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 O Voo da Alma - Jamblico e a Teurgia Neoplatónica

 


voo da alma

 

“ Aquele que apreende quem ele é, saberá também de onde ele vem”.
Plotino

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

voo da alma

Jamblico (Iamblicos) nasceu em 242 em Chalcis Ad Belum na Síria. Com a idade de 30 anos dirige-se a Roma para frequentar a então famosa Escola Neoplatónica, torna-se discípulo de Porfírio, sucessor do grande mestre Plotino e compilador das Eneadas, síntese do pensamento do mestre Plotino. Em 313, Jamblico regressa à Síria onde funda, na cidade de Apamée, a sua própria escola. A sua doutrina, inspirada no mais puro eclectismo, reflecte inúmeras influências oriundas dos antigos Mistérios do Oriente e Ocidente, tais como o Bramanismo, o Pitagorismo, a Cabala, o Hermetismo Egípcio, os Oráculos Caldeus, a Mística dos Anacoretas do deserto e a doutrina de Platão e de Aristóteles. Se bem que Jamblico não se afastasse totalmente da doutrina metafísica de Plotino, decide, no entanto, contrariar os conselhos de Porfírio que o alertou sobre os perigos da Magia, escolhendo dedicar-se à Teurgia que caracteriza os seus ensinamentos. A sua doutrina, que perdurou até Proclus, teve uma forte repercussão no seu entorno e, em particular, na escola de Pergame onde ensinava o Mestre Máximo de Éfeso. Foi aqui que o Imperador Juliano tomou contacto com os ensinamentos de Jamblico e se tornou seu admirador e seguidor. A influência da Teurgia no Ocidente permitiu manter viva a  eterna  Ciência Hermética, alimentando  o fogo  oculto de várias correntes  esotéricas que ainda hoje  encontram nos ensinamentos dos Neoplatónicos, uma ponte luminosa  entre a Sabedoria oriental e ocidental.

Obras do autor

Muitos das suas obras perderam-se, ficando apenas para a posteridade alguns fragmentos, tais como o “Comentário do Tratado de Aristóteles sobre a Alma”, “Cartas sobre o Destino”, “Protreptique”, “Exortação à Filosofia”, “Sobre Aritmética”, “Sobre a Geometria Pitagórica”,  “Sobre a Música”, os seus livros mais comentados são : “Os Mistérios do Antigo Egipto” e a “Vida de Pitágoras”.

Contexto histórico

Naquele preciso momento histórico, como resposta ao declínio civilizador do mundo clássico, surgem numerosas correntes de pensamento com forte carisma místico e messiânico. As duas tendências mais representativas ramificam-se à volta da doutrina Cristã e da Gnose. Estes movimentos opuseram-se à visão eclética dos neoplatónicos. Ambas reflectem a necessidade imperiosa de responder à chamada de união e purificação de que o mundo padecia. As suas doutrinas de Soteriologia aspiram a salvações eminentes das Almas sofredoras através da redenção dos pecados. O Cristianismo, já distante das suas raízes esotéricas, condena o Conhecimento e aponta o saber como a origem do pecado, já a Gnose busca uma via de perfeição no retiro do mundo, obra do mal e perdição das almas. Sabemos que tanto o Cristianismo como a Gnose beberam da fonte da Sophia universal, essência partilhada com todos os ramos das correntes espirituais do Oriente e do Ocidente, mas o distanciamento progressivo das verdades profundas levou os seus apóstolos e seguidores a lutas e conflitos internos para impor os seus dogmas e abafar de forma definitiva toda a filiação com a Religião Sabedoria do passado. A negação do acesso à felicidade proveniente do mundo material e a condenação do saber oculto arrastou o Ocidente numa profunda obscuridade que marcou o declínio do mundo antigo iniciando-se então a Idade Média com as suas perseguições. A caça ao paganismo fez os seus primeiros martírios em Alexandria, último farol do Neoplatonismo, com o assassínio da filósofa Hipatia (415 d.C), continuando depois com a Inquisição a vários grupos que se confrontavam com a subida do poder politico e económico da Igreja Católica.

A obra de Jamblico foi uma referência naquela época para dignificar a Magia Superior e purificar o entorno social da proliferação de falsos magos e práticas supersticiosas que invadiram Roma neste período de decadência moral e espiritual. Como necessidade de contrabalançar os milagres da fé com os prodígios da Teurgia, Jamblico concilia a Metafísica pura de Pitágoras, Platão e Plotino com a Praxis Aristotélica: “A dialéctica serve para afastar todos os obstáculos do caminho, para que surja a contemplação, a mente deve calar-se” Plotino.

A Doutrina

Os Philalétheians (de Phil: amando e Aletheia: verdade) ou os amigos da Verdade ensinavam que a prática da virtude e o conhecimento (Sabedoria) são essenciais para atingir a Perfeição divina. O Sábio é aquele que se purifica no seu corpo, alma e espírito. Para Plotino o caminho que conduz à Unidade é um despojamento de tudo aquilo que não é (Doxa ou ilusão). A primeira etapa consta de uma dialéctica dual, a linguagem é construída e desconstruída: “Ele possui, mas não é possuído” utiliza-se a oposição para quebrar a Mente dualista que é sempre responsável por criar formas de pensamentos dogmáticos. Depois da eliminação dos falsos conceitos mentais que obstruem a Verdade, surge a visão perfeita (no Oriente é Viveka, o Real, o Nous para Plotino). O espectador (a mente que observa) é então absorvido pela Luz que o cega, o objecto da visão é tornar-se a própria visão. Então, neste acto puro de Amor, a Alma funde-se em êxtase na Luz do seu Deus Interior.

Para Jamblico, a Alma é o mediador entre o Ser e o não Ser, partilha dos dois Mundos e conhece todos os processos para reconstituir o caminho ascensional. O Uno é o centro da esfera, Ele é o ponto de partida para a Criação. O segundo impulso é como uma pedra lançada no abismo e que se dá a conhecer pelos círculos produzidos no seu impacto na obscura substância; assim os raios do primeiro círculo são os Inteligíveis e as extremidades ou circunferências são os Mundos Animados. A Energia Vida é a Matéria que preenche o Vazio, é o Grande Alento, o Proteu ou AEther, o Grande Oceano onde cada gota é parte do Todo, ligado eternamente pelo poder do Amor, força primordial de coesão e de atracção entre todas as coisas.

Sobre o êxtase ou transfiguração

voo da alma


“Só os Sábios matam a vontade de viver,
Cegos aos reflexos, que ninguém consegue alcançar,
Eles conquistam, libertos das correntes do desejo,
O vazio inefável da morte desprendida.
Bem-aventurado, quem sabe do cansaço de cada passo.
Bem-aventurado, quem sabe da miragem dos astros.
Bem-aventurado, quem sabe da vida e do colapso.
Eles adormeceram um dia e não mais renasceram.
(La lyre héroïque et dolente de Pierre Quillard)

 

 

 

 

Para o Místico, a dimensão espiritual é omnipresente em todos os planos, já que para ele a Unidade Divina é a essência do Múltiplo. Jamblico dizia que o silêncio é o único culto dirigido ao Deus Uno, e Plotino afirma que o Místico “é aquele que vê com os olhos da Alma enquanto estão fechados os olhos do corpo”.

 

"O Sábio é aquele que se purifica no seu corpo, alma e espírito"



Na sua última fase, a mais elevada, a Alma entrega-se no deleite do Amor, arrebatada e sem resistência, mergulha na luz pura, no júbilo do êxtase. Na biografia de Plotino de Amelius ouvimo-lo relatar a transfiguração do Mestre: “Quando ele falava, via-se a inteligência iluminar o seu rosto, e abrir-se a sua luz. De aspecto agradável, ele tornava-se belo.” (V.P XIII 5.8, Amelius , biografia de Plotino).  Deste modo, podemos associar a experiência de transfiguração como uma via de renúncia e de solidão metafísica, ou seja, o afastamento de todo o contacto e influência do mundo sensível sobre a Alma, Ela encontra-se livre de perturbação. “Quando a Alma se inflama do Amor por Ele, ela despeja-se de todas as formas, mesmo da forma do Inteligível onde ela habitava.” (VI -7,  34 , 3.4 Plotino).

Poema de Rûmi:

…Na verdade, somos uma só Alma, tu e eu.
Mostramo-nos e nos escondemo-nos, tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo da minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

Sobre a Teurgia

Os Antigos dividiam a Magia (a Magma Ciência ou o Conhecimento dos Desígnios Ocultos da Natureza) em três categorias: a Teurgia (do grego Teos, Deus e Ergon  que significa produção ou trabalho) a Goecia (do grego Goetia)  que segundo H.P.B no Glossário Teosófico representa a magia negra, feitiçaria, necromancia, arte de fazer malefícios, sortilégios, encantamentos, e oposta à Teurgia. E por último a magia natural.

voo da alma

Amonio Saccas afirmava que “o conhecimento humano passa por três etapas: opinião, ciência e iluminação. As opiniões formam-se através da percepção sensorial, a ciência tem por instrumento a razão, e a iluminação é filha da intuição ou do conhecimento absoluto em que o conhecedor se identifica com o objecto do conhecimento”.

 

Seguindo os três axiomas da Magia que são a Unidade, a Analogia, e a Vibração, podemos considerar três pontos importantes associados à Teurgia:

 1-O Amor incondicional ao Bem e nunca dele se desviar movido por interesses egoístas. Possuir um estado de perfeita pureza interior e exterior a fim de poder ser íman das mais altas entidades e através delas poder operar de forma eficaz no seio da Natureza. No livro tibetano dos preceitos de ouro, a Voz do Silêncio, estão inscritos os seguintes preceitos: “Antes de iniciares o caminho, deves destruir o teu corpo lunar, purificar o teu corpo mental e tornar limpo o coração. As águas puras da vida eterna, claras e cristalinas, não podem misturar-se com as torrentes lodosas da tempestade de monção.”

2- Reconhecer que entre o Eu e o não Eu, entre o Espírito e o Corpo existe uma hierarquia celeste de poderes que regem os vários planos da Criação: Arcanjos, Anjos, Daimon,  Heróis, Arcontes e Almas, sendo estes os mediadores entre o Céu e a Terra.

3- Requer a utilização correcta da Lei das Correspondências, ou seja, o perfeito domínio dos símbolos, ciclos e procedimentos que permitem a comunicação entre cada um dos níveis de consciência onde actuam esses Poderes.

A Teurgia Ascendente procura elevar a consciência até aos cumes das hierarquias celestiais, utiliza o silêncio interior absoluto, a purificação do corpo, mantendo-o descontaminado das emoções e sentimentos, eliminando todo o rasto de paixão e egoísmo e uma mente desobstruída de falsas opiniões, a contemplação, a oração, a união com o Eu Superior.

A Teurgia Descendente utiliza encanta mentos e evocações, utiliza a mediação com símbolos e objectos consagrados em analogia com as potências invocadas, sonhos proféticos, operações secretas com os arcanos da natureza, animação de estátuas para fins curativos e protectores, confecção de talismãs e amuletos. No livro dos Oráculos Caldeus, obra de Teurgia Superior publicada em Grego em 170 por Julien, o Teurgista, encontramos um conjunto de textos proféticos escrito em “hexâmetros dactílicos” e que se presume ter sido ditada pelos deuses ou Daimoms (anjos ou espíritos guias) ao próprio Julien, o Teurgista, em estado de mediunidade. Este obra era dividida em duas partes, primeiro uma interpretação esotérica da obra de Platão, especialmente o Timeu, e outra parte dedicada à revelação da Teurgia prática. A importância da Cabala hebraica e da antiga Sabedoria Egípcia contida nos livros de Hermés Trimegisto constituem alguns dos eixos fundamentais da Teurgia.

 

"A poluição física, moral e espiritual do entorno natural e humano fez-nos voltar ao velho sonho de Rousseau: a busca do paraíso perdido e da inocência"


Jamblico dizia, acerca da invocação dos espíritos, o seguinte: “Os bons demónios não temem a luz, enquanto outros necessitam das trevas, esses só se podem manifestar em quimeras e fantásticas formas.” (Os Mistérios do Egipto de Jamblico).  H. P. Blavatsky em Isis sem Véu (vol. II) escreve o seguinte sobre mediação e mediunidade:

“La verdadera mediumnidad se educe en unos individuos espontáneamente, en otros necesita influencias extrañas que la eduzcan y en la mayoría de los casos queda en estado potencial. El aura del individuo está en función recíproca de sus facultades mediumnímicas. Todo depende del carácter moral del médium. El aura puede ser densa, turbia y mefítica de modo que repela a las entidades superiores para atraer únicamente a las de ínfima condición que allí se gocen como el cerdo entre inmundicias; o por el contrario puede ser sutil, diáfana, pura y reverberante como el rocío de la mañana. Estos celestiales nimbos circuían a hombres tales como Apolonio, Jámblico, Plotino y Porfirio cuyas almas, en perfecta identidad con sus espíritus por efecto de la santidad de vida, atraían las influencias benéficas e irradiaban efluvios de bondad que repelían las malignas. No sólo se asfixian las entidades inferiores en el aura de un taumaturgo, sino en las de cuantos reciben la influencia de él, sea por cercanía eventual o por voluntad deliberada. Esto es mediación y no mediumnidad. Un hombre tal no es médium sino medianero y templo del Dios vivo; pero si la pasión o los malos pensamientos y deseos profanan el templo, se convierte el medianero en nigromántico, porque se retiran entonces las entidades puras y acuden las malignas. Sin embargo, también en este caso hay mediación y no mediumnidad, pues tanto el mago negro como el mago blanco determinan conscientemente su aura y por su propio albedrío atraen a las entidades afines.”

A Teurgia: Magia cerimonial

Ajuda a Natureza e coopera com Ela; e a Natureza ter-te-á como um dos seus criadores e tornar-se- á obediente”  -  Voz do Silêncio, H.P.Blavastsky

A Teurgia Cerimonial é a ciência e a arte de reconstruir o laço de Amor entre cada elemento disperso no seio da grande mãe Natureza. Através do espelho da mente pura e cristalina são reconstituídas as ligações entre o alto e o baixo, o rito é um gesto sagrado que permite a comunicação entre estes dois planos, um visível e outro invisível, ajustando cada elemento à grande Lei das Correspondências. Para Jamblico, o rito é um acto de Amor puro, um elo de comunicação com o Superior. O ritual é um procedimento mágico que imita a Ordem Celestial respeitando a medida áurea do Mundo das Inteligências (Deuses ou Devas), utiliza símbolos, invocações ou chamamentos, orações, cópias ou imagens com as quais as entidades invisíveis podem comunicar. Jamblico na obra “Mistérios do Egipto” escreve o seguinte: “Os seres sem formas são retidos em formas, aqueles que são superiores a qualquer cópia são reproduzidos pelo meio de cópia”. “É o poder dos símbolos mudos, unicamente inteligível para os deuses que operam na união teúrgica”. Aquilo que desperta o poder superior é a reprodução perfeita no ritual das configurações celestiais: Estes tornam-se revelações para a alma que em toda a pureza partilha desta união. A Alma, na sua primeira etapa, torna-se espectador das esferas superiores, direcionando toda a sua luz interior para o alto, em total repouso mental, de coração aberto, liberta de todos os obstáculos produzidos pela chamada do mundo exterior e dos sentidos. Pode, então, tornar-se visionária dos movimentos causais que ocorrem no plano subtil e assim interceptar os sinais do céu. O futuro, efeito de uma causa, já está configurado no passado e o momento presente é o tempo de espera para o reencontro destas duas dimensões.

Pues bien, dices que «la mayoria de los egipcios hacen ó depender nuestro libre arbitrio 228 de los movimientos de los astros». Cómo es, debe explicársete más extensamente partiendo de las concepciones herméticas. El hombre, según afinnan estos escritos, tiene dos almas: una derivada del primer inteligible, que participa también del poder del demiurgo, la otra, en cambio, engendrada a partir del movimiento de los cuerpos celestes, en la cual penetra el alma que contempla a la divinidad. Siendo las cosas así, la que desciende de los mundos a nosotros acompaña los movimientos de estos mundos, mientras que el alma derivada de lo inteligible, inteligiblemente presente en nosotros, es superior al ciclo del devenir, y por ella tiene lugar la liberación de la fatalidad y el ascenso hacia los dioses inteligibles: la teúrgia que se eleva a lo no engendrado se realiza según tal vida.

Todo, pues, no está ligado, como tú cuestionas, a “los 7 vínculos indisolubles de la necesidad”, que llamamos fatalidad, pues el alma posee el principio propio de la conversión hacia lo inteligible, de la separación de los seres del devenir, de unión al ser y lo divino. Tampoco liguemos la fatalidad a los dioses, que veneramos con templos y estatuas como liberadores de la fatalidad. Pero si los dioses liberan de la fatalidad, las naturalezas que derivan últimas de ellos, descendiendo y ligándose al devenir del cosmos y al cuerpo, cumplen la fatalidad. Con razón, por tanto, ofrecemos a los dioses todo el rito, a fin de que ellos, que prevalecen sobre la necesidad sólo con la persuasión intelectual, nos liberende los males que provienen de la fatalidad. Pero todo en la naturaleza no está ligado a la fatalidad: hay otro principio del alma, superior a toda naturaleza y a todo conocimiento, por el cual podemos unimos a los dioses, estar por encima del orden cósmico y participar de la vida eterna y de la actividad de los dioses hipercósmicos. Según este principio somos capaces de liberamos nosotros mismos. En efecto, cuando actúan las mejores partes de nosotros y el alma se eleva a los seres superiores a ella, entonces se separa por completo de lo que la retiene en el devenir, se aleja de lo peor, muta a otra vida a cambio de la suya, se entrega a otro orden, abandonando completamente el anterior. (Jamblico, “Sobre los Mistérios Egipcios”)

O MISTICISMO ATRAVÉS DO OLHAR DA RELIGIÃO E DA CIÊNCIA

No Ocidente a opinião acerca dos místicos oscila entre dois pontos de vista: o religioso e o científico. Para os doutores em religião, o místico que não se desviasse do dogma oficialmente aceite era considerado um santo, símbolo da fé ardente, imune aos pecados devido à sua pureza e podia então, servir de modelo de veneração para os fiéis. Os santos reforçam o poder da religião e, uma vez canonizados, ou seja, imortalizados, podiam servir de intermediários entre Deus Pai e os seus filhos mortais. Pelo contrário, quando o místico se afastasse dos mandamentos da religião em vigor, era considerado um herético, banido ou perseguido até à morte, em algum caso mais incómodos. Para a ciência, que desde Aristóteles mantém uma postura céptica em todos os assuntos metafísicos, o místico tornou-se um caso de estudo no domínio das patologias mentais. Se bem que a Psicologia do iminente médico e pensador suíço Carl Jung voltasse a aproximar a dimensão transcendental das vivências da alma humana, muitos especialistas continuam à espera de respostas sobre o fenómeno do misticismo, estudando e dissecando os meandros e mecanismos do cérebro. Muitas hipóteses foram lançadas para definir aquilo que não podia ser definido. Na secção do “paranormal” ou do insólito, mistura-se os indivíduos possuidores de distúrbios mentais, alucinações, sugestões, loucura, esquizofrenia, possessos, com estados alterados da consciência, místicos, xamanes, e videntes, enfim, todo um conjunto de patologias que transgridem a normalidade. Sabemos que cada época vê as coisas em função da sua própria alienação e a actual visão racionalista e tecnicista ainda não acabou o seu holocausto de todos os assuntos que abordem a dimensão transcendental da vida. Vamos analisar um fenómeno actual de retorno ao “paganismo” que, actualmente, já chegou à globalização. Trata-se do neo-xamanismo, num excelente artigo de Michel Meslin com o título “De la transe chamanique à l’extase du sage” de onde extraímos as ideias seguintes: o êxtase dos Sábios é um estado consciente, voluntário e permanente, enquanto o voo xamânico é uma experiência provisória condicionada a certas substâncias alucinogénicas ou ritmos desenfreados, que proporcionam o rapto momentâneo da consciência do curandeiro, permitindo assim, o acesso ao mundo dos Espíritos e neste estado de transfiguração ele pode lutar contra os venenos que actuam no plano astral. Nas sociedades tradicionais, o xamane é reconhecido como tal, devido a certos sinais psicossomáticos tais como perturbação a nível da consciência, mediunidade, catalepsia, vidência e sinais físicos que apontam para um transtorno da normalidade. A diferença entre os dois estados de transe é para Jamblico, o seguinte: o êxtase mau é uma desordem, uma instabilidade, uma depressão da consciência, uma descida ao mundo inferior, muitas vezes provocada por distúrbios psíquicos ou mediunidade passiva ou seja inconsciente, o bom êxtase é uma ascensão, uma subida constante e consciente em direcção à Luz, é um poder da vontade, uma força libertadora e pura que produz o entusiasmo e a visão da Verdade. Na Filosofia hindu dos Yogas Sutras, Pantanjali fala dos oito degraus que permitem a mente de estabilizar-se até permitir a união com o Absoluto. Este estado chamado, na Índia, Samadhi é o supremo grau do Yoga e conduz à omnisciência e domínio total de si mesmo.

O Misticismo Hoje

Tal como em outros momentos da nossa história, atravessamos um período de crise necessário para a evolução da humanidade. A perda gradual dos valores transcendentais, tais como a Fé em Deus, o Bem, o Justo, o Bom e o Belo, trouxeram o desencanto, o vazio existencial, a incerteza, a solidão e a depressão. Os falsos modelos de felicidade que dependiam do bem-estar material revelaram-se um grande engano, a filosofia desprendeu-se da vida e refugiou-se numa mera actividade intelectual; com a morte da razão perdeu-se o contacto com os propósitos da existência humana. Mas sem este apagão moral e espiritual não seria possível lançarmo-nos em novos voos, como a Fénix que renasce das suas cinzas, o Espírito volta a encarnar-se em novas formas. A imaginação é o atanor de novos sonhos e, à medida que eles se impregnam de matéria sensível, tornam-se reais. O protagonismo espiritual desta nova era globalizada pela informática já se faz sentir e vários movimentos canalizam este novo impulso de mudança de paradigma. Este sopro de renovação anuncia o regresso da Magia sobre todas as suas vertentes e na semelhança com a época de Jamblico surgem também muitas formas de a vivenciar. Costuma dizer-se que não há fumo sem fogo e não há sombra sem luz, os perigos da magia sempre existiram, em parte, devido ao grau de desenvolvimento interior daqueles que a praticam.

voo da alma

Encontramos hoje, várias correntes de renovação, muitas delas são ainda como sonhos fugazes cheios de luzes multicolores, centelhas de um fogo atiçado com lenha húmida, produtora de fumos e de sombras fantasmagóricas. A poluição física, moral e espiritual do entorno natural e humano fez-nos voltar ao velho sonho de Rousseau: a busca do paraíso perdido e da inocência. Sempre que o mundo padece de felicidade voltamos à Mãe Natureza, por instinto de sobrevivência buscamos nela o equilíbrio perdido. A Ecologia, palavra que significa ciência ou conhecimento da casa, é muito mais de que uma ciência ambiental, ela constitui a intenção planetária dos filhos pródigos de voltar a pactuar com a Deusa Mãe. O Eco Homo actual caracteriza muito bem esta prática alargada do culto ao corpo saudável. Ressurgem as terapias (do grego Therapeia que significa curar-servir) as medicinas alternativas, a naturopatia, a quiroprática, as massagens terapêuticas, o yoga. Estas são cada vez mais procuradas e é interessante recordar que foi no período mais crítico da antiga Roma que apareceram, um pouco por toda a parte, os sábios terapeutas com ligação ao culto do deus Seraphis, protector e curador dos corpos e Almas. Também os primeiros ”Hippies naturalistas“ conhecidos no Ocidente formavam comunidades retiradas do mundo como o famoso Jardim de Epicuro, filósofo grego (341-270 a.C.) que dizia que para podermos viver felizes deveríamos viver fora do mundo. Nos dias de hoje, venera-se em certos meios astrológicos Quíron, o Enviado e Mestre planetário da nova Era, o conhecedor dos segredos da cura que, como na demanda do Santo Graal nas lendas arturianas, exige que nos convertamos em buscadores da Verdade. Por mais incrível que pareça “Deus está na moda” e é novamente título de sucessos no mercado mundial do livro. Do mesmo modo, as ciências ocultas atraem

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milhares de leitores e espectadores, amantes dos novos Heróis como o jovem feiticeiro Harry Pother ou o Cavaleiro Vampiro, ambos verdadeiros fenómenos de popularidade entre os mais jovens e que anunciam o regresso das sagas míticas onde o fantástico e o mundo real se cruzam para animar a sofisticada caverna do mundo moderno. Os novos aprendizes de feiticeiro do mundo virtual promovem regalias celestiais onde na internet, sem qualquer reserva moral, se cruzam os Mestres de Luz, e os Seres Galácticos, com perigosas redes perversas ou satânicas. O neo-chamanismo canaliza a ânsia de experiencias exóticos através de fins-de-semana ou retiros nos Andes ou na Amazónia para descobrir os segredos dos antigos curandeiros. Em França, artigos actuais como “Le chamane  telefonique“ da autoria da jornalista Marie Laure Schick  que relata a capacidade de actualização das novas tecnologias informáticas dos xamanes da América Latina  recorrendo a redes para  trazer as mensagens dos espíritos guardiães do Além-Terra,  ou então o filme de  Roland  Pellarin  com o título : “Chacun cherche son chaman” e a busca do animal totem faz parte do novo culto animista juntamente com a venda de drogas naturais e alucinogénias como a coca sek ou coca do sol ou a Ayahusca que tenta competir com os velhos circuitos do narcotráfico. Na obra tibetana tão profundamente actual: a “Voz do Silêncio”, podemos ler o seguinte: “Não te detenhas a aspirar o aroma das suas narcóticas flores. Se queres livrar-te das cadeias Kármicas, não procures o teu Guru nessas regiões Mayávicas”. O bom senso deve ser o leme do futuro e proporcionar-nos claridade mental necessária para poder separar as águas cristalinas da verdadeira

voo da alma voo da alma

Sabedoria do lodo  sedutor da sua   antecâmara   ou o falso saber. Existe em cada ser humano um tesouro, protegido pelas vigias do nosso templo interior, e essas são as Virtudes, invocadas pelos teurgistas antigos através do nome de Divinidades ou Potências. O Pteros ou o ser alado da Alma que era para os Sábios o voo da alma, intensa felicidade que tanto procuramos nos prazeres deste mundo é, como nos recordava Plotino, não mais que  o pálido sinal  passageiro de uma felicidade  indescritível para os nossos sentidos carnais.

 

 

"O bom senso deve ser o leme do futuro e proporcionar-nos claridade mental necessária para poder separar as águas cristalinas da verdadeira Sabedoria do lodo  sedutor da sua antecâmara ou o falso saber"

 

CONCLUSÃO

A moral como conduta perfeita é a túnica dos Mestres da Magia, passados, presentes e futuros. Sem a sua protecção podemos tornar-nos escravos das forças inferiores que governam o homem passional ou o nosso eu lunar, como o descreve a Filosofia Tibetana. A pureza é o único amuleto da Alma peregrina no seu caminho ascendente. Quando a jóia diamante do coração está lapidada pelo fogo da mente inteligente e purificada  pela água do amor incondicional, então, ele pode  reflectir o poder da Luz  Única, a vontade  de perdurar para toda a eternidade.

“Os Adeptos são as obras-primas da Natureza. Neles, a verdade, a Bondade e a Beleza estabeleceram sua morada. Eles são personificações mortais das verdades imortais.” (Pensamentos de Sri Ram).
Que o Ideal de Luz dos grandes Mestres da Humanidade possa encontrar nestes tempos de mudança, Homens e Mulheres disponíveis e preparados para O receber e através da sua mensagem de renovação tornarem-se paladinos de um mundo melhor.

Françoise Terseur

 

Bibiografia

- A Voz do Silêncio, de H.P. Blavatsky - edições Nova Acrópole
- Isis Sem Véu, volume I, II, III, de H.P. Blavatsky
- Cahiers d’Anthropologie religieuse, de Nicole Belayche e Michel Meslin
- Les langages de l’expérience mystique chez Plotin, de Nicole Belayche
- La place de Jamblique dans la philosophie antique tardive, de Bent Dalsgaad Larsen
- Méditations païennes sur la liturgie, de Sebastien Derouen
- Pensamentos para aspirantes ao caminho espiritual, de Sri Ram
- La Théurgie comme phénomène culturel chez les Néoplatoniciens, de H. Dominique Saffrey
- Os Mistérios do Egipto, de Jamblico
- Les Mystiques devant la Science, de L. Revel

 

Do grego: εξ, héx, "seis", e μέτρον, métron, "medida(s)") é uma forma de métrica poética ou esquema rítmico. É tradicionalmente associado à poesia épica, tanto grega quanto latina, como por exemplo a Ilíada e a Odisséia de Homero e a Eneida de Virgílio.
Um dáctilo é uma sequência de três sílabas poéticas, a primeira longa e as duas seguintes breves. Portanto, o verso hexâmetro dactílico ideal consiste de seis (do grego hexa) pés, sendo cada um dáctilo. Tipicamente, porém, o último pé do verso não é um dactílico, mas sim um espondeu ou um troqueu, ou seja, a penúltima sílaba é sempre longa e a última silaba pode ser breve ou longa. (Wikipédia)


 

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