à marcação dos animais e à colheita do mel.

Os primeiros frutos das colheitas eram oferendados em lugares sagrados no extremo dos campos.

A relação estreita que os egipcios tinham com a terra está presente no próprio nome dos agricultores, que era Merit, e provinha de Mer, enxada, e que entra na composição do verbo Meri, Amor, realçando para o egipcio o trabalho na terra como acto de amor pela terra.

Conceitos e imagens agriculas inspiraram muitas instruções morais:
“Se semeias e tens uma boa colheita e Deus concede-te com liberalidade, não satisfaças o teu apetite em frente dos vizinhos”

“É melhor um apet de terra que deus te concedeu, do que 500 apet obtidos por fraude”

Declaração de inocência:
“Não maltratei o gado, não obriguei ninguém a trabalhar (nos campos) além das suas forças, não alterei nem meia arura dos campos; não expulsei os animais dos seus pastos; não detive a água (irrigável) no seu tempo…”

A própria imagem do paraíso (Amenti) para o egipcio era semelhante aos campos cultivados com amor enquanto vivos. Havia um amor muito grande pelos animais domésticos, falavam-lhes tratando-os por nomes carinhosos e considerando-os seus amigos. Após as sementeiras, levavam os animais para os campos, onde ajudavam a fixar as sementes à terra e as adubavam.

Possuiam um grande apreço pelos jardins e respeitavam todos os elementos da natureza, não extraindo sequer uma pedra em vão da pedreira.

Organização Social:

Era uma organização piramidal, caracterizada por um forte sentido de responsabilidade e eficácia onde quer que se estivesse, um profundo sentido de justiça, equilibrio e claridade levando a não colocar mais peso de responsabilidade sobre cada um do que aquele que podia suportar, culminando na autoridade unificadora do Faraó. Toda a organização social era trespassada por uma forte ideia de humanidade.

“Governa para que façamos mudar o perverso, porque não agimos como ele. Levanta-te e dá-lhe a mão, deixa-o nos braços de Deus, enche o seu ventre com o teu pão, a fim de que se sacie e se envergonhe.”

“O ofício do Vizir é este: velar pelo que acontece, porque é ele o esteio de todo o Egipto; cuidar para que tudo aconteça segundo a Lei, tudo segundo o costume, dando a cada um o que lhe cabe. A injustiça é amaldiçoada pelos deuses. Olha quem te é conhecido como quem te é desconhecido, quem está próximo do rei como quem está longe dele. Observa a Lei que está acima de ti.”

As possibilidades de acesso aos cargos elevados do estado estavam abertas a todos:
“Se tu, vindo do nada, conseguiste ser um grande e acumulaste riquezas depois de teres sido pobre na tua cidade, não te esqueças do tempo passado. Não confies nas tuas riquezas: elas chegaram até ti como um dom de Deus e não és melhor do que aquele a quem o mesmo não aconteceu”   (Ptahotep – 2675 a.C.)

A vida laboral dos artesãos era organizada em jornadas de duas partes de quatro horas cada, com uma pausa a meio do dia.
As faltas ao trabalho eram justificáveis em caso de cerimónia funebres de familiares, a quando da construção da própria casa, quando atingido por alguma doença ou picada de escorpião, no fabrico da cerveja e festas familiares.
As greves, embora raras, aconteceram e foram registadas como uma no reinado de Ramsés II, em que devido a um funcionário corrupto houve falta de pagamento aos trabalhadores e 60 artesão fizeram greve durante três dias. Existem igualmente registos de outras greves para salvaguardar direitos adquiridos assim como o nivel de vida.

“Ó artesãos selectos, hábeis e vigorosos… sereis abastecidos abundantemente e nada vos faltará… porque sei que o vosso trabalho é arduo.”

A Família e a Educação:

O casamento:
Na sociedade egipcia a mulher era livre de decidir se queria e com quem queria casar.
Era aceite o “casamento de facto” e era hábito os casais viverem algum tempo juntos antes de se casarem.
O adultério era igualmente punido tanto para o homem como para a mulher.

A familia:
Um casal tinha em média dois filhos e a mulher tinha um lugar muito previligiado na familia, sendo rodeada de atenções e respeito pelo marido e pelos filhos.
Os laços familiares eram fortes e com uma responsabilidade individual de todos os membros.

A educação:
Nos primeiros seis anos a educação era delegada exclusivamente à mãe, sendo incutindo desde muito cedo às crianças o respeito pelos avós.
Eram ensinados às crianças os mais altos valores de justiça e unidade, a qual era denominada “Educação do Coração”.
Era ensinada a descrição e profundo respeito pela liberdade dos outros:

“Não entres na casa de outrem sem que sejas convidado. Não pesquises o que não está em ordem na casa e, ainda que os teus olhos o observem, guarda silêncio e não fales disso a ninguém de fora.”

Após a instrução em casa, iniciava-a com velhos escribas em sua casa ou em escolas nas aldeias, onde eram aprendidas as primeiras noções elementares de escrita e cálculo. No caso das escolas, as lições começavam ao amanhecer e prolongavam-se até ao meio do dia.
As escolas eram abertas a todos e funcionavam como orgãos selectivos, segundo critérios verdadeiramente aristocráticos, de forma que aqueles que apresentassem capacidades continuassem os seus estudos superiores nos templos de modo a constituírem as elites dirigentes. Esses estudos superiores eram ministrados em duas linhas: Estudos Humanistas, onde se encontrava o estudo do Direito Divino e Humano, História e as Artes (escultura, pintura e música); por outro lado estavam os Estudos Científicos com matérias como a Astronomia, Geometria, Medicina e Cirurgia (esta como especialização).
O primeiro estágio de instrução, atribuido ao velho escriba, era pago pela família, o estágio seguinte era a cargo da administração do templo.

O corpo – espelho da alma:

Tanto os homens como as mulheres davam muita importância à higiene e a imagem estética do corpo (como reflexo da harmonia e ética da alma).
O extremo cuidado de higiene de todas as classes fez com que nenhuma grande epidemia dizimasse o Egipto. Antes da entrada nas casas, havia a obrigação de lavar as mãos e os pés. A casa era também regularmente desinfectada através de fumigação a fim de eliminar vermes e insectos.
Para além da prática regular de banhos perfumados, os corpos eram depilados, a fim de evitar o alojamento de microorganismos, pelas mesmas razões também era prática frequente a rapagem do cabelo, que por vezes era substituido por perucas. Fazia igualmente parte das práticas de higiene a limpeza bucal com natrão.

A estética no antigo Egipto encontrava-se em relação com a magia e a beleza, pois o Belo é a eterna presença de Deus nas coisas e a Magia a arte de ligar o visivel ao invísivel.

José Ramos
Dezembro 2010

Bibliografia:
– A Vida no Antigo Egipto, de Boris de Rachewiltz

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