No dia 30 de junho de 2026, o Centro Interpretativo da Mulher Duriense, em Armamar, recebeu uma nova sessão do ciclo «Conversas à Terça», desta vez dedicada ao tema «Lágrimas Coloridas: uma ponte entre Portugal e a Etiópia».

Perante uma sala atenta, Carlos Neves apresentou o livro de poesia Lágrimas Coloridas, do poeta etíope Solomon Molla, contextualizando a obra através de uma viagem pela história, pela espiritualidade e pelo património cultural da Etiópia.

O encontro teve como centro Lalibela, cidade situada nas montanhas do norte da Etiópia e conhecida pelo extraordinário conjunto de onze igrejas escavadas na rocha. Concebida simbolicamente como uma Nova Jerusalém, Lalibela reproduz diversos lugares da geografia sagrada cristã, entre os quais o rio Jordão, o Gólgota, o Monte das Oliveiras e o Santo Sepulcro.

Carlos Neves abordou também os ritos e as tradições da antiga Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, a simbologia das igrejas de Lalibela e a forma como a própria configuração do lugar representa as dificuldades e os desafios do caminho espiritual. A apresentação retomou vários dos temas desenvolvidos pelo autor no artigo «Lalibela, a Nova Jerusalém na Etiópia», publicado na revista Fénix – Ideias e Cultura.

Outro dos temas tratados foi a antiga relação entre Portugal e a Etiópia, construída desde finais do século XV através das viagens de Pêro da Covilhã, dos relatos do padre Francisco Álvares e da presença portuguesa no chamado reino do Preste João. Esta memória histórica permanece ainda hoje viva na Etiópia, onde as referências aos viajantes e cronistas portugueses continuam a fazer parte da interpretação do património local.

Nesta sessão, procedeu-se, igualmente, à apresentação de Lágrimas Coloridas. A obra reúne poemas de Solomon Molla em edição bilingue, amárico-português, permitindo ao leitor aproximar-se simultaneamente do sentido dos textos e da sonoridade da língua original.

Escritos a partir de Lalibela, os poemas percorrem experiências profundamente humanas: o amor e a saudade, a alegria e a perda, a esperança e o medo. Com uma linguagem simples e direta, Solomon Molla parte da sua realidade pessoal e cultural para tocar sentimentos que ultrapassam fronteiras geográficas e linguísticas.

Mais do que uma opção editorial, o bilinguismo constitui um dos gestos centrais do livro: duas línguas e duas sonoridades diferentes tornam-se expressão de uma mesma humanidade. Cada poema transforma-se, assim, num pequeno lugar de encontro entre a Etiópia e Portugal.

A obra possui igualmente uma dimensão solidária. Uma parte das receitas líquidas da edição será destinada ao apoio de uma escola em Lalibela, associando a palavra poética a uma ação concreta junto da comunidade onde vive o autor.

A sessão terminou com um momento de diálogo com o público, confirmando que a poesia pode dar a conhecer outras culturas sem apagar as suas diferenças e, ao mesmo tempo, revelar aquilo que une os seres humanos. Entre as pedras antigas de Lalibela e as paisagens durienses de Armamar, Lágrimas Coloridas apresentou-se verdadeiramente como uma ponte feita de palavras.