Os Quatro Rumos do Horizonte

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Nova Acrópole

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A orientação espacial articula-se sobre o eixo Este-Oeste, marcado pelo nascer e pôr-do-sol. A orientação temporal articula-se sobre o eixo da rotação do mundo, simultaneamente Sul-Norte e Baixo-Cima.

Oriente e Ocidente

Quando opomos Oriente a Ocidente, como a espiritualidade ao materialismo, a sabedoria à agitação, a vida contemplativa à activa e a Metafísica à Lógica, é em função de tendências profundas muito reais mas, de forma alguma, exclusivas, que chegam à nossa época mais sob uma forma teórica que efectiva, devido à ocidentalização progressiva das elites orientais. O símbolo subsiste ainda que falhem as localizações geográficas. Há, além disso, outras razões para semelhante dualidade. A principal é que o Sol se levanta a Este e põe-se a Oeste. As viagens ao Oriente são a procura da luz.

A orientalização é um simbolismo particularmente querido pelo Sufismo, que relaciona o Ocidente com o corpo e o Oriente com a Alma Universal; Ocidente com o seu exoterismo, a sua literalidade, e Oriente com o esoterismo, ciência espiritual; Ocidente com a matéria, Oriente com a forma. Oriente é a origem da luz e corresponde à Primavera. Ocidente corresponde ao Outono, à nuvem, à água adormecida, ao pântano, imagens da matéria indiferenciada.

As viagens sufís começam com o exílio ocidental, que é um retorno à matéria-prima, à purificação, ao despojo alquímico, etapa necessária antes da reintegração na fonte oriental do conhecimento. Muitas cerimónias celebram-se nas épocas de final do Inverno e do Verão, por volta de 18 de Março e de 20 de setembro, quando o Sol se põe mais em direção ao Oeste. Estas cerimónias avivam a fé dos fiéis no além.

A maior parte dos templos pré-cristãos abrem-se em direção ao Sol Levante, à excepção dos funerários, abertos para ocidente. Oriente-Ocidente é a dualidade existente entre a vida e a morte, entre a contemplação e a acção.

Quando no solo temos de escolher entre várias direcções, a orientação escolhida e a das aberturas da casa ou templo, têm uma importância real pois indicam para onde orientamos a nossa vida e quais são as influências dominantes que penetram pela porta e janelas do edifício.

E tudo isto baseado num simbolismo tão simples quanto banal: o Sol nasce a Oriente e morre a Ocidente.

No entanto é algo tão real e irrebatível como a própria vida.

De carácter mais geográfico é a orientação Norte-Sul. Nos países açoutados no Inverno pelos ventos gelados do Norte, este ponto cardeal simboliza o escuro e é do Sul que chega o calor e, com ele tudo de bom. A excepção serão aqueles povos de clima temperado e protegidos dos ventos polares como é o caso dos gregos e dos judaico-cristãos, que situam a Norte a morada dos deuses, invertendo os termos. É por isso que nos países cristãos, o céu está a Norte e o inferno ao Sul, realizando as equivalentes Norte=em cima e Sul= em baixo.

Resumindo. Quando nos orientamos, escolhemos entre subir ao céu (Norte) ou baixar até ao inferno (Sul); para voltar às origens (Este) ou para nos resignarmos com o nosso destino (Oeste). Na Bíblia, olhar para a direita é olhar para o lado defensor: ali está o seu sítio, como ali está o sítio dos escolhidos no Juízo Final; os condenados vão para a esquerda; a esquerda é a direção do inferno, a direita a do paraíso (isto não tem nada a ver com a política ou os movimentos sociais).

Para a tradição cristã o lado esquerdo é igualmente nocturno e satânico, por oposição ao direito, diurno e divino.

Por isso as missas negras incluem o sinal da cruz feito com a mão esquerda, e o diabo marca supostamente as crianças que lhe são consagradas no olho esquerdo com a ponta de um dos seus cornos. Entre os gregos, o lado direito é o do braço que brande a lança. Os presságios favoráveis aparecem pela direita, que simboliza a força, a destreza, o êxito. A palavra latina sinister (esquerda) formou no castelhano e no português sinistro. A única diferença entre sinistra e destra é, para além dos pontos cardeais Este e Oeste, o sentido do percurso do Sol; é direito o que vai no mesmo sentido do Sol, é esquerdo o que vai no sentido oposto. Nas circunvalações rituais da catedral, por exemplo, virar da esquerda para a direita é propício, enquanto que fazê-lo da direita para a esquerda é nefasto; este percurso só se utiliza nas cerimónias fúnebres.

Na tradição cristã, a destra possui um sentido activo e a sinistra é passiva.

A direita também significa o futuro, e a esquerda o passado sobre o qual o homem não pode influir: a destra possui um valor benéfico e a sinistra aparece como maléfica. A direita expressa a sagacidade da razão e exerce-se no esforço. A esquerda, amiga do repouso, designa a via contemplativa e a sabedoria, e realiza-se na paz e no silêncio.

A cruz e os pontos cardeais

A cruz dirigida aos quatro pontos cardeais é, em princípio, a base de todos os símbolos de orientação, nos diferentes planos de existência do homem. A sua orientação total exige um duplo acordo: a orientação espacial em relação aos pontos cardeais terrestres e a orientação temporal, em relação aos pontos cardeais celestes.

A orientação espacial articula-se de sobre o eixo Este-Oeste, marcado pelas saídas e os ocasos do Sol. A orientação temporal articula-se sobre o eixo de rotação do mundo, simultaneamente Sul-Norte e Baixo-Cima. O cruzamento de ambos os eixos maiores realiza a cruz de orientação total. A concordância no homem das duas orientações, animal, espacial e temporal, com o mundo supratemporal transcendente, por e através do meio ambiente terreno.

A cruz tem, em consequência, uma função de síntese e medida. Nela se unem o céu e a terra. Nela se misturam o tempo e o espaço. Ela é o cordão umbilical jamais cortado, do cosmos ligado ao centro original. É intermediária, mediadora, aquilo que é, por natureza, reunião permanente do universo e comunicação Terra-Céu, de Cima-Baixo, e Baixo-Cima. É a via da comunicação.

É a cruz a que recorta, ordena e mede os espaços sagrados, como os templos. Marca as encruzilhadas, e no ponto central eleva-se um altar. Centrípeta, o seu poder é também centrífugo. Ela explica o mistério do centro. É difusão, emanação, mas também reunião, recapitulação. Possui o valor do símbolo ascensional, uma árvore cujas raízes estão no inferno (entrada Oeste), e cujo vértice está no trono de Deus e engloba o mundo entre os seus ramos. É a ponte ou a escada por onde as almas dos homens sobem até Deus. Tem sete escadas (o seu altar) por ser uma árvore cósmica representa os sete céus.

 

Eduardo Arboleda Ballen

Revista Cultural Esfinge

 

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