Filosofia egípcia versus Filosofia grega

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

Hipátia, com 21 anos, era já uma mulher de beleza incomparável e, além disso, uma Iniciada nos Mistérios. Para a obra que lhe tinham encomendado e para a qual era insistentemente empurrada pela sua alma, era necessário que aprendesse em profundidade a linguagem da Filosofia, à maneira grega, cujos rudimentos tinha aprendido com o seu pai e mestre Theon. A maneira egípcia de fazer Filosofia é ler na Natureza, ler na própria alma, meditando no significado profundo de tudo quanto rodeia o ser humano; e de toda uma série de experiências – algumas delas perigosas para a vida e para a razão – que despertam certas capacidades ou poderes celestiais dentro da própria pessoa, fazendo com que a alma e a mente se abram como um lótus perante o Sol do Espírito Universal.
Hipátia recordava, por exemplo, como teve que levar presa na sua fronte uma semente desta flor, de um lótus azul: ela própria a alimentava com o seu calor, com o suor da sua testa e as substâncias minerais presentes nesse suor. Tinha que sentir na sua fronte, onde se encontra o centro energético ou flor de vida da Visão Espiritual, como é que esta semente crescia… e meditar, dia a dia nesta experiência significativa. Desta maneira, a filosofia, tal como era concebida pelos egípcios, era um modo de harmonizar a mente com o grande Diamante Dodecaedro que é a Mente do Logos: fazer dela um instrumento musical a vibrar com pureza diante das brisas da sabedoria, dentro da alma; e das brisas da vida, fora. Se a mente é também como um diamante, é preciso eliminar primeiro o barro da vida sensual e a ignorância que o cobre e depois, até à mais mínima partícula de egoísmo aprisionada no interior do diamante, pulverizá-lo com o Fogo extremamente subtil e penetrante do Espírito… E, ao mesmo tempo, através da vivência das Virtudes, Poderes da Alma do Mundo, polir este diamante que é a mente humana, para que responda e se deixe penetrar não só pela Luz Divina, mas também pela mais ínfima vibração de vida que rodeia o Homem.

…. a filosofia, tal como era concebida pelos egípcios, era um modo de harmonizar a mente com o grande Diamante Dodecaedro que é a Mente do Logos;

Como fortes dentaduras, com as quais tritura os enigmas que a existência apresenta ao ser humano e extrair deles aquilo que alimenta a alma. Analisar, destruir, comparar, medir, julgar, enquadrar, categorizar… todas as Escolas de Filosofia, tão inspiradas pelos gregos e com diferentes métodos, trabalhavam deste modo com a mente. É certo que os epicuristas procuravam respirar o prazer e a alegria inata, a felicidade de uma vida sem desejos nem ataduras ao mundo; que os estóicos se esforçavam em serem reis de si próprios, exercitando a vontade e dominando todas as suas afeições e impulsos; temperando vigorosamente a personalidade, como uma espada que é passada do calor em ponto de fusão, ao frio e depois é golpeada, incansavelmente, para que se torne dura e flexível, eliminando para isso as impurezas de carbono que dormem venenosas no seu seio. Os estóicos, sempre com esta finalidade, estudavam psicologia no atanor que é a própria vida; e lógica na fluidez da linguagem… mas as operações da mente continuavam a ser sempre como as dentadas de um Deus, como as dentadas do tempo, cuja essência está tão ligada à própria natureza desta mente. Os platónicos tinham-se afastado do pensamento e método do seu Mestre tornando-se niilistas e cépticos, utilizando a mente para demonstrar que não podemos chegar a conhecer nada e que a sabedoria é uma terra sem caminhos… que talvez jamais possamos percorrer… e que nem sequer existem realmente.
As escolas que tinham dado vida outra vez à seiva mística da Filosofia Platónica eram todas as Escolas Ecléticas e Neoplatónicas disseminadas pelo Império, herdeiras de Amonio Saccas, o Theodidaktos – nome que significa «a quem os próprios Deuses ensinaram» – de Alexandria e do seu discípulo Plotino. Estas eram as únicas Escolas de Filosofia em que ainda se alentavam os ensinamentos e as disciplinas dos Mistérios. Nelas, devido à sua filosofia eclética, harmonizavam-se todas as restantes doutrinas, tentando extrair delas o seu mel, sobrepondo-as, como se sobrepõem as sete cores para fazer brilhar de novo a luz branca da Verdade, sem véus.

…. Mas o método grego, pelo qual ainda se regia o Império Romano e com o qual trabalhavam praticamente todas as Escolas de Filosofia, era diferente. A mente trabalhava como uma máquina para dissecar a realidade, a vida;

Neoplatónicos e grandes Iniciados nos Mistérios tinham sido Porfírio; Jâmblico, o grande divulgador dos mistérios da taumaturgia egípcia, e mais próximo do tempo de Hipátia; Máximo de Éfeso, o Mestre do Imperador Juliano e Sosípatra de Alexandria, mulher mais divina do que humana, segundo os testemunhos dos seus contemporâneos… E ainda assim, também eles utilizavam a linguagem da Filosofia Grega, racional, embora possam ter cometido o erro de se inclinarem demasiado para a filosofia aristotélica e a sua terminologia, tão friamente categórica e horizontal para se elevar e respirar a sublime vida das Ideias puras. Um grande Iniciado e filósofo tinha advertido sobre o perigo: as estruturas mentais da filosofia de Aristóteles não eram aptas para falar do divino, para que o orvalho celestial da Eternidade banhasse a mente humana. Se a Filosofia se submetia à linguagem do sábio macedónico, não havia esperança… mas, no entanto, era muito difícil que a mente humana não se deixasse subjugar por uma lógica tão afim ao seu modo mecânico de trabalhar; e aos próprios Iniciados era-lhes muito difícil não falar na linguagem filosófica com a qual todos compreendiam o mundo. Este Grande Iniciado tinha exemplificado o problema: a mente é como o horizonte que o olhar humano percebe, une… e também separa a terra do céu. O Homem deve fazer desse horizonte uma porta para se elevar para vivências mais sublimes, que são as que a alma humana necessita… e não deixar fechada a porta pensando que a realidade é só essa porta e não o que o espera por trás dela. Não se trata de edificar um mundo de conceitos e estruturas mentais derivados da mesma natureza matemática e geométrica da linha que é o horizonte, desenhando com esta linha uma realidade infinita mas horizontal; mas fazer com ela, com a mente, uma escada para subir até ao Céu… Senão, antes ou depois, quem não tenha experimentado as vivências dos Mistérios e souber, portanto, como respirar o ar puro da verdade, ficará intoxicado, sufocado por uma filosofia que, em vez de usar ou dominar a mente, entra nos seus atractivos, mas fatais, labirintos: a mente, em vez de ajudar a libertar a alma, encarcerá-la-á ainda mais.

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”, de José Carlos Fernández

Go to Top