No dia seguinte, Hipátia encontrou o seu pai, Theon, a ler uma série de cartas de Ambrósio de Milão e de Quinto Aurélio Símaco. Quando se aproximou dele, antes de perguntar qual era o conteúdo dos referidos textos, Theon respondeu se não conhecia o famoso e dramático debate sobre se se retira ou não o Altar e a Estátua da Deusa Vitória que se encontrava no Senado de Roma.

— Sim, claro que sei do que se trata — replicou Hipátia —  a primeira notícia que tive deste assunto foi no próprio Templo de Philae, numa reunião secreta à qual assistiu o próprio Símaco, que tinha sido, vários anos antes, prefeito de Roma. Explicou-nos os seus esforços para evitar a proibição de que se mantivesse o referido Altar e a Estátua no Senado e que se pudesse oferecer incenso antes das deliberações; e o valor psicológico e simbólico da referida Vitória, associada à própria continuidade do Império, à sua Vitória sobre os seus inimigos.

Finalmente os esforços de Símaco e as esperanças depositadas nele de pouco serviram. Símaco escreveu uma «Relação» ao Imperador, suplicando, mas Ambrósio respondeu com uma dialéctica poderosa e de um modo taxativo. Já sabemos que em Oratória aquele que fala em último tem sempre a possibilidade de ganhar, se é hábil e é escutado com atenção. Símaco tentou enviar, então, uma delegação a Valentiniano II, que era tutelado por sua mãe, uma cristã arriana. Mas a intervenção de Ambrósio impediu mais uma vez que esta embaixada fosse ouvida pelo Imperador. E, de novo, diante de Teodósio, tentou o restabelecimento da Estátua da Vitória – isto sucedeu quando o Imperador estava excomungado pelo massacre de Salónica – mas outra vez a influência de Ambrósio foi decisiva.

— Desde que o divino Juliano morreu, esta, pai querido, é uma batalha perdida — continuou tristemente Hipátia — as Águias de Roma que garantiam a Concórdia voaram para muito longe e assistimos à decomposição de um cadáver histórico. Não há que se amargurar por isso, de que nos serviria? Há que fazer todo o bem que possamos, viver o nosso momento depositando sementes nos corações, sementes que, quem sabe, quando frutificarão? Como dizem os velhos textos mistéricos, ser como rios que adoçam a amargura de um mar infinito: o das lágrimas e sofrimentos humanos, lágrimas e sofrimentos nascidos da sua ignorância.

Depois de escutar atentamente as palavras da sua filha, Theon disse:

— De qualquer modo, se queres que examinemos juntos o texto de Símaco e a resposta de Ambrósio, será muito aquilo que poderemos deduzir e comentar.

— Ficarei encantada com o facto de lermos juntos — disse ternamente Hipátia.

— Ajudar-me-ás a entender algo que gera uma grande confusão na minha mente — replicou Theon — a coragem com que os cristãos estão a defender verdades manipuladas. Por que razão Ambrósio introduziu o culto aos ossos dos mártires, na maioria das vezes de veracidade duvidosa, se é um inimigo declarado dos cultos às imagens? Ambrósio devido à sua requintada educação em literatura e filosofia, deve saber que estas imagens são somente símbolos destas Forças Vivas e Inteligentes que governam piramidalmente a natureza, radiações do Deus Uno, o Grande Mistério. Não entendo como ele pôde propagar esta doença do pensamento que é o culto aos ossos. Sabe que existe uma Ciência Sagrada que liga causas remotas a efeitos através de símbolos e introduziu a devoção ou o culto aos mortos, tal como ensina a profecia de Hermes que tantas vezes lias em criança. Recordas, Hipátia?

— Claro, pai — respondeu Hipátia — aprendi-a de memória, temendo – ou de certo modo, sabendo – que teria que ler no seu espelho para saber o que fazer quando a hora chegasse:

«Tempos virão em que parecerá que os egípcios honraram em vão os seus deuses (…) Regressarão ao seu céu, abandonarão o Egipto (…) E, então, esta terra tão santa, pátria de santuários e templos, ficará inteiramente coberta de sepulcros e de mortos. Oh, Egipto, Egipto! Só fábulas ficarão dos teus cultos, e nem sequer os teus filhos acreditarão mais tarde nelas. Não sobreviverão mais do que palavras esculpidas sobre as pedras que relatam as tuas piedosas obras… Sem deuses e sem homens, o Egipto não será mais do que um deserto!»

Foi o Imperador Augusto (Caio Júlio César Octávio) que tinha ordenado pôr na sala de reuniões do Senado de Roma esta estátua em ouro da Vitória e um altar aos seus pés, para comemorar a batalha de Actium, a anexação do Egipto, o que significou o verdadeiro início do Império. Os senadores, ao entrar no Senado queimavam incenso diante do seu altar. O referido culto sobreviveu até que o Imperador Constâncio, filho de Constantino, na sua viagem a Roma ordenou a retirada do referido altar no ano de 357. O Imperador Juliano, logo após ocupar o trono, restabeleceu-o.

Joviano e Valentiniano não se ocuparam do assunto. Graciano, aconselhado por Ambrósio de Milão, ordenou, em 382, entre outras medidas contra a sabedoria antiga, retirar a dita estátua e o altar, suprimir o título de Pontífex Maximus da nomenclatura imperial e privar os colégios de sacerdotes pagãos e vestais de Roma dos privilégios e abonos que os sustentavam.
A solicitação de Símaco ao Imperador para que este não proibisse o culto à Deusa Vitória no Senado, escrita há vários anos, era uma exposição de pura filosofia neoplatónica, mas numa atitude já quase derrotista que abria o flanco a um ataque mortífero da dialéctica e retórica de Ambrósio.

Theon começou a leitura da carta de Símaco:

Reclamamos o estatuto religioso que durante longo tempo foi benéfico para a República. Sem dúvida podem-se contar imperadores de ambas as religiões, de uma e outra opinião: uns anteriores practicaram as cerimónias dos antepassados e outros posteriores não as suprimiram. Se não vos serve de exemplo a prática religiosa dos antigos, que vos sirva de exemplo ao menos a tolerância dos modernos (…)
Tudo o que os homens adoram é justo que seja considerado um só e mesmo ser. Todos vemos os mesmos astros, o céu é comum, o mesmo mundo envolve-nos. O que importa a forma (prudentia) com que cada um procura a verdade? Não pode haver um só caminho para aceder a tão grande mistério (Uno itinere non potest perveniri ad tam grande secretum)(…)

— Filosoficamente — disse Hipátia — está muito bem exposto, mas infelizmente não menciona a Religião da Sabedoria ou a Religião dos Mistérios. Talvez porque lhe tenha sido proibido fazer referências demasiado claras a este Caminho Único que nada tem a ver com umas ou outras crenças. Pois não é senão o desenvolvimento da Chama Divina no coração humano, segundo o método da Ciência Sagrada, entregue pelos Deuses aos Homens há mais de um milhão de anos, e à qual todas as religiões e mitologias fazem alusão de um modo alegórico. Dialecticamente Símaco não combate, está na defensiva, como que pedindo desculpa por existir, mendigando umas migalhas de consideração e respeito.
O pai de Hipátia continuou a ler:

(…) Cada um tem o seu costume, cada um o seu rito. A Inteligência divina designa cultos diversos como guardiães para cada cidade. Da mesma forma que as almas são repartidas aos que nascem, também os povos repartem os génios do destino. Acrescenta-se a isto a utilidade, que é o melhor vínculo entre os Deuses e o homem. Pois quando toda a razão pára diante do mistério, de onde vem o conhecimento das divindades de uma maneira mais recta senão da memória e dos acontecimentos propícios? Se um tempo longo outorga autoridade às religiões, há que guardar a fé de tantos séculos e nós temos que seguir os nossos pais, o mesmo que fizeram eles quando, felizmente, seguiram os seus (…)

— A grande questão — disse Hipátia — é que as afirmações de Símaco não são só opiniões e crenças; fazem parte de uma Ciência, de uma Filosofia que se não se estudam os seus Fundamentos, podem ser negados com a mesma facilidade com que se afirmam. Além disso, Símaco utiliza o argumento do costume e da tradição, muito típico de um jurista romano, ou seja, o duradouro tem que ser certo. Mas nos tempos de pura efervescência que vivemos, isso não é válido, pois desaparece tanto a consciência das raízes como a do céu; do passado e do futuro.

É como um barco que navega com dificuldade na tempestade: manter o barco a flutuar durante a hora em curso é o máximo objectivo. Não tem sentido, para aquele que vive assim, fixar um rumo se antes não encontra uma estabilidade interior. É como um carro que está a girar numa curva, se se apega demasiado ao rumo que leva, despenhar-se-á, se tenta situar o carro na nova posição capotará por inércia. É necessário saber aonde se quer chegar, claro, mas adaptando-se dia a dia às exigências do presente. Falar nestes tempos do valor do passado e da necessidade de o perpetuar porque sim, é um argumento frustrado. A vida renova as suas formas e até Roma, como repetem os seus próprios historiadores, adaptou-se sempre (ou melhor, até há um século) às situações novas.

(…) Senão, onde juraremos fidelidade às vossas leis e palavras? — Leu de novo Theon — A que religião terá medo a alma falsa, para que não minta nos testemunhos? É certo que tudo está cheio de Deus e não há nenhum lugar seguro para os pérfidos. Mas inspira muito temor a se cometerem delitos o facto de se encontrar presente a ameaça de uma divindade. Aquele altar mantém a concórdia de todos; aquele altar é o lugar de encontro da fidelidade de cada um; e nada outorga mais autoridade às nossas sentenças como o facto de que a nossa ordem estabeleça tudo depois de um juramento. Se a sede se torna profana, ficará exposta aos perjúrios e vão aprovar isto os meus ínclitos Príncipes, que agora estão protegidos por um juramento sagrado público? (…)

— Finalmente — disse Theon — faz falar a Deusa Roma, mas fá-la falar implorante, vencida, afundada já na sua velhice. Como pode deste modo defender a Vitória, que é um Ideal, uma força divina que outorga asas, rejuvenesce e faz elevar por cima de qualquer tempestade? O que vem a seguir quase me parece um mau augúrio, é triste que uma pessoa com tantos estudos filosóficos e valia rectórica como Símaco tenha usado estas comparações, com tão pouca visão de futuro. Ouve o que diz: «(…) Príncipes Óptimos, Pais da Pátria, respeitai os meus anos, aos quais a minha religião me permitiu chegar. Deixem-me praticar as cerimónias ancestrais, das quais não me arrependo. Deixem-me viver segundo o meu costume, porque sou livre. Este culto submeteu o orbe inteiro às minhas leis; estas cerimónias sacras afastaram Aníbal das muralhas e os Senones do Capitólio. Tive que viver até agora para ser repreendida já em anciã? Chegar a ver o que se pensa estabelecer! Tardia é e injuriosa a emenda da velhice! (…)»

— Nas suas cartas, Ambrósio responde a estes argumentos com outros de maior vigor retórico — continuou Theon — e infinitamente mais persuasivos não só para o Imperador, mas para aqueles que vivem tão aflitos, que a sua única esperança é uma ajuda do Céu. E se esta lhes é oferecida, embora seja como um sonho, como uma evasão, como um licor para esquecer as suas desgraças, todo o debate racional está a mais. Não obrigais a ninguém a praticar uma religião contra a sua vontade.

Hipátia sorriu amargamente, pensando que existem muitas formas de obrigar, e algumas certamente violentas. Também pensou que Ambrósio actuava talvez de boa fé e não se sentia responsável, nem ele nem a religião, dos desmandos e perseguições que já nessa data tinha acontecido em muitos dos templos, e que desde o édito de Teodósio do ano 391 tinham aumentado de um modo aterrador.

O Filósofo de Alexandria começou a ler o discurso de resposta de Ambrósio:

— Tendo Vós, Imperador, a mesma liberdade e que o não coagir ao imperador não o leve a mal ninguém que levaria a mal se ele se sentisse coagido. Aos próprios gentis não lhes costuma gostar a pessoa que trai as suas convicções, pois cada qual deve defender com liberdade e guardar fielmente a crença da sua alma (…)

O início da carta é magistral, pensou Hipátia, mas caramba, essa liberdade religiosa que prega em toda a carta não parece ser a que incitou ao imperador depois de o humilhar na Catedral de Milão. E se não foi ele a causa do édito fatal, a sua voz para pregar a livre consciência no plano religioso silenciou-se como que por encanto.

“A Religião da Sabedoria e todas as suas herdeiras, como sombras reflectidas, sabem que é o Céu, efectivamente, que desce à terra, como um orvalho. Que é a sua bênção que se derramou no coração humano preenchendo-o de anseios infinitos, de desejos de perfeição, de uma imperiosa necessidade de criar; e que é do Céu que desce o «Arco-Íris», o Caminho da Iniciação, que permite ao homem elevar-se ao sublime.”

— Em relação a um Deus que é puro mistério e inacessível à razão humana — disse ela — o próprio da nossa Filosofia, como se vai falar Dele a um vulgo, aos simples crentes?

— A resposta de Ambrósio — disse Theon — é demolidora:

«(…) O mistério do céu que me ensine o próprio Deus, que o fundou, não o homem, que se desconhece a si mesmo. Sobre o assunto de Deus a quem crerei mais do que ao próprio Deus? Como posso crer em vós, que confessais que desconheceis aquele a quem rendeis culto? Diz Símaco que não pode existir um caminho único para aceder a tão grande mistério. O que vocês ignoram nós conhecemos pela palavra de Deus. E o que vocês procuram através de conjecturas, nós descobrimos pela mesma sabedoria e verdade de Deus. Portanto, não coincide o vosso com o nosso (…)»

— Ambrósio cala mais do que ignora — afirmou Hipátia — A Religião da Sabedoria e todas as suas herdeiras, como sombras reflectidas, sabem que é o Céu, efectivamente, que desce à terra, como um orvalho. Que é a sua bênção que se derramou no coração humano preenchendo-o de anseios infinitos, de desejos de perfeição, de uma imperiosa necessidade de criar; e que é do Céu que desce o «Arco-Íris», o Caminho da Iniciação, que permite ao homem elevar-se ao sublime.

Uma infinidade de caminhos conduzem, e de certo modo rendem culto à Montanha Sagrada, vários, talvez, desde o vale se aproximem ao seu cume encrespado, abençoado sempre com as neves eternas da pureza; mas só um avança para o cume, bordejando precipícios, e esse último não pertence a nenhuma religião e nem sequer a nenhuma filosofia: esse Caminho Único é já o fio de prata, de Sabedoria ou Luz Divina, como o fio de Ariadna no mito do Labirinto.

E isto, é evidente que Ambrósio sabe. Quando Símaco diz que não existe um caminho único o que quer dizer, e isto Ambrósio sabe, é que a bondade do Céu, Deuses ou Deus Único faz com que o culto, o reconhecimento e a gratidão ao divino possa ser expressado de mil maneiras. Não há uma só composição musical harmoniosa mas uma infinidade delas, não há um só acto heróico, mas tantos como almas valentes em situações críticas, não há um único gesto para expressar o amor… Ali onde se expresse a Beleza, ali onde brilhe o fogo da Coragem, ali onde reine a doçura do Amor, aí estão presentes estes Valores Eternos.

Ali onde a alma humana queira elevar-se para Deus, aí está a verdadeira religião, pois foi Deus que inspirou em todos os homens — e não só nos que têm este ou aquele Credo — dito anseio. Os verdadeiros crentes, a verdadeira Igreja é a daqueles que obedecem, conscientemente, à Vontade de Deus, embora jamais te­nham ouvido falar de Cristo, de Jeová, de Zeus ou dos ensinamentos místicos de Orfeu.

Em relação à «palavra de Deus» — continuou — gostaria de saber a que se refere. Se é às palavras contidas nos seus Livros Sagrados, todos os povos e religiões têm os seus Livros Sagrados e foram formulados, salvo adulterações, ouvindo a Sabedoria Primordial, que é a única e verdadeira Palavra de Deus. E esta Sabedoria, no Templo em que se ouve, no Altar em que flameja é, unicamente, no íntimo do coração humano. Qualquer dos Livros inspirados pelo Céu, ou ditados, adaptando essa Sabedoria primeira aos ouvidos e ao entendimento humano, em qualquer época e lugar, desde há centenas de milhares de anos, é um Livro Sagrado.

— Em relação aos ensinamentos dos seus Evangelhos — prosseguiu Hipátia — que muito, muito pouco devem ter de histórico, a maior parte é gnosticismo inspirado na sabedoria egípcia, e isto sabe qualquer um que tenha estudado os Mistérios de Osíris e os textos herméticos: as dezenas de milhares deles que existem repartidos nos diferentes santuários do Egipto ou, simplesmente, alguns dos que foram traduzidos para o grego e que qualquer pessoa culta pode investigar.

Relativamente aos Livros Sagrados dos hebreus, que os cristãos assumiram como próprios: efectivamente, lendo segundo certas chaves, que todos os Iniciados sabem, – algumas destas chaves foram divulgadas na Escola Catequética de Orígenes –, há uma grande sabedoria, divina, no valor simbólico das imagens alegóricas que usam. Mas de nenhum modo maior do que, por exemplo, O Livro da Oculta Morada, que qualquer egípcio culto estudou e que, para mim, e espero que os cris­tãos me perdoem, é infinitamente mais sublime e inspirado, embora reconheça a profunda sabedoria contida no Pentateuco, agora chamado Antigo Testamento, com alguns acrescentos.

Mais de que um Livro Sagrado, a Sabedoria Divina inspirou milhares deles!: na Índia os seus Vedas, no Irão as obras de Zoroastro e os textos de Mani, tão es­car­necidos agora, na Grécia os textos atribuídos a Orfeu, e tantos outros, como, por exemplo, os Versos Áureos de Pitágoras, os Oráculos Caldeus ou as obras de Homero ou de Hesíodo, que lidas segundo a Ciência Sagrada é a Palavra de Deus tanto como os seus Evangelhos ou os textos dos seus Profetas. Até agora nenhuma religião, salvo nos seus momentos de mais execrável fanatismo, tinha querido ficar com o monopólio do Sagrado ou da Sabedoria. Isto é, talvez, o que mais desconcerta os filósofos que ainda não penetraram no sentido íntimo dos acontecimentos que estamos a viver.

Hipátia fixou o seu olhar no horizonte, pensativa. Pareceu meditar durante alguns segundos antes de continuar:

— Mas se queremos ser críticos podemos sê-lo e muito, pois os textos que eles usam da tradição hebraica são, na maior parte – se não todos – Livros Sagrados de povos que eles dizem adorar os demónios. O Génesis, por exemplo, é uma adaptação de certos livros da Sabedoria Caldeia; vários dos livros de ensinamentos morais da Bíblia são uma cópia directa, sem serem sequer adaptados, dos nossos Sebait ou Textos de Sabedoria egípcios, como por exemplo, o atribuído a Amenemhat. Os Salmos de David, que agora são cantados nas Igrejas, sublimes, certamente, Deus saberá de qual antigo santuário terão copiado e adaptado… porque aparece-nos a seguinte dúvida: quando alguém mente habitualmente ou mesmo que fosse uma só vez, como saber se é verdade o que diz, se dispomos de um único testemunho?

Nisto as leis romanas são severas e de um grande senso comum Testius Unus, Testius Nullus, um único testemunho, testemunho inválido. Se eles copiaram vários dos livros que aparecem na sua Bíblia de livros caldeus, egípcios e o declaram agora como Palavra de Deus, como sabemos que não copiaram o resto de outros originais que já não podemos estudar, ou seja, como podemos saber que não copiaram tudo? Aceito que digam que é a Palavra de Deus, porque, repito, a Sabedoria é a Palavra de Deus, ali onde estiver escrita: em Livros, nos ensinamentos orais dos Sábios, nas Máximas da Aritmética e da Geometria, nos Oráculos… e onde jamais pode enganar ou ser manipulada, na própria Natureza. A verdadeira Palavra de Deus é a Natureza e o sentido da mesma encontra-se na sua Alma, que pode ser ouvida no Santuário do Coração, no mais elevado da nossa consciência.

Theon retomou a leitura do texto de Ambrósio:

(…) Somente poderia estar segura a saúde pública, se cada um desse verdadeiramente culto ao Deus verdadeiro, isto é, ao Deus dos cristãos, que rege tudo. Só ele é o verdadeiro Deus, que há-de ser venerado intimamente pois, os deuses dos gentis são demónios, como diz a Escritura (…)

Hipátia, indignada, interrogou-se:

— Que diferença existe entre o seu Deus e o nosso Amén, com o qual além disso, pronunciando o seu nome fecham as suas orações, ou com o Zeus Zen dos gregos, ou com o Júpiter Optimus Maximus dos romanos, com o Ptah dos Mistérios de Mênfis ou Ra do Templo de Heliópolis, ou a Unidade da série numérica na Matemática Sagrada? Qualquer filósofo sabe que são idênticos, se os despojamos de todos os véus com que a religião popular os cobriu.

Só que nós defendemos que há uma pirâmide de Deuses, como irradiações, através dos quais se expressa a sua magnificente e poderosa Unidade Boa, e depois uma infinidade de Daimons ou Espíritos intermediários, como dígitos deste Poder-Uno e destes Deuses, que são os que regem os diferentes reinos da natureza ou as diferentes partes do corpo humano, as diferentes raças, os diferentes países, etc., etc. Se querem prescindir destes Deuses e Génios, finalmente vão ter que aceitar os anjos da tradição hebraica e o culto aos santos que será finalmente idêntico ao culto que nós fazemos aos heróis e aos génios. A atitude da religião cristã recorda-me a heresia de Akhenaton, no Egipto.

Ele disse que existia um só Deus, no alto, o disco solar, Atón, e ele proclamou-se o seu único enviado ou mensageiro, e a partir daí começou a destruir todos os templos bem como todo o bom e nobre que existia no Egipto, assassinando e torturando sacerdotes, violando as virgens dos Templos e todo o tipo de aberrações que se tivessem durado mais tempo do que duraram teriam exterminado o Egipto. As mesmas sombras que arrastaram este faraó maldito são as que agora empurram muitos dos bispos, realizando no mesmo nome do seu monopólio espiritual (?) todo o tipo de más acções e selvagerias.

Theon, sorrindo, olhou a sua filha e disse:

— Não te exaltes Hipátia, ouve como continua: «(…) Que digam que todas as coisas deviam permanecer nos seus princípios e o mundo coberto de trevas e que lhes desagrada que tenha sido iluminado pelo resplendor do sol. Mas quanto mais grato é ter expulso as trevas da alma que não as do corpo e que brilhe o resplendor da fé que não o do sol. Em conclusão, as primeiras idades do mundo, como as de todas as coisas, evoluíram até chegar à ancianidade da fé, das coisas veneráveis.

Os que não aceitam isto, que rejeitem a colheita porque é uma fecundidade tardia: que rejeitem a vindima, que vem no final do ano, que rejeitem a azeitona que é o fruto último. Porque a nossa fé é a colheita das almas; a graça da Igreja é a vindima das virtudes, a qual desde o princípio do mundo verdejava nos santos e na última etapa estendeu-se aos povos, para que todos advirtam que a fé de Cristo não penetrou nas almas rudes (não existe coroa de vitória sem inimigo), mas que, depois de examinar bem a opinião que antes teve a sua validez agora prevaleceu com todo o direito o que era verdadeiro (…)»

— Estas palavras estão cheias de beleza e significado — replicou Hipátia — mas servem a uma intenção, que é fazer pensar que o advento de Cristo é o Fim da História, a Culminação, o que de facto vai gerar com que fiquemos sem História para concretizar. Ao menos Roma, pelos vistos, pouco mais vai fazer. Deixemo-nos de sofismas! Isto que chama o Culminar de Roma é a morte de Roma!

E o que estamos a viver é a inconsciência que precede a morte, só que a nossa inconsciência é mo­ral, mas não vai ser de sofrimento, pois vamos ter que beber até à última gota do cálice da amargura e da dor. Ter esta mentalidade tão utópica, quer dizer não trabalhar a terra porque são os jardins celestes os que têm que ser irrigados, é como viver drogados, com uma droga de felicidade que pode levar à irresponsabilidade e a deixar todas as portas abertas aos lobos, as forças obscuras que destroem as sociedades, destruindo primeiro os valores morais que unem os cidadãos.

Hipátia levantou-se e observou na noite uma estrela que, cintilando, sorria. Era Sírio que nesse momento deslizava a sua luz entre as sombras do jardim.

— O que disse antes — continuou Hipátia — responde, penso, ao que disse aqui o bispo de Milão, à arbitrária oposição que faz entre o que nós sabemos e o que eles dizem saber, como se as nossas crenças não fossem mais do que opiniões e a sua sabedoria revelada, a Palavra de Deus. A forma de o dizer é genial, pois Ambrósio é uma grande alma, mas no seu conteúdo é, penso, enganadora, pois cala o que sabe; sectária, pois separa um grupo de privilegiados da condição humana, dando-lhe depois «direito» a elevar-se sobre as cabeças dos outros, não com as asas de Deus, mas pisando as suas cabeças, o que estamos a ver já no dia-a-dia; e intolerante, pois quem não for baptizado com a sua água sagrada está condenado ou a um inferno eterno ou a uma espera quase eterna… sumido numa indiferença imbecil, como segundo eles se encontra Platão e tantos outros.

Qualquer um que tenha estudado nos Templos do Egipto — prosseguiu Hipátia — sabe que o verdadeiro baptismo é o da Iniciação e nele a alma é banhada pela Água da Vida Eterna, sendo-lhe outorgada a Estabilidade e a capacidade de caminhar, firme e segura nas trevas do mundo. Esta Iniciação aparece representada nos muros dos templos e o Faraó, que simboliza o candidato aos Mistérios, aquele que quer ser Rei de si mesmo para servir Deus, é banhado com duas vasilhas ou fontes, sustentadas por dois Deuses: geralmente Hórus, Deus que simboliza o Herói Solar ou Guerreiro Interior, e Thot, que é a Medida, a Inteligência. E das ditas vasilhas, como se fosse Água Sagrada e banhando o Candidato por inteiro, saem as Chaves da Vida (Ankh, atributo de Ísis e de todos os Deuses), e Uash (báculos de Anúbis).

Muito rebaixaram a Iniciação quando dizem que deixando-se ser banhados pela água lustral (que se encontra, por certo, em quase todos os templos antigos, como por exemplo – e especialmente – no de Vesta) e pronunciando um «sim, creio», podem ser ungidos pela Água da Vida Eterna, para o qual é necessário a mais difícil das conquistas e o maior dos sacrifícios e depois das mais absoluta das entregas à Lei que governa o Universo e o Homem, que é expressão da Vontade de Deus. Aquele que tenha sido ungido por esta Graça, aquele que tenha superado as Provas de Iniciação e sobre o qual brilha já, para sempre a Estrela dos Mistérios, é aquele que proclama, nas palavras do meu Mestre, com a sua alma e com os seus actos, todos os dias da sua vida: «não ter outro desejo, além daquele da Natureza; outro plano a não ser o plano de Deus; outro amor a não ser o Amor à Humanidade; outra vontade a não ser a do Eterno».

Hipátia continuou a sua reflexão em voz alta:

— A mesma manipulação no significado que nós damos às nossas estátuas sagradas e símbolos faz com que, no fundo, Ambrósio esteja a mentir, embora desconheça a razão íntima sendo como é ele, uma grande alma. Os nossos filósofos não pensam o que ele nos atribui; o vulgo sim. Mas o vulgo sempre será vulgo em qualquer das religiões, pois a sua forma de adoração é uma devoção simples: Vocês adoram as obras das vossas mãos; nós julgamos uma injúria considerar Deus uma coisa que pode ser feita. Quem pensa isso? — interrogou-se Hipátia — Como pode ter tal audácia em usar este argumento?  Deus não quer receber culto nas pedras. Inclusive os vossos próprios filósofos se riram disto.

E também expressaram que, através da imaginação, se estendem as pontes para o desconhecido, para o subtil, para o misterioso, enfim, para o divino. As imagens conformes com determinadas Ideias recebem a sua influência. Por exemplo, uma espada é associada à vontade, ao valor e um pássaro à liberdade da alma; mergulhar num lago é a imagem para descer no nosso mundo interior.

E estas imagens que estendem uma ponte para o mundo subtil podem ser fixadas na pedra como uma recordação perpétua destas mesmas Ideias divinas. Não se adora a pedra, nem sequer a imagem e nem sequer a Ideia que a referida imagem evoca, sendo que nelas se procura uma ajuda para que a própria Ideia, como se fosse um raio de Deus, penetre na própria Alma. Não sucede o mesmo nas Ideias cujas imagens são evocadas pelas palavras na Literatura Sagrada, quando Deus se converte numa Coluna de Fogo, ou aparece como um Rei sentado no seu Trono? Estas imagens não são para aludir e dar vida a um significado oculto que está por trás? Quem pode ser tão imbecil a ponto de pensar que o Deus que rege o Universo está sentado num Trono e apoia os seus pés sobre um escabelo?

E, no entanto, nas visões místicas, cuja electricidade divina se apoia em imagens simbólicas, ou nos sonhos, pode aparecer assim. Do mesmo modo, se as vacas ou as gaivotas tivessem religião, diriam que o seu Deus era uma Vaca Cósmica ou uma Grande Gaivota. É evidente que tudo isto são símbolos, imagens de grande valor se se souber trabalhar com elas. E não são estas Ideias o pensamento do próprio Deus? Parece-me quase vergonhoso que Ambrósio se obrigue a si mesmo a ignorar aquilo que sabe. Não é este o efeito da bebida embriagante do fanatismo que fecha as portas à sensibilidade e à inteligência?

— De qualquer modo — interveio Theon — o pior é quando para responder a Símaco, faz ele mesmo falar a Deusa Roma. Nas aulas de oratória chamamos a esta figura de linguagem, prosopopeia, ou seja, «fazer uma máscara»; mas é evidente que jamais usarei como exemplo para nenhum dos meus discípulos esta personificação tão sombria: Roma: Arrependo-me do meu equívoco. As minhas velhas faces ruborizam-se de vergonha.

— Sou eu que se ruboriza com a vergonha alheia! — disse Hipátia — Está a dizer que tudo quanto fez o espírito romano nasceu de uma falsa crença, de uma fantasia errada! Como pode ter tal audácia? Rejeitando a valia do passado, de tudo o melhor que fizemos e não poderemos já fazer, que futuro nos resta?
— Permite-me que termine a leitura, Hipátia, filha minha: — disse Theon — (…) Mas não me envergonho de me converter com todo o orbe sendo já anciã. É uma grande verdade que não existe idade tardia para continuar a aprender. Que se envergonhe a velhice que seja incapaz de ser corrigir. Não é elogiada a velhice de anos, mas a de bons costumes. Não é uma desonra mudar para melhor. Até agora só isto tinha em comum com os Bárbaros: que não conhecia Deus.

— Não conhecia Deus? — disse Hipátia a suspirar — Que insulto a todos aqueles que, durante mais de mil anos, com a sua piedade elevaram o Ideal de Roma, a todos aqueles que mantiveram o Fogo aceso – e com Ele, a Justiça, a Ordem, a Concórdia – no meio das tempestades e dos furacões provocados pelo egoísmo e pela cobiça! Não é a Vontade do próprio Deus que inspirou este sonho e esta necessidade histórica nos seus corações? Não é o conhecimento de Deus que lhes permitiu estar firmes perante a adversidade, justos e bondosos no meio de todas as tentações do mundo?

José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”