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Autor
José Carlos Fernández
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Certo dia Hipátia e os seus discípulos conversavam sobre o que é a Justiça no céu e a sua difícil aplicação no meio das correntes do mundo, ou seja, a Justiça de ouro e a de ferro. Ela tinha-lhes traduzido do hieroglífico um texto mistérico egípcio que fazia referência à Dupla Maat, ante cuja presença a alma do defunto tem que comparecer no Dia do Juízo. Maat é a Deusa da Ordem, da Verdade e da Justiça e essa condição de dupla refere-se, de certo modo, a esta Lei no mundo das causas: governando as intenções, o motor oculto dos actos, por um lado, e aos factos do mundo objectivo, do outro lado do espelho da Vida. Os egípcios representavam-na como Duas Maat sobrepostas, ou como uma Maat com duas plumas (o seu símbolo por excelência) e, inclusive, nalgumas estátuas mágicas com a metade do corpo de ouro e a outra metade de ferro.
Hipátia disse-lhes que podemos pensar que a Lei é irradiada do Ser, do Logos; quer dizer, cada ser vivo tem, segundo a sua natureza, uma Lei que rege a sua existência e que determina o seu caminho a seguir. Nesse sentido, por exemplo, as Leis que governam o Sol e a sua Esfera de Vida – que abarca todos os planetas e muito mais além – são próprias deste Sol e não sabemos se as outras estrelas-sóis estão regidas pela mesma Lei. Mas sendo o Universo também um Ser Vivo, um Macróbios como dizia o filósofo neoplatónico Marcião, deve ter uma Lei ou umas Leis que fossem válidas em todo ele; e que depois se adaptariam em cada um dos seres que vivem no seu seio, sejam nuvens de estrelas ou uma toupeira que se arrasta, cega, debaixo da terra. Esta Lei que governa de modo específico cada existência dizia-se, simbolicamente, que era filha de Ra, ou seja, do Sol, ou a Vontade encarnada de dito Ser. Mas este, por sua vez, está dentro de outro ser maior e assim até chegar ao próprio Universo cuja Lei-Una seria a encarnação desta mesma Vontade do Universo.
Mas, continuava a argumentar Hipátia, antes que o Universo encarne no próprio Espaço, na sua máxima, pura e incondicional abstracção, como forma de vida, como um gigantesco «Ovo de Ouro», deve existir uma Lei, prévia a toda a forma de vida, Eterna e imutável. Isto é o que a sabedoria egípcia chamava «a Lei antes de Atum», sendo este Deus Atum o coração oculto do Universo ou, como eles próprios expressam nos seus hieróglifos, o Não Ser que é o Ser de todas as coisas. Depois desta explicação, e embora fosse apenas parcial era necessária para que compreendessem o texto que iria ler, começou a recitar com palavras e uma entoação que fazia vibrar as cordas mais íntimas da alma de cada um dos seus discípulos:
— Eu sou a Lei, Eu sou a execução e a lei executada, e o executador da lei. Sete vezes sete. Eu sou as Duas Senhoras [a Dupla Maat], eu sou uma nas duas e as duas em uma, ambas e a mesma. Não poderás conhecer-me pelo meu nome apenas porque sou invocada em ambas as direcções do espaço, eu termino quando começo. Sete vezes sete. Os Deuses concordam comigo, os homens temem-me e amam-me mas não me conhecem. Eu sou desconhecida para as regras dos homens. Eu não existo onde está o coração do homem, Eu não existo onde está a mente do homem, mas Eu sou Coração e Mente. Sete vezes sete. A mão direita feita de ouro puro, a mão esquerda feita de negro metal. Eu durmo sobre cada porta. O meu olho esquerdo é o de um pássaro da noite. O meu olho direito é o de um gato. Eu sou a explicação ao que não pode ser explicado. Eu não posso dar nenhuma resposta porque não sou eu quem é questionada, Eu não sigo nenhum código porque Eu sou a Justiça e não o bem ou o mal. Eu não julgo mas Eu sou o juízo. Sete vezes sete. O meu nome não significa vingança, significa retribuição. A minha mão direita dá a vida e traz vida, a minha mão esquerda traz a morte e leva a vida. Nada me pode deter porque Eu dou nascimento a mim mesma sem rival. A minha Vontade vive no ser de Atum, o meu corpo protege a bondade de Atum. Atum é todo bondade e Eu sou Tudo. Sete vezes sete.
Um dos discípulos comentou:
— A expressão «sete vezes sete» é a mesma que Jesus usa nos Evangelhos quando lhe perguntam: «quantas vezes devemos perdoar?» e responde, precisamente, «sete vezes sete».
Ao que Hipátia respondeu:
— Isso quer dizer que devemos perdoar tantas vezes como a Justiça ou a Lei que rege o Universo executa a Lei: sete vezes sete, quer dizer sempre. Se alguém ao apanhar uma rosa o faz sem delicadeza e se fere é absurdo que diga à rosa «perdoo-te», pois o proteger-se com os seus espinhos faz parte da sua natureza. Se somos feridos por alguém, e que pensamos injustamente, talvez devêssemos reflectir se não temos dado, nem demos no passado – quiçá noutras existências – motivos suficientes à vida para que nos fira, usando uma ou outra pessoa como instrumento. De qualquer forma, como diz o hino, a Lei não é vingança mas sim uma retribuição, um regresso à harmonia, ao equilíbrio que foi perturbado. Ser a encarnação da Lei, seus agentes, não é tarefa fácil. Também é certo que, sem ninguém que execute a lei, as sociedades humanas não se mantêm. Talvez por isso também se leia nos Evangelhos: «dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», ou seja, que Jesus estava a educar apenas a caminhar no Céu, criar uma Cidade Celeste no mundo interior subtil e nunca implantar um sistema de ordem no mundo.
Excerto do Livro: “Viagem Iniciática de Hipátia: Na Demanda da Alma dos Números”, de José Carlos Fernandez, Director da Nova Acropole Portugal








