Quando a Maldade e a Ingenuidade dão as Mãos

Autor

Nova Acrópole

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Vivemos tempos estranhos. Quanto mais se tenta convencer as pessoas das vantagens da nossa época, do benefício das crescentes comunicações, da segurança dos modernos sistemas, do avanço da tecnologia, dos progressos reiterados da ciência, das descobertas no campo da psicologia, mais crescem o medo e a tristeza nos corações humanos. É como se todos esses avanços não chegassem nunca a tomar forma de verdade e permanecessem nas trevas das dúvidas.

“(…)Há, como antes, bons e maus, sábios e ignorantes, há justiça e homens justos? Ou será que essas palavras e o seu romântico conteúdo também devem parar no cemitério dos conceitos arcaicos e devem ser substituídas por novas e mais de acordo com a venerada modernidade? (…)”

 

Cada vez se torna mais difícil situarmo-nos de forma correta no tempo e no espaço, estamos tão imersos num constante movimento sem sentido, entre verdades e mentiras, dúvidas e certezas. De forma cada vez mais frequente, se diluem os limites estabelecidos pelas leis e acordos, pelas tradições e costumes e na falta de outros elementos para substituir esses limites, surgem a confusão e o desconcerto. Os extremos chegam a ser tão marcados que acabam por unir-se: passado e futuro, o permitido e o proibido mesclam-se com matizes de pesadelo ou de grotesca comicidade.

Antes, quando éramos crianças, contavam-nos histórias prodigiosas repletas de personagens excepcionais; vivíamos com a imaginação habitada por heróis mitológicos e desfrutávamos junto com eles as suas aventuras. Hoje convenceram-nos de que tudo aquilo era mentira, retiraram-nos os heróis, os prodígios, o sabor fantástico dos mitos e até o sentido da história quanto à verdade dos factos ocorridos no passado.

Fomos privados dessas fantasias nefastas para nos afundarmos em uma realidade sem cores, uma realidade que deve ajustar-se a números e leis com pretensão de irrefutáveis. Tudo é medido e pesado, mas curiosamente nada tem um valor nem uma dimensão estável. As coisas parecem fixas e sólidas, mas aqueles que tentam sujeitar-se a qualquer uma delas caem irremediavelmente no vazio.

Não sabemos como chamar as coisas pelo seu nome; não sabemos que nome têm as coisas e nem sequer se todas têm um nome. E assim chegamos a um estado onde a maldade mais refinada dá a mão à ingenuidade mais desprotegida.

Há, como antes, bons e maus, sábios e ignorantes, há justiça e homens justos? Ou será que essas palavras e o seu romântico conteúdo também devem parar no cemitério dos conceitos arcaicos e devem ser substituídas por novas e mais de acordo com a venerada modernidade?

Por acaso morrem as idéias? Não será o caso de que não existam receptáculos capazes de acolhê-las?

Os mitos hoje

Muito se tem discutido sobre a autenticidade dos mitos, oscilando-se entre a verdade histórica, oculta no tempo, e a verdade psíquica que registra situações arquetípicas e as traz de volta em relatos e episódios estranhamente similares em diferentes povos e épocas.

Platão utilizou os mitos para velar com símbolos certas verdades inacessíveis à compreensão comum. As suas obras estão recheadas destes contos surpreendentes que parecem sair por completo do âmbito dialético e racional com que conversam os seus protagonistas.

Outros autores clássicos ensinam-nos que quanto mais a história penetra no passado, mais os acontecimentos perdem o colorido das circunstâncias particulares para ficar somente a sua essência. Fica apenas o facto desprovido de qualidade e logo voltará a enriquecer-se com o toque imaginativo daqueles que se referirão a ele de mil maneiras distintas. Quando a esse facto – com qualidades mais ou menos similares – se repete em diferentes momentos da história ou quando são muitos os grupos humanos que registram factos parecidos, o mito é cada vez mais reforçado.

Jung explicou os mitos como situações arquetípicas que correspondem ao desenvolvimento da humanidade. Assim, além de serem lendas populares ou representações mistéricas dos iniciados, pode-se dizer que cada um vive a seu modo os mitos que lhe incumbem nos momentos especiais da sua evolução. Para isso, somente é preciso descobri-los como uma realidade pessoal e aproveitar a experiência que deles se deriva.

O nosso século está repleto de mitos que não se afastam muito daqueles que hoje são considerados infantis e impróprios para uma mentalidade avançada.

O professor Jorge Angel Livraga, num dos seus livros, “Os mitos do século XX”, mostra-nos um conjunto de símbolos que hoje têm um valor mítico, embora não se ajustem a realidades estritas. Aborda temas como a igualdade, o progresso indefinido, a democracia, a tolerância, o ecletismo e outros tantos conceitos que são de domínio público, palavras repetidas até a saciedade, mas quase impossíveis de se encontrar nos factos quotidianos.

O que expressam os nossos mitos modernos? A ânsia em conseguir o que desejamos, mas não temos? O medo das nossas carências? O fingimento como tela da mentira? A obscuridade interior da ignorância que às vezes salta como uma chispa de luz na superfície?

Em todo caso, os nossos mitos não giram ao redor de grandes personagens nem de heróis com virtudes. São mitos anónimos e massivos que pertencem a todos e a ninguém, sem exemplos claros e sem finalidades concretas.

O único aspecto que está claro é que o homem de hoje não pode prescindir desses símbolos que encobrem, protegem ou vestem com novos adereços as velhas idéias de bem e de justiça.

Mas os mitos estão hoje tão descaracterizados que é difícil encontrar a ponta do fio que conduz à verdade. As palavras cantam umas coisas e os factos dizem outras bem diferentes. O que prevalece então, a maldade ou a ignorância?

A Torre de Babel

Nada parece indicar que na actualidade possa reproduzir-se um caso similar a esse que narra a Bíblia. É praticamente impossível não se entender, não poder comunicar-se na era das traduções simultâneas, das notícias difundidas em todos os idiomas, dos tradutores de bolso ou dos dicionários.

No entanto, inclinamo-nos a pensar que o significado da Torre de Babel é muito mais subtil que um simples encontro de línguas que de repente se diferenciam e se tornam incompreensíveis. Também nos nossos dias pode acontecer situações onde falamos a mesma língua, mas não existe possibilidade de entendimento. Talvez tenha sido isso que tenha acontecido na ocasião e também o que nos ameaça hoje.

Todos os que falam a mesma língua empregam as mesmas palavras, mas será que querem dizer o mesmo com as mesmas palavras? Não e mil vezes não. Uma palavra vale segundo quem a emprega, está relacionada ao contexto de onde e de como é falada, de quem vai escutá-la e da finalidade desejada.

No momento presente é preciso aprender centenas de formas diferentes de falar, de escrever e de interpretar para evitar a confusão babeliana onde ingenuidade e maldade se unem constantemente.

Ingênuos: os que aceitam os factos tal como se apresentam.

Maus: os que se reservam o direito de tradução dos factos usando uma linguagem especial e retorcida, os que manipulam a discrição no duplo sentido: o silêncio ameaçador ou a calúnia infamante; os desmistificadores dos velhos mitos e os falsificadores de mitos que trazem mais e mais complexidade a esta torre de seres humanos que falam da mesma forma sem poder se comunicarem de nenhuma maneira.

A uns sim e a outros não.

Quem dita as leis que permitem a uns o que é proibido a outros?

Há aqueles que podem cometer todo tipo de acções, de forma aberta ou oculta, escondendo-se por trás de outros personagens ou instituições, e no entanto são considerados homens respeitáveis, em todos os casos obrigados pelas circunstâncias a comportar-se de uma forma particular.

O mesmo se passa com estados, nações e administrações que podem recorrer a todo tipo de artimanhas, implicados por desconhecidas razões que os tornam intocáveis.

Os infelizes são os outros, os que tentando remediar essas acções presumivelmente dignas para alguns, convertem-se em delinquentes e corruptos.

Os infelizes pecam por ingenuidade. É possível que se perguntem: se outros podem porque não posso também? Os poderosos pecam por maldade: lançam a pedra, escondem as mãos e acusam aquele que foi apedrejado.

Como é possível que uma nação se atribua o direito de usar armas contra outra em nome da justiça ou como corretivo, e no momento seguinte se apresente com o juiz do país que ataca o vizinho pelas mesmas ou semelhantes razões? É a confusão da torre de Babel: quando o faço, tem um sentido; e quando você o faz, mudam os valores. Como podem alguns políticos, em algumas situações, lutar em favor da tolerância racial, entre outros motivos, para logo se comportarem de maneira diferente nas suas vidas privadas? Na Torre de Babel também era vivido o ditado do “faça o que digo, mas não faça o que faço”?

Pode uma nação devastar outra em nome de velhas rixas não resolvidas, enquanto protesta por não ter apoio internacional ante situações de terrorismo e guerra? Onde está o aceitável? Na maldade daqueles que se permitem ser maus com aspecto de bons? Ou nos ingênuos que, com a sua falta de caráter e decisão, dão guarida a uma maior quantidade de maus?

Numa primeira aproximação, os poucos que podem, parecem ter muito mais força que os muitos que ficam sem fazer nada. Se a maldade e a ingenuidade dão a mãos, a mão má aperta a mão ingênua até destruí-la.

A batalha apresenta uma decantação em direcção a um dos bandos, embora não saibamos se a guerra será ganha pelos “maus”. No momento, todos se atacam mutuamente tratando-se de corruptos e depravados: hoje é costume metermo-nos na vida privada dos demais para desenterrar histórias verídicas ou inventadas; hoje todos acusam a todos de mentir ou levar pessoas ingênuas à destruição. Então, em quem acreditar?

Além disso, hoje tornamos a ver suicídios que correspondem ao temor de perder o bom nome, o prestígio, ou deixar a descoberto uma vida de negócios obscuros. E se há suicídios, isso equivale a dizer que há dor, há desespero, há necessidade de honra, de purificação e redenção.

Mais além da maldade mascarada de refulgente dama, desponta uma chispa de natureza não de todo apagada, que não pode ser somente ingenuidade mas ansiedade de pureza, de verdade e de justiça. Não se deve deixar extinguir essa pequena luz.

“Não. Quando a maldade e a ingenuidade dão as mãos é hora de colocar ordem nas coisas. E isso não é somente um mito.”

 

Quando tudo se turva e se confunde, até a Torre de Babel se converte num labirinto intricado, onde todas as entradas parecem portas, mas não são mais do que novas armadilhas. Convém continuar preso e a sonhar com falsas janelas e com uma luz imaginária, ou procurar uma saída com inteligência?

Se cada um tem de viver e resolver os seus próprios mitos, corresponde-nos introduzir claridade e veracidade onde estas não existem, abrirmos caminho com coragem ainda que nos chamem de iludidos e ainda que tenhamos que fechar para sempre as mãos para os que se disfarçam de bons e querem distribuir a justiça e a injustiça em seu próprio benefício.

Quando as coisas estão no seu lugar, pode acontecer que os extremos cheguem a tocar-se, mas nunca são absolutamente opostos. A mentira jamais será verdade, a traição jamais será lealdade, a opressão não é liberdade, a desonra não é prestígio, a ignorância não é comunicação massiva, o ódio não é amor, a indiferença não é solidariedade.

Não. Quando a maldade e a ingenuidade dão as mãos é hora de colocar ordem nas coisas. E isso não é somente um mito.

 

Délia Steinberg Guzmán

Diretora Internacional da Associação Cultural Nova Acrópole

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