Reflexões sobre a Génese do Conflito

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Hino da criação – Rigveda

Não havia então não-existência nem existência;
não havia o reino do ar nem o firmamento por trás dele.
O que protegia e onde? E o que dava abrigo?
Estava ali a água, a desmedida profundidade da água?

Não havia morte então, nem havia algo imortal;
não havia sinal ali, o divisor do dia e da noite.
A Massa Unitária, sem vida, vivia por sua própria natureza;
além dela nada mais havia.

As trevas lá estavam; a princípio escondido nas trevas
Tudo era um caos indiscriminado.
Tudo que existia então era vazio e informe.
Mas pelo grande poder do Calor nasceu aquela Unidade.

A seguir, surgiu o Desejo no começo, o Desejo,
a semente e o germe primordial do Espírito.
Os sábios que buscavam com o pensamento de seus corações
descobriram o parentesco da existência na não-existência.

Transversalmente estava estendida uma linha de separação:
o que, então, havia acima e abaixo dela?
Havia progenitores, havia forças poderosas,
ali havia acção livre e energia mais além.

Quem verdadeiramente conhece e quem pode aqui
declarar de onde nasceu e de onde veio essa criação?
Os deuses são posteriores a essa produção do mundo.
Quem sabe então como se originou?

Ele, a primeira origem da criação
formou tudo ou não formou.
Na verdade, Ele, cujo olho vela pelo mundo nos altos céus,
sabe, ou talvez não saiba…

Rigveda X:129

A palavra génese tem como significado o aparecimento do Eterno, o início que deu origem à Criação. Para os antigos Gregos, no princípio estava o Kaos, algo que não se pode definir, porque é o desconhecido sem dimensão nem forma, depois veio o Primeiro impulso de diferenciação, do Kaos emerge o Uno que por sua a vez produz o Segundo e nasce a primeira Dualidade Espírito e Matéria, Úranos e Gea, o pai e a mãe cósmicos. Desta Díade primordial surge Aquele que é o Primogénito, o Divino Eros, o elo que mantém a união, o impulso primordial de coesão; Eros é o alento da Vida, a presença da Unidade no Ovo do Mundo que ainda permanece no sonho do incomensurável. O despertar do sonho faz com que a luz se mostre despertando o Logos ou a Ideia do Mundo que é o Teos ou plano do Grande Arquitecto que dará seguidamente lugar ao Cosmos ou o Mundo organizado e ordenado. Os infinitos processos de emanação irão multiplicar a variabilidade dos fenómenos, que na sua fase descendente assume a forma de matéria densa: O fenómeno material não é uma ilusão total, ele é a forma substancial de uma verdade que nele se oculta e que se revela em planos diferentes: físico, psíquico, mental e espiritual. Assim, quando nos referimos à dualidade inerente ao mundo manifestado devemos entendê-la como sendo a origem da vida que do Ser originou o não Ser; do Nada surgiu a Luz, e da Luz surgiu a sombra, e da sombra surgiu a ilusão, e da ilusão a eterna busca da Verdade. A dualidade resulta de um estado de separação da Unidade, assim o conflito é na sua essência um meio de nos reajustarmos  à Unidade.

“O Bem e o Mal são as duas forças que cooperam para libertar a Essência dos condicionalismos da matéria. Para nós humanos, a presença do mal é um sinal da ausência do bem, se não existisse o erro não poderíamos adquirir a consciência da Verdade.”

O sábio filósofo grego Heraclito na sua linguagem de mistério dizia o seguinte: “ A guerra é pai de todos, a morte da terra é tornar-se água e a morte da água é tornar-se ar e o ar tornar-se fogo e vice- versa. Todas as coisas vêm a ser segundo a discórdia e a necessidade.” Ele também afirmava que não era possível entrar duas vezes no mesmo rio, pois a substancia mortal jamais se mantém duas vezes no mesmo estado. “A doença faz da saúde coisa agradável e boa, a fome da saciedade, a fadiga do repouso etc. ….” H. P. Blavastky dizia que “ é através da alegria e da tristeza, da dor e do prazer que a alma se conhece a si própria” e Buda no Dammapadha disse também o seguinte:” Por si próprio o mal é feito, por si própria a pessoa suja-se; por si próprio o mal não é feito, por si própria a pessoa purifica-se. A pureza e a impureza depende da própria pessoa, ninguém pode purificar o outro.”

No Bhagavad Gita, o jovem Arjuna discípulo do mestre Krishna luta contra os seus inimigos interiores, ele é no campo de batalha, o guerreiro que busca realizar a acção justa através da prática do Yoga ou o caminho da perfeição que se eleva para além da acção dual das Gunas. A vida é movimento, ora quando se expande, ora quando se contrai, sempre haverá transformação para permitir a passagem de um estado a outro. A fricção ou o conflito das partes envolvidas produz alterações na matéria adormecida porque o mal é filho da necessidade. A presença do mal no Universo possibilita que o Bem cresça e que a perfeição triunfe, o mal é um estado de imperfeição, ele é a força que resiste ao sentido oculto da vida, o mal é a distância que nos separa do Ser.

O Bem e o Mal são as duas forças que cooperam para libertar a Essência dos condicionalismos da matéria. Para nós humanos, a presença do mal é um sinal da ausência do bem, se não existisse o erro não poderíamos adquirir a consciência da Verdade. A sede revela a necessidade da água para restabelecer o equilíbrio de líquidos no nosso organismo, do mesmo modo, o mal revela-nos a necessidade da harmonia. A mente reflecte o mundo dual do Ser e do não Ser, por isso ela necessita da oposição para conhecer e separar aquilo que é, daquilo que não é. Se não houvesse limitação não poderíamos ter consciência do valor da liberdade, se não houvesse corpo material mortal não poderíamos ter consciência da nossa Alma imortal. Cada Ego é um estado de consciência que evolui através de um corpo; a luz de cada ser humano é o resultado da consciência que nele habita, a luz é energia que se liberta, ela é o resultado da fricção entre o corpo e a Alma.

A vida resulta do conflito entre os diferentes estados de imperfeição da energia em constante movimento; no plano físico o estado de desequilíbrio é a doença, no psíquico é o sofrimento, no mental é a ignorância e a falsidade. À medida que o Homem se afasta das consequências do mal, ele toma pouco a pouco consciência que ele é o único responsável pelos seus infortúnios, e que ele tem a liberdade de escolha. Através do conhecimento e do domínio sobre os efeitos produzidos no mundo material, ele pode eliminar o erro e restabelecer a harmonia. Quanto mais o homem se identifica, ou seja, se inclina para o mundo material mais está sujeito a sofrer com as constantes mudanças de estado, próprias desta dimensão. Se pelo contrário, centramos a nossa energia de vida na vivência de um Ideal que transcende a dimensão material, então viveremos na dimensão espiritual do Ideal. Cada parte na sua essência aspira ao Ser, cada Ego, cada ser humano é o sonho do seu Sonho, deixar de ser parte e aspirar à Unidade é vivenciar a grande equação de Deus.

“ Todas as coisas passam como um sonho.
Mas a vida terrena pode ser um sonho de paz e beleza”
Sri Ram

Fricção após fricção, conflito após conflito, são libertadas as faíscas que brotam do fogo oculto, Agni; o fogo do grande sacrifício dissolve-se na matéria para renascer como luz. Tudo aquilo que um dia cresceu deve regressar ao seu estado de pureza e tornar-se um ponto que se apaga do outro lado do céu, eternamente entregue ao amor do Deus Uno. “ Todas as coisas passam como um sonho. Mas a vida terrena pode ser um sonho de paz e beleza” Sri Ram.

Françoise Terseur

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