O Códice Porrúa

Autor

Jorge Ángel Livraga

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Na nossa última estada no México tivemos a aventura de conhecer pessoalmente Don Manuel Porrúa, cavalheiro de tradição asturiana dedicado aos livros, como a sua fama internacional nos mostra, para além de ser cientista e um colecionador de rara sensibilidade. A sua amabilidade permitiu-nos examinar várias centenas de Códigos Mayas e adquirir para as Bibliotecas Acropolitanas de Espanha e França um “fac-símile” do “Código Porrúa” e abundante material explicativo e de análise da múltipla peça arqueológica, infelizmente desconhecida pelo grande publico, que, salvo do Código de Dresde, de Trocortesiano e do Peresiano, carece de informação suficiente.

Já faz mais de meio século que o ilustre filósofo e cientista Don Mario Roso de Luna, cofundador do Ateneo de Madrid, condecorado com a Ordem de Isabel a Católica e conhecido pelas suas obras sobre a teosofia e metafisica, tinha declarado que, aparte os códigos executados sobre fibras vegetais, tinham-se encontrado no México outros sobre peles de animais, o que reafirmaria a tradição de que as bibliotecas pré-colombianas continham exemplares antiquíssimos, alguns executados sobre os restos orgânicos de animais pré-históricos.

O Código Porrúa está confecionado sobre 105 fragmentos de pele de mamífero, provavelmente uma forma arcaica de um manati, cuja trabalhosa análise depreende uma antiguidade que oscila entre o seculo II a.C. e o IV d.C.. As peças são de formas variadas e tamanhos diferentes, raspados de restos epidérmicos e de panículo adiposo, que não foram curtidas com sais crómicos, ainda que pudessem ter sido com taninos. Uma das suas faces está tingida com uma substancia de café-avermelhado e sobre esta superfície estão desenhados, com um pigmento negro, variados símbolos hieróglifos e representações misteriosas. A análise técnica foi efetuada pelo Dr. F. Bonet, chefe do laboratório de Zoologia e Anatomia Comparada do Instituto politécnico da cidade do México, em 1953.

Muitas peças, a olho nu, apresentam-se como pedaços de coro muito duros e antigos, sem mostras de desenhos. Estes apareceram com raios infravermelhos, com iluminação por reflexão e com procedimentos de contacto, iluminando-as por transparência, mediante raios X. Todo este trabalho ciclópico permitiu uma recuperação quase completa deste livro proto-histórico da cultura Maya.

Ainda que este extraordinário documento tenha sido estudado e exposto parcialmente aos especialistas no XXXIII Congresso Internacional de Americanos, continua a apresentar múltiplos enigmas, pois o conhecimento dos “hieróglifos” Mayas é ainda incompleto e quanto aos seus desenhos figurativos e abstratos praticamente nada se sabe com certeza.

Obviamente, os aportes que possam produzir os estudiosos acropolitanos, deste maravilhoso documento, estão ainda longe pois assumiram anos de estudo e dedicação; mas neste breve artigo queremos apresenta-lo aos nossos leitores, dando a conhecer ainda que sejam umas poucas características. É de nosso especial interesse destacar o seu enigma e profundo esoterismo, pois métodos de analogia permitem-nos deduzir elementos relacionados com a astrologia, antropogénese, cosmogénese, história e religião Mayas.

Na Peça Nº 25, aparece uma espécie de templo piramidal, de onde parte um largo caminho que termina num labirinto quadrangular, onde aparece uma roda de 23 dentes, que o investigador Domingo M. Paredez decifrou como uma chave-síntese de intrincados problemas astronómicos da muito precisa cronologia Maya, especialmente em relação aos solstícios e equinócios; fazendo-a girar, por exemplo, oito voltas, dá-nos 184 ou seja a diferença exata em dias de solstício a solstício. As mesmas investigações demonstram que a roda serve para calcular a periodicidade das manchas solares, deduzidas, talvez, pelos seus efeitos sobre os fenómenos da natureza observados cuidadosamente, apontando estatísticas através dos séculos, e simbolizada pela Roda Mística dos Katunes. Mesmo assim deduziram-se as revoluções sinódicas de Mercúrio, chamadas pelos Mayas “Estrela-vespa”.

A peça Nº 48 mostra-nos a versão Maya do Mito da criação do primeiro casal humano; costas contra costas, esperam adormecidos, sobre o braseiro das forças telúricas da “tentação! De uma serpente coroada de penas. Os símbolos laterais falam da divisão do mundo em quatro elementos e as das posições astronómicas que regeram este evento.

A peça Nº 46 faz uma relação à cronologia e à constituição septenária do homem, tal como a vemos no esoterismo Indo e no Egípcio. Noutro aspeto refere-se aos Sete Espíritos Estelares, a ascensão do espirito fértil e a consumação de todas as coisas, ou fatalidades.

A capa da nossa revista foi ilustrada com a Nº 26, referente à morte, à “ressurreição” espiritual e ao poder das Evocações ao modo do chamado “Livro dos mortos” egípcio.

Obviamente, estas interpretações são “de prima facie” e apenas uma investigação exaustiva e vários aportes provenientes de vários outros Códigos que estão a sair à luz, poderão dar uma ideia mais ou menos coerente de boa parte desta milenar sabedoria de um povo: o Maya, ainda tão pouco conhecido.

Vem à nossa memória quando faz uns anos estava nas ruinas de Palenque e assombrados ante a beleza críptica dos poucos edifícios escavados, ficamos logo perplexos ao observar que o horizonte estava recortado por dezenas e dezenas de pirâmides ainda cobertas pela selva.

Quando com a golpes de catana chegámos a uma delas, comprovamos que em nada desmereceria, cortadas as folhagens, desenterrada e reparada, perante qualquer das famosíssimas e conhecidas e que o sensacionalismo da moda nos anos 70 quis vê-las como tumbas e túmulos de desconhecidos astronautas pré-históricos.

Fechamos a nosso nota com a esperança de que, esforços como o do Sr. Porrúa, sejam dignamente aproveitados de um modo sério e consciente, para colaborar em uma nova ciência, em uma nova História que se desembarace dos “tabús” impostos pelos materialistas e positivistas do século XIX cujas sombras, desde o arqueológico até ao politico, ainda obscurecem a nossa existência. Somente conhecendo o passado humano na sua real dimensão espiritual e material podemos elaborar um futuro, não só novo, mas sim melhor.

Jorge Angel Livraga
In Site Internacional Nova Acrópole

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