Da Deusa Mãe à Hipotese de Gaia

Yggdrasil – Árvore do Mundo

Introdução

A Terra sempre foi objecto de interesse e veneração para o homem, não somente para a presente humanidade, o Homo sapiens, mas também possivelmente para o homem de outras espécies, como o Homo neanderthalensis ou o Homo heidelbergensis, daqueles a que a paleoantropología de vanguarda está a demonstrar como já tendo pensamento simbólico, capacidade de abstracção e portanto, desenvolvimento da consciência. E no momento em que surge a consciência de si mesmo, também aparece a consciência do entorno e do lar, e não é descabido pensar que a Terra tivesse um significado especial, como fornecedora de recursos.

Os paleoantropólogos são muito cautelosos no momento de falar de ritos ou concepções religiosas em épocas tão remotas, e só podemos supor com uma certa lógica que os primeiros seres humanos conscientes de si mesmos e do seu entorno, tiveram uma consideração especial pela a Terra.

Com esta pequena conversa, e dado que o tema é a relação que pode estabelecer-se entre a filosofia antiga e a ciência actual, a minha intenção é mostrar duas formas diferentes de entender e considerar o nosso planeta, não como um astro mais, mas sim como o depositário, que é, de vida para o ser humano. São duas formas de ver a Terra separadas por milhares de anos e muito diferentes entre si, mas com um nexo comum: em ambas, o nosso planeta é o atanor onde se desenvolve e se protege a vida.

Por um lado, encontra-se a ideia da Deusa-Mãe, vigente desde a alvorada da Humanidade, até ao final de Idade Antiga. Por outro lado a hipótese Gaia, ideia científica formulada no final dos anos setenta do séc. XX. Em ambos os casos trata-se de ideias em torno do planeta Terra como receptáculo da Vida, mas realizadas em contextos muito diferentes: mágico-religioso num caso, e científico-tecnológico noutro.

Realço que em nenhum momento pretendo dar verosimilhança a uma das duas ideias opondo-me à outra. No entanto, creio que será interessante ver como o ser humano não deixa de percepcionar a Terra como a casa da Vida, ainda que mudem os paradigmas.

Os Cultos à Deusa-Mãe

A Deusa-Mãe encontra-se no imaginário colectivo desde a alvorada da Humanidade, possivelmente desde à centenas de milhares de anos. Seria o elemento fundamental do acesso ao sagrado nos antiquíssimos cultos do homem ao divino. Não se trata da simples divinização das forças da Natureza; essa é uma postura demasiado simples para explicar um fenómeno complexo e universal: o contacto do homem com o sagrado.
Um dos principais rasgos de humanização é a capacidade de poder conectar, através da consciência, com um aspecto da realidade completamente diferente da experiência quotidiana, sujeita às limitações espaço-temporais. Trata-se do contacto com o sagrado, que produz no ser humanos um desenvolvimento da parte espiritual e facilita uma perspectiva atemporal da realidade. O contacto com o sagrado é uma característica exclusivamente humana, que permite superar as limitações que o profano impõe. É o acento de todas as religiões e fenómenos religiosos e tem sido profundamente estudado por antropólogos reconhecidos desde o primeiro terço do século XX.

“O contacto com o sagrado abre portas a uma dimensão espiritual onde podem encontrar-se as respostas relativas ao porquê do Mundo e do Homem. Pode perceber-se como funciona o Universo e portanto, como funciona o homem, e vice-versa.”

Definir os processos religiosos como um conjunto de superstições impostas por uma classe dirigente aos seus dirigidos é uma simplificação demasiado grosseira, sem negar que efectivamente houve dirigentes que se aproveitaram dos demais utilizando a religião. O contacto com o sagrado abre portas a uma dimensão espiritual onde podem encontrar-se as respostas relativas ao porquê do Mundo e do Homem. Pode perceber-se como funciona o Universo e portanto, como funciona o homem, e vice-versa. Sem a possibilidade deste esquema de valores, deste sistema de referências, torna-se insuportável a consciência quotidiana das nossas próprias limitações e misérias. O ser humano tem desenvolvido evolutivamente esta possibilidade de conectar com uma realidade onde não existem as limitações do tempo e do espaço, eterna, divina, seguramente ao mesmo tempo que desenvolvia a capacidade de ser consciente de si mesmo. E esta capacidade de encontrar um sistema de coordenadas independentes do profano mantem-se hoje em dia, em que, a sociedade dessacralizada, segue buscando ícones em que reflectir-se, podendo ser cantores, desportistas ou políticos, só que neste caso não são tão sólidos ou estáveis como a experiencia com o divino.
Mircea Eliade ocupou-se em demonstrar como este processo não é a simples divinização da Natureza, a falta de um conhecimento científico da mesma. Em todo o caso, determinados elementos naturais que são o cenário do contacto com o sagrado, são os que sacralizam e incorporam-se em todo um processo de simbolização e ritualização que permitem repetir a experiencia mística. Aqui entra em jogo outro sucesso evolutivo do ser humano: a capacidade de vincular experiencia inefáveis a imagens, de tal maneira que se convertem em símbolos e permitem o reconhecimento e repetição dessa experiência.

O contacto com o sagrado apresenta-se como um processo complexo, cúspide da humanização, que permite o conhecimento das leis naturais, que são divinas na medida em que se situam na origem do Universo e do Homem. Este contacto com a origem, com o divino, pode fazer-se a partir de dois caminhos: uma concepção imanente e uma concepção transcendente da divindade.

A concepção imanente consiste em perceber a divindade na essência das coisas: Deus está na montanha, na gruta, na Natureza, em mim. Não se trata de divinizar as coisas, mas sim de perceber que a essência das mesmas é divina. Os exemplos mais claros de cultos deste tipo dão origem a todos os que ressaltam o potencial da vida, o poder da gestação e geração da vida, qualidades femininas, pelo que são religiões com um carácter marcadamente feminino, com uma simbologia lunar.

Pelo contrário, a concepção transcendente tem uma ideia celestial da divindade, que habita num lugar que não é deste mundo, desde o qual dirige os desígnios da criação. Exemplos de cultos transcendentes são os que ressaltam o poder celestial sobre a Terra, sendo o Sol o mais claro expoente desse poder. São religiões com carácter marcadamente masculinas e com uma simbologia solar.

Por último, há formas de entender a divindade que recorrem a propriedades imanentes e transcendentes à vez. Geralmente as grandes religiões têm este carácter sintético e concebem a divindade como parte da essência das coisas e também como parte da sua origem.

Basta esta breve introdução no âmbito da antropologia do sagrado para situar os cultos à Deusa Mãe como cenários em que o ser humanos conecta com a divindade buscando-a na Natureza: trata-se de uma concepção imanente. Não se trata de adorar um rio, uma caverna, uma árvore ou um animal, mas sim de buscar o potencial gerador que se encontra em cada uma das partes da Natureza e conectar com ele. Quando uma pessoa conecta com a essência divina da Natureza, desperta a sua própria essência divina. É como a qualidade das ondas de poder sincronizando-se entre si por ressonância. O ser humano quando se encontra nesta situação, desdobra todo o seu potencial interior e pode encontrar mais facilmente soluções para problemas individuais ou colectivos.

Esta é a base do xamanismo. Recentemente, os antropólogos estão a interpretar as magníficas pinturas rupestres do Paleolítico Superior, não como a adoração às peças de caça (porque se descobriu que não se alimentavam dos animais que pintavam) mas sim como elementos integrantes dos ritos xamânicos.
Numa leitura mais superficial, a Deusa-Mãe é a deusa da fertilidade, mas muitas vezes tem tido também uma consideração mais metafísica, ao relacionar-se com a Substância Primordial da qual se vão formar todas as coisas e seres criados. Esta Substância Primordial pode produzir criaturas por si mesma ou atrás da fecundação do espírito.

Temos constantemente cultos à Deusa-Mãe, à Mãe-Natureza, desde o Paleolítico, momentos em que aparecem figuras e representações com exagerados atributos femininos, numa clara alusão à capacidade geradora de vida da Deusa Mãe.

Rhea conduzindo um Leão – Cibele – Demeter

No Neolítico estes cultos estendem-se e vinculam-se não só com a obtenção de recursos mediante a caça ou a recolecção silvestre, mas também com a própria agricultura e incipiente criação de gado. Seguramente que em todos estes sistemas sociais, haveria uma forte componente de matriarcado, pois a capacidade gestante da mulher situa-a num lugar preponderante no seio dos cultos da Deusa-Mãe.

Vénus Genetrix

Posteriormente, quando se entra na História, constata-se como em todas as religiões se encontram divindades com os atributos femininos e funções da Mãe Natureza. No entanto, na medida em que que estendem os elementos solares, deuses celestes, muitas vezes estas divindades relacionadas com a Deusa Mãe ficam relegadas para um segundo plano, ou então combinam-se com divindades masculinas dando lugar à criação de sucessivas vagas de Vida.
Podemos recordar algumas de muitas Deusas Mães de diferentes culturas e civilizações: Pachamama das culturas andinas, Prakriti, Durga ou Mahimata entre os Hindus, Ishtar caldeia, Astarté Assíria, Anann ou Dana Celata Irlandesa, Nerthus entre os povos Germânicos, Nuth egípcia, Gea, Rea, Cibeles ou Deméter gregas, e as suas homólogas Romanas Magna Dea ou Vénus Genetrix.
Por traz dos cultos da Deusa Mãe havia muitas matizes que dão lugar a diferentes divindades, como é o caso de Nut, Hathor ou Ísis entre os Egípcios, ou mais próximo de nós Gea, Rea, Cibele e Deméter Gregas.

Num princípio, Gea ou Gaia não eram a Terra física, mas sim a Substância Primordial, da que surge Uranos, o Céu Estrelado, e juntos começam a progénie das primeiras dinastias órficas. É um conceito muito metafísico, porque a Substância Primordial não é a matéria tal como a conhecemos, pois a matéria já é algo criado. É a criação em potência.

A Terra física, onde existe a criação, a vida e os recursos necessários é Rea, filha de Gea e esposa do tempo, Cronos. É o que melhor se ajusta à ideia que temos agora da Deusa Mãe como Terra Física, de sulcos férteis. Cibele tem um significado parecido com o de Rea.

Numa matiz mais concreta e humana, a religião órfica também conta com outra divindade feminina, Deméter, que tem uma função mais material, relacionada com a fertilidade, com a produção agrícola e em concreto, com o trigo. É a filha de Rea.

Rhea entregando uma criança a Cronos

Por sua vez, Deméter tem uma filha, Perséfone, que se relaciona com a sucessão das estações, segundo se encontre no mundo subterrâneo com Hades, ou fora do mesmo, com a sua mãe.

Como vemos, na religião órfica há toda uma saga relacionada com Deusa Mãe, com uma característica, que é objecto de acção e que se vai tornando menos abstracta, mais concreta, em cada geração, passando de ser a Matéria Primordial ou Substância Universal, no caso de Gea, o planeta físico onde se produz a vida, no caso de Rea ou Cibeles, a produção agrícola, no caso de Deméter e na sucessão das estações com Perséfone. Não obstante, esta concretização não está isenta de uma contraparte metafísica, pois, por exemplo, Deméter e Perséfone vinculam-se também com a existência no mais além, ou com os Mistérios de Elêusis, para dar dois exemplos notórios.

Este esquema repete-se em todas as grandes religiões da Antiguidade.

A Hipótese Gaia

Depois de ilustrar brevemente qual é o sentido e alcance da visão que se tinha da Deusa Mãe na antiguidade, vou dar um salto impossível para oferecer de forma resumida quais são os argumentos da hipótese Gaia, fazendo uma aclaração de que não pretendo com isso justificar em nenhuma medida a existência dos antigos cultos à Deusa Mãe. São dois cenários completamente distintos que têm em comum o nome e talvez uma certa devoção ou admiração face à capacidade da Terra para albergar vida.

James Lovelock

A hipótese Gaia é formulada pelo químico britânico James Lovelock em 1979, para tentar explicar a manutenção das condições ambientais favoráveis à vida no nosso planeta. Desde o princípio que causou controvérsia e hoje em dia não é de todo compreendida, nem tão pouco demonstrada.

James Lovelock é um químico ambiental, especializado em química atmosférica, que nos anos sessenta recebeu o encargo da NASA de procurar o modo em que poderia dilucidar se Marte poderia albergar algum modo de vida. Por entre várias opções, optou pela possibilidade de indagar na composição atmosférica do planeta vermelho, uma vez que na envolvente gasosa do nosso planeta é onde desembocam os produtos resultantes do desenvolvimento da vida na Biosfera (o conjunto de sistemas ecológicos). Analisando a composição da atmosfera de Marte poderia deduzir-se se este planeta é ou não candidato para ter vida. Se a composição é diferente da que deveria ter pelas próprias características físico-químicas, seria possível que houvesse vida que alterasse estas condições.

“[James Lovelock] quando aplicou esta mesma análise à Terra, comprovou que a atmosfera estava profundamente alterada relativamente ao modelo que devia ter, e que esta alteração era produzida no sentido de máxima eficácia para o desenvolvimento da vida, e com algum mecanismo desconhecido que permitisse manter de maneira constante os estreitos níveis da composição gasosa que permitem a vida.”

Os resultados que obteve acabaram com a carreira de James Lovelock na NASA, uma vez que concluíram que Marte não devia albergar vida, porque a atmosfera não mostrava nenhuma variação sobre o padrão que deveria ter considerando unicamente as suas características físico-químicas. No entanto, quando aplicou esta mesma análise à Terra, comprovou que a atmosfera estava profundamente alterada relativamente ao modelo que devia ter, e que esta alteração era produzida no sentido de máxima eficácia para o desenvolvimento da vida, e com algum mecanismo desconhecido que permitisse manter de maneira constante os estreitos níveis da composição gasosa que permitem a vida.

De algum modo, é como se a Biosfera tivesse a capacidade de poder manter as condições físico-químicas do planeta na estreita margem que permite o desenvolvimento da vida, não somente em relação à composição da atmosfera, mas também nos processos climáticos ou nas características marinhas.

Em si, tal não deve ser estranho, pois desde um ponto de vista físico, os organismos biológicos são estruturas que vão contra a tendência dos sistemas físicos, criando cenários inverosímeis desde um ponto de vista físico. Por exemplo, segundo as leis da termodinâmica, os sistemas físicos tendem a estados sucessivos de maior entropia, isto é, de maior energia e desorganização. Pelo contrário, um organismo biológico mantém um sistema de ordem permanente, ao menos enquanto está vivo. Para dar uma imagem, poderia dizer-se, sem errar demasiado, que a qualidade da vida é produzir ordem estável num sistema biológico, a partir da desordem externa daquele que se nutre.

O que era estranho a James Lovelock era que parecia como que se a Biosfera inteira, estivesse coordenada para manter as condições ambientais favoráveis para a vida.

Por isso apresentou a sua hipótese, em que postulava que a Biosfera tem um conjunto de mecanismos que actuam a nível planetário garantindo a hemóstase da Terra, quer dizer que, pese a que as condições favoráveis para a vida, pelas características do planeta, no entanto os factores físicos-químicos incidem num sentido oposto. Isto vai contra a crença popular de que o planeta favorece a permanência da vida, é a própria vida que actua para preservar as condições para a vida.

“a hipótese Gaia não trata de demonstrar a existência de um organismo biológico à escala planetária, como se fosse um ser concreto, mas trata sim, de definir como o conjunto de seres vivos e ecossistemas conseguiram desenvolver uma interacção entre si que garante a permanência das condições ambientais óptimas.”

A esta hipótese chamou Gaia, para fugir um pouco das denominações técnicas, tais como Sistema de Auto-regulação Hemostática Planetário ou algo parecido. Escolheu o nome, por sugestão de um amigo, em honra a um dos aspectos da Deusa Mãe Grega.

Quiçá ao colocar um nome próprio a esta hipótese de trabalho, pode-se ter gerado um erro na comunidade científica e fora da mesma, Creio que a hipótese Gaia não trata de demonstrar a existência de um organismo biológico à escala planetária, como se fosse um ser concreto, mas trata sim, de definir como o conjunto de seres vivos e ecossistemas conseguiram desenvolver uma interacção entre si que garante a permanência das condições ambientais óptimas. O que a hipótese Gaia pretende demonstrar, no meu entender, é a existência de um autêntico sistema complexo à escala planetária, fruto da interconexão de ecossistemas, que mantêm circuitos de interacção perfeitamente ajustados entre si.

É inevitável recorrer a metáforas, e este sistema de inter-relações entre as diferentes partes da Biosfera comporta-se como fazem os órgãos e sistemas de um organismo, e o resultado é a vida desse mesmo organismo. Lovelock define este sistema de inter-relações como um sistema cibernético porque, se a hipótese Gaia é correcta, seria um sistema auto-regulador que mantem as mesmas condições num meio em mudança. Os sistemas cibernéticos compõem-se de um conjunto de laços ou ciclos interconectados que modulam a resposta do sistema. Os ciclos podem ser de alimentação positiva, se favorecem o incremento de efeito do sistema, ou de alimentação negativa, se favorecem uma diminuição de um efeito do sistema.

Desde que se propôs a hipótese Gaia, foram colocadas em relevo o que poderiam ser numerosos ciclos de alimentação do sistema. De seguida apresento alguns exemplos:

Chama a atenção que o clima se tem mantido constante, dentro de intervalos favoráveis à vida, nos últimos três milhões e meio de anos, pese a que a radiação solar era menos 30% que a actual no início deste período. Com esta menor energia, o planeta tinha estado congelado durante milhões de anos, numas condições impossíveis para a vida. O registo fóssil diz-nos o contrário. Tem havido uma modulação do clima dentro das margens apropriadas para a vida. Parece que a composição gasosa, que não corresponde com a que deveria ter o planeta em função do seu tamanho e posição, com abundantes gases com efeito-estufa provenientes da actividade biológica, está por traz desta manutenção constante do clima.

A própria composição gasosa da atmosfera mantem-se dentro de uma estreita margem, o que vai contra o que lhe corresponde. A tabela mostra essa diferença.

As diferenças entre o que deveria acontecer se o planeta fosse inerte, e o que é com a existência da Biosfera, são muito diferentes. O gás fundamental que define a nossa atmosfera é o oxigénio. O oxigénio surge como uma contaminação produzida pelos primeiros organismos unicelulares fotossintéticos, que estiveram a ponto de acabar com a vida, até que a Biosfera se adaptasse a estas condições. No entanto os limites em que se mantêm o oxigénio são muito ajustados: se diminuísse a sua concentração, colocar-se-ia em perigo o desenvolvimento da vida, e se aumentasse, tudo poderia incendiar-se com muita facilidade. Ao longo da busca de evidências da existência deste mecanismo regulador planetário, a que se chamou Gaia, descreveram-se mecanismos que comportam como ciclos de alimentação positiva e de alimentação negativa. Assim, por exemplo a fotossíntese produz oxigénio e a respiração retira-o. Mas se não existissem mais mecanismos, a produção de uma seria retirada pelo consumo de outra. De onde provem então os 21% de oxigénio da atmosfera actual? Apresentaram-se outros ciclos, como a produção de metano e a de óxido nitroso, que reagem retirando ou produzindo oxigénio.

Este é um exemplo de como funciona ciberneticamente Gaia. Ilustrou-se os ajustes de numerosos ciclos, baseados em numerosas substâncias produzidas por determinados mecanismos de auto-regulação das condições para a vida do planeta.

Não há somente mecanismos de regulação do clima e da atmosfera. No oceano também se encontrou a manutenção de condições adequadas para a vida, o que vai em contra as condições que deveriam encontrar-se se o planeta fosse inerte. Por exemplo em condições de equilíbrio físico-químico, os oceanos deveriam ser muito mais salgados, em níveis incompatíveis com a vida. E está-se a apresentar diferentes hipóteses como mecanismos de controlo da salinidade, que passam pela formação de plataformas de algas microscópicas. No oceano produzem-se também a formação de produtos metilados que facilitam a evacuação de metais tóxicos.

O importante e inovador em toda a hipótese Gaia é que os mecanismos e ciclos que regulam e mantêm as condições para a vida no planeta provêm integralmente da actividade biológica, da Biosfera. São substâncias produzidas pelos seres vivos, que interagem entre si e com o meio físico para modificar as condições originais da Terra e adaptam-nas às necessidades da vida, e posteriormente, mantêm-nas constantes de um modo activo durante centenas de milhões de anos. E o assombroso de tudo isto é que, esta perfeita sincronização dos mecanismos da vida produzem-se à escala planetária. Se for correcta a hipótese Gaia, estaríamos ante o sistema complexo mais vasto e sofisticado que conhecemos.

Epílogo

E se algum paralelismo se pode estabelecer entre os primitivos cultos à Deusa Mãe e a moderna hipótese de Gaia, é este: a salvaguarda das condições necessárias para a vida. Primeiro na pré-história, e depois na antiguidade, o pensamento mágico-religioso chega a conceber a Terra como o atanor onde se produz a geração da vida, e para qualquer necessidade de produzir vida ou os recursos para a mesma, recria-se, invocava-se o poder da Deusa-Mãe, a qual, como Mãe-Natureza, protegia a vida em todas as suas expressões.

Hoje em dia, o pensamento científico leva-nos a apresentar a existência de um complexo sistema cibernético, resultado da interacção de todas as partes da Biosfera (incluindo o ser humano e a sua actividade), o que garante as condições para a vida. De novo apreciamos como o planeta vivo se mostra como uma unidade organizada, ainda por demonstrar e compreender cientificamente, para o que seguramente terão que alargar-se os actuais paradigmas da ciência.

Manuel J. Ruiz
Instituto Internacional Hermes


Bibliografía básica:

James Lovelock (1983). Gaia, uma nova visão da vida sobre a Tierra. Editorial Orbis.
(1993). As idades de Gaia. Editorial Tusquets.
(2005). Homenjgem a Gaia. A vida de um cientísta independiente. Editorial Laetoli.
(2007). A vingança da Terra. A teoría de Gaia e o futuro da Humanidaed. Editorial Planeta.
Fernando Schwarz (2008) Mitos, Ritos, Símbolos. Antropología do sagrado. Editorial Biblos. Buenos Aires.

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