Hipátia e o Mito de Erisictão

Autor

José Carlos Fernández

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Vários dias depois Hipátia estava a dialogar com os seus discípulos sobre o mito de Erisictão. Dizia-lhes até que ponto as suas imagens alegóricas reflectiam o drama da queda do Império Romano quando este, abandonando a sua Pietas e o seu destino histórico, se tinha convertido numa sociedade de consumo e apenas a cidade de Roma devorava o trigo do Egipto e grande parte dos produtos gastronómicos de todas as províncias sem, em compensação, servi-las realmente como capital e centro de governo. Constantinopla não era, no seu louco consumismo, um exemplo melhor. Hipátia explicava-lhes que o verdadeiro «pecado» ou quebra moral fora o deixar de sentir-se unidos ao Céu, ao Dever, aos deuses ou a Deus; o deixar de sentir-se irmanados com a Natureza e com os outros seres humanos. Tudo isso nos convertia em monstros de egoísmo. A piedade não era, como ensinavam alguns cristãos, compaixão. Era isso e muito mais. Pietas, recordava-lhes Hipátia, é manter o vínculo com os Deuses, com a nossa alma divina; respeitar e cumprir os deveres que mantém este vínculo com o melhor de nós mesmos, com a pátria, com a família, com aqueles que nos rodeiam.

— A Piedade — disse-lhes Hipátia — é que sustém a Árvore da Vida na nossa alma e quem nos liga, portanto, à alma das estrelas, ao pas­sado e ao futuro; quem evita que a voracidade de um presente sem sentido nos devore a nossa consciência. Grande parte do fanatismo religioso que vivemos hoje e também o culto que fazemos aos prazeres dos sentidos, ainda que aparentemente opostos, são o efeito de ter perdido a verdadeira piedade. O general Sertório, quando esteve desterrado na Hispania, fazia cunhar nos seus projécteis de funda esta palavra, Pietas, pois ainda que se visse obrigado a fazer a guerra, queria expandir esta virtude romana que nos fala de uma divina irmandade entre os homens e destes com os poderes do Céu. Uma irmandade, definitivamente, com o sentido íntimo da vida que, quando se perde, tudo se estanca e apo­drece no caos e numa desnaturalização monstruosa. Sertório, mesmo considerado inimigo pelo Senado de Roma, não se sentia desvinculado da alma de Roma e queria recordá-lo cada momento da vida. O mito de Erisictão permite-nos compreender muito bem este momento histórico que vivemos hoje; por isso peço-vos que o mediteis bem e que, para amanhã, prepareis um comentário filosófico ou um discurso retórico.

— Também podeis — continuou Hipátia — estudar este mito nas Metamorfoses de Ovídio, e na Biblioteca da Escola temos uma cópia, vamos hoje lê-lo juntos; e não esqueceis nunca o valor filosófico e moral, e os profundos ensinamentos psicológicos contidos nos nossos mitos, por muito que sejam ridicularizados por alguns oradores cristãos. Eles substituíram os nossos mitos pelos hebraicos, nos quais também há tesouros ocultos quando se interpretam sabiamente, mas nos quais muitos predicadores acreditam literalmente, o que é causa de todo o tipo de aberrações.

Hipátia preparou-se para ler o mito que dizia assim:

— «Oh tu, muito valente, há aqueles que mudaram uma vez a sua forma e nela per­maneceram, a outros é-lhes permitido transformarem-se em novas figuras, como a ti, Proteu, que habitas o mar que abraça a terra. Umas vezes te vêem como jovem, outras como leão, ou até como impetuoso javali, ou como uma serpente que ninguém se atreve a tocar; outras vezes és um touro com cornos; podes parecer também, frequentemente, uma pedra e inclusive uma árvore; às vezes assumes a forma das águas transparentes e és um rio, ou então a do fogo que é contrário às águas.

E não menos que isto, mudando de forma, faz a mulher de Autólico, filha de Erisictão. O seu pai era daqueles que depreciam a vontade dos deuses e nenhum incenso ardia nos seus altares. Disse-se que ele próprio tinha ofendido o bosque de Ceres e com o seu machado de ferro cortado o antigo bosque. Nele erguia-se uma azinheira gigante de tronco anoso, um bosque por si só; tinha faixas e placas recordatórias, grinaldas, testemunhos de votos cumpridos. No seu pé as dríades costumavam fazer danças festivas e com as mãos entrelaçadas, e ordenadas, rodeavam o tronco cuja medida era mais de quinze côvados, e além disso todo o restante bosque estava sob ela, como a erva está debaixo das árvores. E no entanto isso não fez com que o filho de Triopas afastasse dela o seu ferro e mandasse os seus servos talharem a azinheira sagrada e, ao ver que vacilavam à sua ordem e depois de tirar a um deles o machado, disse “mesmo que em vez de ser a azinheira amada da Deusa fosse a própria Deusa, não deixaria de cair a sua frondosa copa para a terra”. E enquanto golpeava uma e outra vez, obliquamente, a azinheira da Deusa tremeu e deu um gemido e ao mesmo tempo as folhas, as bolotas e os longos ramos começaram a perder a sua cor. Quando, com a ímpia mão, fez uma ferida no seu tronco, começou a brotar sangue da sua casca, tal como brota sangue do pescoço cerceado de um enorme touro quando cai como vítima junto ao altar. Todos ficaram estupefactos e apenas um se atreveu a deter e afastar do crime o cruel machado de duplo gume.

O tessálio disse olhando-o: “Este é o prémio dos teus sentimentos piedosos”, e voltando o machado para o homem cortou-lhe a cabeça. Depois continuou com repetidos golpes a cortar a azinheira, de cujas entranhas saiu este som: “Eu sou, com esta madeira, uma ninfa gra­tís­sima a Ceres e que te pressagio, ao morrer, que muito próximo está o castigo da tua acção, castigo que é o meu consolo ao morrer”.

Ele continua com o seu criminoso acto e a árvore, por fim, sacudida por inumeráveis golpes e arrastada com cordas, é derrubada e ao cair muitas outras árvores também caíram. As dríades, angustiadas pelo dano provocado no bosque e pelo seu próprio, pois eram todas irmãs, cheias de tristeza e ataviadas com negros vestidos acorrem a Ceres e pedem castigo pa­ra Erisictão. A Deusa concedeu e com um belíssimo movimento de cabeça sacudiu os campos, prenhes de pesadas messes, e planeou um castigo, mas antes teria compaixão não fosse ele indigno de compaixão pelos seus actos: lacerá-lo com a pes­te da Fome, portadora da morte.

E como a Deusa não se podia aproximar dela (pois o destino não permite que a Fome e Ceres estejam juntas) chama uma divindade dos montes, uma oréade do campo, com estas palavras: “Existe um lugar nos confins remotos da gelada Cítia, um horrível território, uma terra estéril sem frutos nem árvores; ali moram o Frio inerte, a Palidez e o Tremor e o Fome esfaimada; ordena-lhe que se oculte nas entranhas criminosas do sacrilégio e que não seja vencida pela abundância de alimentos e que seja, na luta, superior às minhas forças; e para que não sintas medo da extensão do caminho recebe o meu carro e os meus dragões, que re­primirás no alto com os freios”, e fez-lhe a entrega deles.

A oréade, transportada pelos ares no carro da Deusa, chegou à Cítia ao cume de um monte endurecido (chamam-lhe Cáucaso), aligeirou os pescoços das serpes e viu quem procurava, a Fome, num campo de pedras, arrancando com unhas e dentes as escassas ervas que existiam. O seu cabelo, eriçado, os seus olhos, cavados, a sua cara pálida e os lábios brancos de mugre, a garganta ressequida e áspera de mofo, a pele endurecida e através da qual se podia ver as entranhas. Os ossos secos sobressaíam por baixo das curvas das ilhargas, o ventre era apenas o sítio do ventre, e poder-se-ia pensar que o peito ficava pendurado e apenas estava sustido pela estrutura da espinha dorsal. Tão esquálida era que tinha aumentado o tamanho das suas articulações, e a rótula do joe­lho estava inchada, e sobressaíam os tornozelos. Quando a viu ao longe, pois não se atrevia a aproximar-se mais, dá-lhe as ordens da Deusa e, parando, pareceu-lhe ter fome ainda que estivesse distante e recém-chegada a este lugar: fazendo re­tro­ceder os dragões, deu volta às rédeas e dirigiu-se pelos ares em direcção a Hemonia.

A Fome obedece às ordens de Ceres e, mesmo sendo contrária à sua actuação, é le­va­da pelo vento através dos ventos até chegar à casa destinada e rapidamente en­trou no quarto deste sacrílego que estava relaxado num profundo sono (já era de noite) e aperta-o com os seus dois braços penetrando como um veneno no homem, so­prando na sua garganta, peito e cara. As suas vazias veias disseminavam jejum e, ten­do cumprido as ordens de Ceres, abandona o mundo fértil e retorna à sua estéril casa, à sua gruta habitual. Ainda o doce sono embalava Erisictão com as suas suaves asas e já pede comida aos fantasmas do seu sonho, movendo inutilmente a boca e fatigando os dentes, um contra o outro, exercitando a sua enganada garganta com um alimento vão, e em vez de manjares o que devora inutilmente são ligeiras brisas. Mas, quando o des­canso fugiu, a ânsia de comer assola-o reinando nas suas vorazes fauces e enormes entranhas. E sem tardar pede tudo o que o mar, a terra e o ar criam e, com a mesa posta, queixa-se da fome e procura os banquetes dos outros, e o que podia bastar a cidades, o que poderia ser suficiente para todo um povo, não o é para um só, e tanto mais deseja quanto mais envia ao seu ventre, e do mesmo modo que o mar recebe os rios de toda a terra e não se sacia com as águas e procura correntes es­trangeiras, e como o devorador fogo nunca afasta o alimento e queima inumeráveis tochas, quanto mais abundantemente se lhe dá mais ele pede e mais devorador quanto maior é o monte; assim a boca de Erisictão, sacrílego, recebe e pede ao mesmo tempo todo o tipo de manjares; nele qualquer alimento é desejo de mais alimento e ao comer engendra sempre um espaço vazio.

As riquezas da sua fazenda já tinham diminuído devido à sua fome e ao profundo poço do seu ventre, mas estes continuavam sem diminuir, a fome cruel permanecia e a labareda da sua gula aumentava o vigor, insaciável; tendo enviado, por fim, todas as suas riquezas às suas entranhas, restava-lhe apenas a sua filha, que não merecia tal pai. Sem ter mais nada, vende-a. Ela com nobreza rechaça um dono e diz estendendo as mãos sobre as águas vizinhas: livrai-me de um dono já que foi teu o prémio de me arrebatar a virgindade. E, certamente, este prémio foi de Neptuno. Enquanto um momento antes pareceu ao seu dono que ela o seguia, Neptuno, não desatendendo a súplica, muda-lhe a forma dando-lhe um rosto de varão e roupas próprias de um pescador. O seu dono, contemplando-a, diz “Oh tu que ocultas o pendente bronze com um pequeno isco, oxalá o teu mar esteja calmo, oxalá confiantes peixes se aproximem do teu barco e que nenhum, a não ser que já esteja apanhado, sinta o anzol: diz-me onde está aquela que há pouco, com os cabelos revoltos e roupa pouco valiosa, estava em pé nesta praia, pois as suas pegadas não vão para mais longe”. Ela percebe que a dádiva do Deus é real e, alegrando-se com a pergunta sobre ela própria, disse a quem perguntava: “Perdoa-me, quem quer que tu sejas; não afastei os meus olhos deste lugar em nenhum momento e tenho estado aqui a trabalhar concentrado. E, para que não duvides, do mesmo modo que o Deus do Mar é quem auxilia nestas artes, do mesmo modo que há tempo que ninguém, nem mulher alguma, sem contar comigo, deteve-se nesta praia”.

O dono acreditou e, voltando os passos, pisou a areia e se foi, enganado, e a ela foi-lhe então devolvida a sua anterior figura. Mas quando o pai soube que a sua filha podia transformar o seu corpo, continuou entregando a donos a Triopeide, mas ela, umas vezes égua, outras vaca e outras cervo fugia e dava ao seu voraz pai alimentos que não merecia. No entanto, quando a força maligna já tinha consumido toda a matéria e dado alimento à grave enfermidade, ele próprio começou a arrancar os membros com dentadas dilacerantes e, desgraçado, alimentava o seu corpo fazendo-o diminuir.»

Hipátia continuou a aula, enquanto os seus discípulos escutavam atentamente.

— Não esqueceis que Erisictão vive em cada um de nós — disse — é o nosso eu inferior, nosso egoísmo cego com uma voracidade infinita. Se deixarmos que nos governe e corte a árvore sagrada da nossa natural pie­dade tudo estará perdido. Seremos como um poço sem fundo, nada nos saciará e iremos pelo mundo como ladrões ou mendigos, como animais furiosos que vão em busca da sua presa, sem nunca ficarem saciados com as suas vítimas; ou como formas vampíricas (lamias) absorvendo o sangue subtil e invisível dos incautos. Recordai-o e velai para que o monstro do egoísmo, que sempre espreita dentro da alma, não ameace a Árvore Sagrada que une o céu com a terra e cujos frutos são tão doces: são os frutos da eterna juventude. É a Árvore Sagrada da Piedade, com ela tudo até alegre, mesmo o sofrimento; sem ela nada pode saciar a nossa infinita indigência, devoraremos aqueles que nos rodeiam e aca­baremos por devorar-nos a nós mesmos.

Excerto do Livro: “Viagem Iniciática de Hipátia: Na Demanda da Alma dos Números”, de José Carlos Fernandez, Director da Nova Acropole Portugal

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