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Serafita de Honoré de Balzac

Excerto do Livro Serafita

Este discurso de Serafita, na obra de Balzac do mesmo nome, é um dos grandes monumentos da Filosofia que indaga acerca do mistério da existência de Deus.

Balzac nasceu em 20 de Maio de 1799. É com a sua “Comédia Humana”, um dos autores narrativos mais prolíficos da literatura de todos os tempos. Este romance, “Serafita”, um dos seus livros místicos e esotéricos versa sobre a perfeição humana, o estado espiritual daquele que já nada necessita do mundo, sabendo inclusivamente que venceu a polaridade natural dos sexos.  

«Nunca chegastes a confessar a extensão das vossas dúvidas; só eu, inabalável na minha fé, posso enunciá-las, e com isso vos causar horror por vós próprios. Inclinais-vos para o lado mais tenebroso da dúvida; não acreditais em Deus, e para quem ataca assim o princípio das coisas tudo passa a ser meramente secundário neste mundo inferior. Abandonemos as discussões estéreis das falsas filosofias. Tão vãos têm sido os esforços das gerações espiritualistas para negarem a matéria, como vãos têm sido os dos materialistas para negarem o espírito. Que valor têm estas disputas? Não é certo que o homem oferece provas irrecusáveis tanto a um sistema como ao outro? Não se encontram no homem coisas espirituais e coisas materiais? Só um louco poderia recusar-se a ver um fragmento de matéria no corpo humano; ao decompô-lo, ás vossas ciências naturais pouca diferença encontram entre os elementos dele e dos outros animais. A ideia, que a comparação de vários objectos produz no homem, parece que não se encontra em mais ninguém no domínio da matéria. Neste ponto, não me pronuncio, porque se trata agora das vossas dúvidas e não das minhas certezas. A vós, como a maior parte dos pensadores, não parecem ser materiais as relações que tendes com a faculdade de descobrir entre as coisas cuja realidade vos é atestada pelas vossas sensações. O universo natural das coisas e dos entes termina, pois, no homem, pelo universo sobrenatural das semelhanças ou das diferenças que percebe entre as inúmeras formas da natura, relações tão múltiplas que parecem infinitas; pois se, até agora, ninguém pôde sequer determinar o número das criações terrestres, quem poderia enumerar as relações? A fracção que conheceis não estará para a soma total como um número está para o infinito? Eis-vos já caídos na intelecção do infinito, que, certamente, vos faz conceber um mundo puramente espiritual. O homem apresenta, pois, uma prova suficiente desses dois modos, a matéria e o espírito. O homem está no ponto de encontro de dois mundos que se não conhecem; no homem termina o universo visível e finito, no homem começa o universo invisível e infinito. Terão os seixos do fiorde conhecimento das combinações que efectuam, terão consciência das cores que apresentam aos olhos do homem, ouvirão a música das vagas que os acariciam? Ultrapassemos, sem o rondar, o abismo que nos oferece a união de um universo material com um universo espiritual, uma criação visível, ponderável, tangível, limitada por uma criação intangível, invisível, imponderável; ambas completamente dissemelhantes, separadas pelo nada, unidas por concórdia incontestável, encontrando-se num ente que ao mesmo tempo participa de uma e de outra! Confundamos num só mundo estes dois mundos, que nas nossas filosofias são inconciliáveis, mas que efectivamente se conciliam. Por mais abstracta que o homem a julgue, a relação entre duas coisas tem sempre duas marcas. Onde? De quem? Não estamos agora para investigar a que ponto de subtilização pode chegar a matéria. Se tal fosse a questão, não vejo porque é que quem ligou, com relações físicas, os astros que se encontram a distâncias incomensuráveis e que assim constituem um véu aparente, não poderia ter criado substâncias pensantes, nem porque é que lhe interdireis a faculdade de dar um corpo ao pensamento! Vamos, pois, que o vosso invisível universo moral e o vosso visível universo físico constituem uma só e a mesma matéria. Não separemos as propriedades e os corpos, nem os objectos e as relações. Tudo quanto existe, tudo quanto nos pesa e nos oprime, tudo quanto está acima e abaixo de nós, fora e dentro de nós; tudo quanto os nossos olhos vêem e os nossos espíritos intuem, todas as coisas nominadas e inominadas, tudo constitui, para adaptar o problema da criação à medida da vossa lógica, um bloco de matéria finita; se fosse infinita, Deus já não seria o senhor. Neste ponto, e na vossa opinião, caro pastor, de qualquer modo que se queira aliar um Deus infinito a este bloco de matéria finita, Deus não poderia existir com os atributos de que foi investido pelo homem. Consultados os factos, é nulo; interrogado o raciocínio, é nulo também; espiritual e materialmente, Deus é impossível. Escutemos o verbo da razão humana, levada até às últimas consequências.

   «Colocando Deus na presença deste grande todo, só há entre eles dois estados possíveis. A matéria e Deus são contemporâneos, ou Deus preexistia à matéria. Supondo possível reunir numa só cabeça a razão que ilumina as raças humanas desde que começaram a viver, nem mesmo tal cabeça gigantesca poderia inventar terceiro estado, a não ser que suprimisse matéria e Deus. Podem as filosofias humanas amontoar palavras e ideias, podem as religiões acumular imagens e crenças, revelações e mistérios, sempre recairemos no terrível dilema, sempre teremos que escolher uma das proposições que o constituem; mas não podeis optar: tanto uma como outra, encaminham a razão humana para a dúvida. Posto assim o problema que nos importa o espírito e a matéria? Que nos importa a marcha dos mundos num sentido ou noutro, dado o ente que os conduz estar convencido do absurdo? Que serve perguntar se o homem progride para o céu ou se regride, se a criação ascende para o espírito ou descende para a matéria, se, quando interrogados, os mundos não nos dão resposta? Que significam as teogonias e os seus exércitos, as teologias e os seus dogmas, uma vez que, qualquer que seja a escolha do homem entre as duas faces do problema, Deus já não existe?

   «Examinemos a primeira, suponhamos Deus contemporâneo da matéria. Será verdadeiramente Deus o ser que sofre a acção ou a coexistência de uma substância estranha à sua? Neste sistema, Deus não se torna num agente secundário, obrigado a organizar a matéria? Quem o coage? Entre ele e a rude companheira, quem é o árbitro? Quem pagou o salário de seis dias de trabalho confiados ao Grande Artista? No caso de se encontrar alguma força determinada que não fosse Deus nem a matéria, aconteceria o seguinte:

Reconhecendo que Deus foi obrigado a fabricar a máquina dos mundos, seria tão ridículo denominá-lo Deus como nomear cidadão de Roma o escravo encarregado de fazer girar a mó. Aliás, aparece uma dificuldade tão pouco solúvel como a que já existia. Fazer remontar o problema a uma posição superior não será agir como os Indianos, que colocam o mundo sobre uma tartaruga, a tartaruga sobre um elefante, mas não sabem dizer onde é que assentam os pés do elefante? A tal vontade suprema, surgida do combate de Deus com a matéria, este deus mais do que Deus, talvez estivesse durante uma eternidade sem querer o que quis, admitindo que a eternidade se possa cindir em dois tempos. Onde quer que Deus esteja, se não tinha conhecimento do seu pensamento posterior, não será falível a sua inteligência intuitiva? Destas duas eternidades, qual terá razão? A eternidade incriada ou a eternidade criada? Se sempre quis o mundo tal qual é, esta nova necessidade, aliás, de harmonia com a ideia de uma inteligência soberana, implica a
co-eternidade da matéria. Que a matéria seja co-eterna por uma vontade divina, necessariamente semelhante a si própria em todo o tempo, ou que a matéria seja co-eterna por si própria, a potência de Deus, que deveria ser absoluta, perece com o seu livre-arbítrio; encontraria sempre nele uma razão determinante que o teria dominado. Será ser Deus não poder já separar-se da sua criação, quer numa posterior quer numa anterior eternidade? Será esta face do problema insolúvel na sua causa? Examinemo-la nos seus efeitos. Se Deus, forçado de toda a eternidade a criar o mundo, parece inexplicável, é-o igualmente na perpétua coesão com a sua obra. Deus, constrangido a viver eternamente unido à criação, fica de tal forma anulado como na primeira condição de operário. Concebeis um Deus que não pode já ser independente da sua obra? Pode ele destruí-la, sem se negar a si próprio? Examinai, escolhei! Quer venha a destruí-la, quer nunca possa destruí-la, qualquer termo é fatal aos atributos sem os quais não pode existir. Será o mundo uma tentativa, uma forma perecível, cuja destruição será fatal? Será Deus assim incompetente e impotente? Inconsequente: não deveria ter visto o resultado antes da experiência, e porque tardará tanto a quebrar o que quebrará? Impotente: deveria criar um mundo imperfeito?

   «Se a criação imperfeita desmente as faculdades que o homem atribui a Deus, voltemos à primeira questão, suponhamos a criação perfeita. A ideia está de harmonia com a de um Deus soberanamente inteligente que nunca se deve ter enganado. Mas, nesse caso, para quê a degradação? Para quê a degeneração? Se o mundo perfeito é necessariamente indestrutível, as suas formas não devem perecer; o mundo nunca avança nem recua, transita numa eterna circunferência donde nunca mais sairá? Deus será então dependente da sua obra: ela é-lhe co-eterna, o que faz reaparecer uma das proposições que mais atacam a existência de Deus. Imperfeito, o mundo admite um curso, um progresso; mas perfeito, é estacionário. Se é impossível admitir um Deus progressivo, não sabendo desde toda a eternidade o resultado da sua criação, será possível um Deus estacionário? Não será o triunfo da matéria? Não será a maior de todas as negações? Na primeira hipótese, Deus perece por fraqueza; na segunda, perece pela potência da sua inércia. Assim, na composição como na execução dos mundos, para qualquer espírito de boa fé, supor a matéria contemporânea de Deus é querer negar Deus. Forçados a escolher, para os governos das nações, entre as duas faces deste problema, gerações inteiras de grandes pensadores optaram por esta. Dessa opção provém o dogma dos dois princípios do magismo, que da Ásia passou para a Europa na forma do combate de Satã contra o Pai Eterno. Mas esta fórmula religiosa, e as inúmeras divinações que dela derivam, não serão crimes de lesa-majestade divina? Que outro nome se pode dar à crença que dá a Deus um rival e que imagina uma personificação do mal a debater-se eternamente sob o esforço da sua omnipotente inteligência, sem triunfo possível? É a vossa estética que diz que duas forças, assim colocadas, reciprocamente se anulam. – Voltais-vos outra vez para a segunda face do problema? Deus preexistia só, único.

   «Não reproduzamos as argumentações precedentes, que ressurgem com toda a força, relativamente à cisão da eternidade em dois tempos, o tempo incriado e o tempo criado. Deixemos, igualmente, as questões levantadas pela marcha ou pela imobilidade dos mundos, contentemo-nos com as dificuldades inerentes a este segundo tema. Se Deus preexistisse só, o mundo teria emanado dele, a matéria teria sido tirada da essência dele! Portanto, não há realmente matéria! Todas as formas são véus sob os quais se esconde o Espírito Divino. Mas então o mundo é eterno, mas então o mundo é Deus! Não será esta proposição, mais ainda do que a precedente, fatal para os atributos dados a Deus pela razão humana? Saída do seio de Deus, sempre unida a ele, a matéria, no estado actual, será explicável? Como acreditar que o Todo Poderoso, soberanamente bom na sua essência e nas suas faculdades, tenha gerado coisas que lhe são dissemelhantes, não seja sempre e por toda a parte semelhante a si próprio? Haveria nele partes más de que um dia se desembaraçara? Conjectura menos ofensiva ou ridícula do que terrível, porque reconduz a Deus os dois princípios que a tese precedente demonstra serem inadmissíveis. Deus deve ser um, não se pode cindir sem renunciar à mais importante das suas condições. Será então impossível admitir uma fracção de Deus que não seja Deus? Esta hipótese pareceu de tal forma criminosa à Igreja romana, que esta fez um artigo de fé da omnipotência das mínimas parcelas na Eucaristia. Como supor então uma inteligência omnipotente que não triunfe? Como associá-la, sem o triunfo imediato, à natura? E que natura? Uma natura que procura, combina, refaz, morre e renasce; uma natura que se agita muito mais quando cria do que quando tudo está em fusão; uma natura que sofre, geme, ignora, degenera, faz o mal, erra, desaparece, recomeça! Como justificar este desconhecimento, quase geral, do princípio divino? Porquê a morte? Porque é que o génio do mal, esse rei da terra, foi gerado por um Deus soberanamente bom na sua essência e nas suas faculdades, um Deus que nada devia produzir que não fosse conforme com ele próprio? Mas se, desta consequência implacável que a princípio nos conduziu ao absurdo, passarmos aos pormenores, que fim podemos atribuir ao mundo?

   «Se tudo é Deus, tudo é efeito e causa; ou, antes, não existe causa nem efeito: tudo é um com Deus, e não podereis perceber nem ponto de partida nem ponto de chegada. O fim real seria uma rotação da matéria que se subtiliza? Mas em qualquer sentido que decorra, não seria ludo infantil esse mecanismo da matéria que sai de Deus para regressar a Deus? Para quê a fase grosseira? Sob que forma Deus é mais Deus? Entre a matéria e o espírito, qual dos modos tem razão? Quem pode reconhecer Deus nesta eterna indústria em que ele se reparte por duas naturezas, uma das quais nada sabe, outra das quais sabe tudo? Concebeis Deus a divertir-se revestido de forma humana? Deus rindo dos próprios esforços, morrendo na sexta-feira para renascer no domingo, e continuando esta facécia pelos séculos dos séculos, e sabendo já de toda a eternidade qual é o fim? Um Deus que nada diz a si próprio, quando criatura, do que está a fazer como Criador? O Deus da hipótese precedente, esse Deus tão nulo pela potência da sua inércia, parece mais possível, se fosse necessário escolher no impossível, que esse Deus tão estupidamente alegre que a si próprio se fuzila quando duas fracções da humanidade lutam de armas na mão. Por muito cómica que seja esta suprema expressão da segunda face do problema, foi ela a adoptada por metade do género humano, entre as nações que criaram sorridentes mitologias.

   «Estas nações amorosas eram consequentes: entre elas, tudo era Deus, até o medo com as suas covardias, até o crime com os suas bacanais. Aceitando o panteísmo, a religião de grandes génios humanos, como se poderá saber quem tem razão? Será o selvagem, livre no deserto, vestido de nudez, sublime e sempre justo nos seus actos, quaisquer que sejam, ouvindo o Sol, conversando com o mar? Será o homem civilizado, que só a mentiras deve os seus maiores gozos, que torce e oprime a natura para pôr uma espingarda ao ombro, que usa da inteligência para adiantar a hora da morte, para gerar doenças em todos os prazeres? Quando o ancinho da peste ou o arado da guerra, quando o génio da devastação passou por um recanto do globo e apagou todos os sinais do vivente, quem é que tem razão: o selvagem da Núbia ou o patrício de Tebas? As nossas dúvidas correm de alto a baixo, abrangem tudo, os fins como os meios. Se o mundo físico parece inexplicável, o mundo moral clama muito mais contra Deus. Onde está então o progresso? Se tudo se vai aperfeiçoando, porque é que morremos crianças? Porque é que as nações, pelo menos, não são perpétuas? O mundo proveniente de Deus, contudo em Deus, será estacionário? Vivemos uma só vez? Vivemos sempre? Se vivemos uma só vez, empurrados pela marcha do Grande Todo, cujo conhecimento não nos foi dado, actuemos a nosso bel-prazer! Se somos eternos, deixemos correr! Pode a criatura ser culpada de existir no momento das transições? Se peca na hora de uma grande transformação, será ainda punida depois de ter sido a última? Que bondade divina é essa, que não nos coloca imediatamente nas regiões felizes, se por acaso existem? Que vem a ser a presciência de Deus, se Ele ignora o resultado das provações a que nos submete? Que alternativa é esta, apresentada ao homem por todas as religiões, de ir para uma eterna caldeira de água fervente, ou passear de túnica branca, com uma palma na mão e a cabeça cingida por uma auréola? É possível que esta invenção pagã seja a última palavra de Deus? Qual é o espírito verdadeiramente generoso que não julgue indigna do homem e de Deus esta moral: a virtude por cálculo, a virtude que supõe uma eternidade de prazeres oferecida por todas as religiões a quem cumprir, durante poucas horas da existência, certas condições bizarras e por vezes antinaturais? Não será ridículo conferir ao homem uns sentidos impetuosos e proibir-lhe que lhes dê satisfação? Aliás, para que servem estas negras objecções, quando o bem e o mal estão igualmente anulados? Existe o mal? Se a substância de todas as formas é Deus, Deus é o mal. A faculdade de raciocinar, assim como a faculdade de sentir, foram dadas ao homem para que fizesse uso delas; ora, nada é tão desculpável como procurar o significado das dores humanas e interrogar o futuro. Se os raciocínios correctos e rigorosos, levam a conclusões desta ordem, que grande confusão! Este mundo não teria fixidez alguma: nada caminha e nada pára, tudo muda e nada desaparece, tudo regressa depois de alterado, pois se o nosso espírito não nos demonstra, rigorosamente, um fim, é igualmente impossível desencontrar o aniquilamento da mínima parcela da matéria: esta pode transformar-se, mas não aniquilar-se. Se a força cega favorece a opinião do ateu, a força inteligente é inexplicável, pois, emanada de Deus, poderá encontrar obstáculos, o seu triunfo não deverá ser imediato? Onde está Deus? Se os viventes não O encontram, terão os mortos esse privilégio? Sucumbi, idolatrias e religiões! Caí, ó cúpulas inseguras de todas as abóbadas sociais, pois não retardaste nunca, nem a derrocada, nem a morte, nem o esquecimento de todas as nações que passaram, por muito fortes que fossem os fundamentos delas! Caí, morais e justiças! Os nossos crimes são puramente relativos, são efeitos divinos cujas causas nos são desconhecidas! Tudo é Deus? Então, ou somos também Deus, ou não há Deus!
  
«Nascido num século, cujos anos depuseram na tua fronte o gelo das suas incredulidades, debates-te, meu velho, entre demoradas reflexões de que te fiz o resumo. Meu caro senhor Becker, sei que deitastes a vossa cabeça na almofada da dúvida, porque mais cómoda vos pareceu ser essa solução. Não fizestes nem mais nem melhor do que a maioria do género humano, que diz: «– Não pensemos mais nesse problema, já que Deus não nos faz a graça de concebermos uma equação algébrica que o resolva, ao passo que tantas nos facultou para resolver, para estabelecer com segurança o caminho da terra até aos astros». São, ou não, desta ordem os vossos pensamentos íntimos? Encobri-os ou acusei-os? Escutai. As duas fontes donde brotam as religiões, que a humanidade tem feito triunfar sobre a terra, são igualmente perniciosas: quer seja o dogma dos dois princípios, o antagonismo em que Deus parece por isso melhor, pois, sendo todo-poderoso, distrai-se com o combate; quer seja o absurdo panteísmo onde tudo é Deus, onde Deus não existe. Tal é o machado de dois gumes com que costumais cortar a cabeça daquele velhote branco que entronizais em museus pintados. Mas, agora, quem vai pegar no machado sou eu!»

   O senhor Becker e Guilfredo começaram a ficar aterrorizados.

   – Crer, – recomeçou Serafita com voz de mulher, porque o varão cessara de falar – crer é um dom! Crer é sentir. Para crer em Deus é preciso sentir Deus. Este sentido é uma propriedade lentamente adquirida pelo ente, tal como são adquiridos os espantosos poderes que admirais nos grandes homens, nos guerreiros, nos artistas, nos sábios, entre os que sabem, os que produzem, os que actuam. O pensamento, facho das relações que apercebeis entre as coisas, é uma língua intelectual que estudamos, não é verdade?

   «A crença, facho das verdades celestes, é igualmente uma língua, mas tão acima do pensamento quanto o pensamento é superior ao instinto. Esta língua aprende-se. O crente responde por um só grito, por um só gesto: a fé põe-lhe nas mãos uma espada flamejante com a qual ele resolve, ilumina tudo. O vidente já não desce do céu, contempla e cala. Há uma criatura que crê e vê, que sabe e pode, que ama, reza e espera. Resignada, aspirando ao reino da luz, não tem o desdém do crente nem o silêncio do vidente; ouve e responde. Para ela, a dúvida dos séculos tenebrosos não é uma arma mortífera, mas um fio condutor; ela aceita o combate em todas as formas; dobra a sua língua segundo todas as linguagens; não se arrebata, lamenta; não condena nem mata pessoa alguma, salva e consola; não tem a acerbidade do agressor, mas a doçura e a tenuidade da luz que penetra, aquece, ilumina tudo. Aos olhos dela, a dúvida não é uma impiedade, nem uma blasfémia, nem um crime; mas uma transição, depois da qual o homem ou regressa para as trevas ou avança para a luz. Marchemos, pois, meu caro pastor, raciocinemos. Não acreditais em Deus. Porquê? Porque, a vosso ver, Deus é incompreensível, inexplicável. De acordo. Não vos direi que compreender inteiramente a Deus seria ser Deus; não vos direi que negais o que vos parece inexplicável, porque não quero ter o direito de afirmar o que me parece crível.

   «Há, porém, um facto evidente que se encontra dentro de vós. Em vós, a matéria atinge a inteligência. Pensais que a inteligência humana vai dar às trevas, à dúvida, ao nada? Se Deus vos parece incompreensível, inexplicável, confessai ao menos que vedes, pelo menos nas coisas físicas, um consequente e sublime operador. Porque é que a sua lógica terminaria no homem, que é a mais perfeita criação? Esta pergunta, se não é convincente, exige pelo menos algumas meditações. Se negais Deus, felizmente que, para estabelecer as dúvidas, reconheceis factos de duplo gume que matam os vossos raciocínios como os nossos raciocínios matam Deus. Admitamos, igualmente, que a matéria e o espírito eram duas criações que não se compreendiam uma à outra, que o mundo espiritual se compunha de relações infinitas, às quais deva lugar o mundo material finito, que se ninguém na terra tenha ainda podido identificar-se pela potência do seu espírito com o conjunto de criações terrestres, com mais razão, ninguém podia erguer-se ao conhecimento das relações que o espírito percebe entre estas criações. Podíamos, pois, chegar já a uma conclusão, negando-vos a faculdade de compreender Deus, como negais aos seixos do fiorde a faculdade de se enumerarem e de se verem. Sabeis se eles negam ao homem que os utilize na construção da sua casa? Há um facto que vos esmaga, o infinito; se o sentis em vós, porque é que não admitis as respectivas consequências? Pode o finito possuir perfeito conhecimento do infinito? Se não podeis abranger relações que, segundo a vossa confissão, são infinitas, como poderíeis atingir o afastado fim em que as relações se resumem? Se a ordem, cuja revelação é uma das vossas necessidades, é infinita, como pode a nossa limitada razão compreendê-la? E não pergunteis porque é que o homem não compreende o que pode perceber, porque ele é igualmente o que não compreende. Se vos demonstrar que o vosso espírito ignora tudo quanto está ao seu alcance, conceder-me-eis que lhe seja impossível conceber o que esteja para além? Não terei então razão de vos dizer: «– Um dos termos pelo qual Deus perece no tribunal da vossa razão deve ser verdadeiro, o outro deve ser falso; se a criação existe, sentis que é necessária uma finalidade, e que essa finalidade deve ser bela».

   «Ora, se a matéria termina no homem pela inteligência, porque é que não vos contentareis com saber que o fim da inteligência humana é a luz das esferas superiores, às quais está reservada a intuição desse Deus que vos parece ser um problema insolúvel? As espécies que estão acima de nós têm a inteligência dos mundos, como vós a tendes; porque não haveria acima de vós outras espécies mais inteligentes do que a vossa? Antes de aplicar a sua força a medir Deus, não deveria o homem ser mais instruído do que efectivamente é acerca de si próprio?

   «Antes de ameaçar as estrelas que o iluminam, antes de atacar as certezas superiores, não deveria o homem estabelecer as certezas que lhe dizem respeito? Mas às negações da dúvida, tenho que responder com negações. Pergunto-vos, agora, se neste mundo há qualquer coisa bastante evidente por si própria que mereça crédito? Num instante vos responderei com a prova de que acreditais firmemente em coisas que actuam e que não são entes, que geram pensamento e que não são espíritos, em abstracções viventes que o intelecto não apreende sob forma alguma, mas que por toda a parte encontrais, que não têm nome possível, mas que denominais; que, semelhantes ao Deus de carne que imaginais, perecem no inexplicável, no incompreensível, no absurdo. Perguntar-vos-ei como é que, adoptando outras coisas, reservais somente as vossas dúvidas para Deus. Credes no número, base em que assentais o edifício das ciências que denominais exactas. Sem o número não são possíveis as matemáticas. Pois bem! Que ente misterioso, ao qual teria de ser concedida a faculdade de sempre viver, poderia chegar a dizer, e em que linguagem assaz expedita o número que contém os números infinitos cuja existência vos é demonstrada pelo vosso pensamento? Perguntai-o ao mais belo dos génios humanos; ele responder-vos-ia, ainda que tivesse mil anos sentado à secretária, calculando com a cabeça amparada pelas mãos. Não sabeis, pois, nem onde o Número começa, nem onde nem quando acabará. Aqui o denominais Tempo, além Espaço; nada existe senão por ele; sem ele, tudo seria uma só e a mesma substância, porque substância, porque só ele diferencia e qualifica.

   «O Número é para o vosso Espírito o que também é para a matéria um agente incompreensível. Considerá-lo-eis um Deus? Será um ente? Será um sopro emanado de Deus para organizar o universo material, onde nada há que realize a sua forma senão pela divisibilidade que é um efeito do número? Não é verdade que tanto as mais pequenas como as maiores criações se distinguem pelas quantidades, pelas qualidades, pelas dimensões, pelas forças, isto é, por atributos gerados pelo número? O infinito dos números é um facto comprovado pelo nosso espírito, embora dele não possa ser dada qualquer prova material. A matemática dir-vos-á que o infinito dos números existe, e não se demonstra. Deus, meu caro pastor, é um número dotado de movimento, que sentimos e que não demonstramos. Isto vos dirá o crente. Tal como a unidade, origina números com os quais nada tem em comum. A existência do número depende da unidade que, sem ser número, os gera a todos.

   «Deus, meu caro pastor, é a unidade magnífica que nada tem de comum com as suas criações, e que todavia as gera. Concordai, pois, comigo em que tanto ignorais onde começa o número, como onde começa e onde acaba a eternidade criada. Ignorais, mas acreditais no número. Porque é, então, que negais Deus? Não está a criação colocada entre o infinito das substâncias inorgânicas e o infinito das esferas divinas, tal como a unidade se encontra entre o infinito das fracções que denominais há pouco tempo decimais e o infinito dos números que denominais inteiros? Só vós, na terra, compreendeis o número, primeiro degrau do peristilo que conduz a Deus, onde já a vossa razão tropeça. Pois quê?!... Não podereis medir a primeira abstracção que Deus vos facultou, nem apreendê-la, e quereis submeter à vossa medida os desígnios de Deus! Que seria então se eu vos mergulhasse nos abismos do movimento, esta força que o número organiza? Assim, quando vos dissesse que o universo não é mais do que Número e Movimento, veríeis que falaríamos uma linguagem diferente. Eu tanto compreendo uma como outra, e vós não as compreendeis. Que seria, então, se eu acrescentasse que o movimento e o número são gerados pela palavra? Esta é a razão suprema dos videntes e dos profetas que outrora ouviram o sopro de Deus que fez cair São Paulo.

   «Sei que fazeis troça da palavra, porque sois homens, porque não reparais que todas as vossas obras visíveis, as sociedades, os monumentos, os actos, as paixões procedem da vossa débil palavra; se não fosse a linguagem intelectual, seríeis semelhantes a essa espécie vizinha do negro, ao selvagem. Acreditais, pois, firmemente no número e no movimento, força e resultado inexplicáveis, incompreensíveis, à existência dos quais posso aplicar o dilema que vos dispensava há pouco de acreditar em Deus. Vós, poderoso razoador, não me dispensareis, certamente, de vos demonstrar que o infinito deve ser sempre idêntico a si próprio, e que é necessariamente um. Só Deus é infinito, porque não pode haver dois infinitos. Se, por ser utilizada a palavra humana, vos parecer infinita alguma coisa demonstrada neste mundo, tende a certeza de que entrevedes uma das faces de Deus. Prossigamos. Apropriastes-vos de um lugar no infinito do número, e, para o acomodardes à vossa estatura, criastes, se porventura podeis criar alguma coisa, a aritmética, base em que tudo repousa, até mesmo as vossas sociedades.

   «Da mesma forma que o número, a única coisa em que acreditaram os nossos pretensos ateus, organiza as criações físicas, a aritmética, a aplicação do número, organiza o mundo moral. Esta numeração devia ser absoluta, como tudo quanto é verdadeiro em si; mas é puramente relativa, não existe absolutamente, não podeis dar prova alguma da sua realidade. Primeiro que tudo, esta numeração, se é hábil para determinar as substâncias organizadas, é impotente relativamente às forças organizadas, porque umas são finitas e as outras infinitas. O homem, que concebe pela inteligência o infinito, não pode manejá-lo na totalidade; senão, seria Deus. A vossa numeração, aplicada às coisas finitas e não ao infinito, é portanto, verdadeira em relação aos pormenores que percebeis, mas falsa em relação ao conjunto que não percebeis. Se a natura é semelhante a si própria nas forças organizadoras ou até nos seus princípios que são infinitos, nunca o é nos efeitos finitos; por isso nunca encontrareis em parte alguma da natura dois objectos idênticos; na ordem natural, dois e dois nunca podem ser quatro, porque para isso seria indispensável juntar unidades exactamente iguais, e bem sabeis que é impossível encontrar duas folhas semelhantes na mesma árvore, nem duas árvores semelhantes na mesma espécie. Este axioma da vossa numeração, falso na natureza visível, é igualmente falso no universo invisível das vossas abstracções, onde a mesma variedade existe nas vossas ideias, que são as coisas do mundo visível, mas ampliadas pelas suas relações; assim, as diferenças são aí mais fortes do que em qualquer outra parte.

   «Com efeito, sendo tudo relativo ao temperamento, à força, aos costumes, aos hábitos dos indivíduos, não se assemelhando uns aos outros, os mínimos objectos representam sentimentos pessoais. Certamente, se o homem pôde criar unidades, chegar a tal resultado, porque atribuir denominação igual e peso igual a pedaços de ouro? Pois bem, podeis juntar o ducado do pobre com o ducado do rico, podeis dizer que para o tesouro público são duas quantidades iguais; mas aos olhos do pensador, um é, de certo, moralmente mais considerável do que o outro; um representa um mês de felicidade, o outro representa um efémero capricho. Dois e dois não são quatro senão por meio de uma abstracção falsa e monstruosa. A fracção também não existe na natura, onde o que denominais fragmento, é em si uma causa finita; mas não acontece por vezes, e vós tendes disso a prova, ser o centésimo de uma substância mais forte do que aquilo que denominais inteiro? Se a fracção não existe na ordem natural, muito menos existe na ordem moral, onde as ideias e os sentimentos podem ser variados como as espécies da ordem vegetal, mas sempre inteiros.

   «A teoria das fracções é, pois, mais uma insigne complacência do vosso espírito. O número, com os seus infinitamente pequenos e as suas totalidades infinitas, é, pois, uma potência de que só uma fraca parte vos é conhecida, e cujo alcance vos escapa. Que fizestes vós? Construístes uma choupana no infinito dos números, adornaste-la com hieróglifos sabiamente alinhados e pintados, e clamastes: – Está tudo ali! Do Número puro passemos ao número corporizado. A vossa geometria estabelece que a linha recta é o mais curto caminho entre dois pontos, mas a vossa astronomia demonstra-vos que Deus somente procedeu por meio de curvas. Eis, pois, na mesma ciência, duas verdades igualmente demonstradas: uma pelo testemunho dos vossos sentidos aumentados pelo telescópio, a outra pelo testemunho do vosso espírito, mas ambas em contradição. O homem falível afirma uma proposição e o operador dos mundos, que ainda não surpreendestes em erro, desmente-a. Quem decidirá então a geometria rectilínea e a geometria curvilínea? Entre a teoria da recta e a teoria da curva?

   «Se, na sua obra, o misterioso artista que sabe chegar, miraculosamente, depressa aos fins, só emprega a linha recta para a cortar perpendicularmente, a fim de obter uma curva, o homem nunca pode contar com isso: a bala que o homem quer projectar em linha recta descreve uma curva, e quando quereis atingir com certeza um ponto no espaço, obrigais o projéctil a seguir a cruel parábola. Nenhum dos vossos sábios chegou à simples indução de que a curva é a lei dos mundos materiais, a recta a dos mundos espirituais: uma é a teoria das criações finitas, outra a teoria do infinito. O homem, porque é o único ente terrestre que tem o conhecimento do infinito, é o único a conhecer a linha recta; só ele tem o sentimento da verticalidade localizado num órgão especial. O apego às criações da curva não será, em certos homens, índice duma impureza da natureza deles, ligada ainda às substâncias materiais que os geraram? E o amor dos grandes espíritos pela linha recta não denunciará neles um pressentimento do céu? Há entre estas duas linhas um abismo, como entre o finito e o infinito, como entre a matéria e o espírito, como entre o homem e a ideia, como entre o movimento e o imóvel, como entre a criatura e Deus. Rogai ao amor divino que vos dê as suas asas, e logo transporeis esse abismo! Para além dele começa a revelação do Verbo.

   «Em parte alguma as coisas que denominais materiais carecem de profundidade; as linhas são terminações sólidas que comportam uma força de acção que suprimis nos vossos teoremas, o que os torna falsos em relação aos corpos considerados na sua totalidade. Assim se explica esta constante destruição de todos os monumentos humanos que, sem saberdes, dotais de propriedades activas. A natura só tem corpos, a vossa ciência só combina aparências. A natura desmente a cada passo as vossas leis todas: designai uma só que não seja contrariada por um facto! As leis da vossa estética são esbofeteadas por mil acidentes da física, pois um fluído derruba as mais pesadas montanhas, e assim vos prova que as mais pesadas substâncias podem ser soerguidas por substâncias imponderáveis. As vossas leis da acústica e da óptica são anuladas pelos sons que vós mesmos ouvis dentro de vós durante o sono e pela luz de um sol eléctrico de que os raios por vezes vos abatem. Não sabeis como é que a luz se faz inteligência dentro de vós, como não conheceis o processo simples e natural que a transforma em rubi, safira, opala, esmeralda, no colo de uma ave da Índia, ao passo que fica cinzenta ou castanha na ave que vive sob o céu nevoento da Europa, nem como permanece branca no seio da região polar. Não poderíeis decidir se a cor é uma faculdade de que os corpos são dotados ou se é um efeito produzido pela fusão da luz. Vós admitis o amargor do mar sem terdes verificado se a água é salgada em toda a profundidade. Reconhecestes a existência de várias substâncias que atravessam o que julgais ser o vazio; substâncias que não são sensíveis, que não aparecem nas formas afectadas pela matéria, mas que se harmonizam com ela apesar de todos os obstáculos. Sendo assim, acreditais nos resultados obtidos pela química, se bem que ela não conheça ainda processo algum de avaliar as mutações, operadas pelo fluxo ou pelo refluxo das substâncias que trespassam os vossos cristais e as vossas máquinas nos fios insensíveis do calor e da luz, conduzidas, exportadas pelas afinidades do metal ou sílex vitrificado. Não obtendes senão substâncias mortas, das quais expulsastes a força desconhecida que se opõe a tudo quanto neste mundo se decompõe, e de que a atracção, a vibração, a coesão e a polaridade são apenas fenómenos. A vida é o pensamento dos corpos; eles são apenas um meio de a fixar, de a deter no seu curso; se os corpos fossem viventes por si próprios, seriam causa e não morreriam.

   «Quando um homem constata os resultados do movimento geral que todas as criações entre si repartem segundo a sua faculdade de absorção, vós o proclamais sábio por excelência, como se o génio consistisse em explicar o existente. O génio deve olhar e ver para além dos efeitos! Todos os vossos sábios ririam, se lhes dissésseis: «Entre dois entes, um dos quais tivesse aqui e o outro em Java, as relações são tão certas que poderiam no mesmo instante experimentar a mesma sensação, ter disso consciência, estabelecer diálogos sem possível erro!». No entanto, substâncias há que testemunham simpatias tão distantes como estas de que vos falei. Credes na potência da electricidade fixada no magnete e negais o poder daquela que tem sede na alma. Na vossa opinião, a Lua, cuja influência nas marés vos parece demonstrada, não influi nos ventos, na vegetação, na humanidade; remove o mar e rói o vidro, mas respeita os doentes; tem relações certas com metade da humanidade, mas nada pode sobre a outra. Tais são as vossas mais ricas certezas. Mas vamos adiante! Acreditais na física? Mas a vossa física começa, como a religião católica, por um acto de fé. Não reconhece ela uma força exterior, distinta dos corpos, aos quais comunica o movimento? Vedes bem os efeitos, mas que força é essa? Onde está? Qual é a essência, a vida dela? Quais são os seus limites? E negais vós Deus!...

«Assim, pois, a maior parte dos vossos axiomas científicos verdadeiros em relação ao homem, são falsos em relação ao universo. A ciência é una, e vós a dividistes. Para saber o verdadeiro significado das leis fenomenais, não seria necessário conhecer as relações que existem entre os fenómenos e a lei universal? Em tudo há uma aparência que excita os vossos sentidos; sob esta aparência, manifesta-se uma alma; há o corpo e a faculdade. Onde efectuais o estudo das relações entre as coisas? Em parte nenhuma. Não fazeis, então, referência alguma ao absoluto? Os vossos temas mais seguros assentam na análise das formas materiais cujo espírito é incessantemente desdenhado por vós. Há uma ciência mais alta que certos homens só demasiadamente tarde chegaram a entrever, sem o confessarem. Esses homens compreenderam a necessidade de considerar os corpos, não somente nas suas propriedades matemáticas, mas ainda na sua totalidade, nas suas afinidades ocultas. O maior de todos nós adivinhou quando findavam os seus dias, que tudo é causa e efeito reciprocamente; que os mundos visíveis estão coordenados e submetidos a mundos invisíveis. Penou para estabelecer princípios absolutos! Contando os mundos, como bagos de uva, semeados no éter, explicara a coerência deles pelas leis da atracção planetária e molecular; prestastes as vossas homenagens ao sábio! Pois bem, digo-vos eu: esse homem morreu desesperado. Supondo iguais as forças centrífuga e centrípeta que ele inventara para explicar o universo, o universo estaria em repouso, e contudo admitia ele o movimento num ponto indeterminado; mas supondo desiguais as forças, logo a confusão dos mundos seria evidente. Tais leis não eram, pois, absolutas; acima delas existia ainda um problema. A ligação dos astros entre si e a acção centrípeta do seu movimento interno impedia que se procurasse a cepa que dava os cachos? Infeliz! Quanto mais alargava o espaço, mais pesado lhe era o fardo. Ele disse-vos como havia equilíbrio entre as partes; mas para onde ia o todo? Contemplava a extensão, infinita aos olhos do homem, preenchida por esses grupos de mundos de que uma porção mínima é acusada pelo nosso telescópio, mas cuja imensidade se revela pela rapidez da luz. Esta contemplação sublime deu-lhe a percepção dos mundos infinitos que, plantados como as flores no prado, nascem como crianças, crescem como homens, morrem como velhos, vivem assimilando na atmosfera as substâncias para os alimentarem; que têm um centro e um princípio de vida; que, semelhantes às plantas, absorvem e são absorvidos, que compõem um ente dotado de vida, têm o seu destino. Perante este aspecto, o homem estremeceu! Sabia que a vida é produzida pela união da coisa com o seu princípio, que a morte ou a inércia, enfim, que a gravidade é produzida por uma ruptura entre um objecto e o movimento que lhe é próprio; pressentiu então a derrocada destes mundos, aniquilados se Deus lhes retirasse a sua palavra. Meteu-se a procurar no Apocalipse os vestígios dessa palavra! Vós o julgastes louco; mas sabei que ele procurava o perdão para o seu génio.

   «Guilfredo, viestes até aqui para me pedirdes que resolva equações, que ascenda numa nuvem de chuva, que me banhe no fiorde, que ressurja em cisne. Se a ciência ou os milagres fossem o fim da humanidade, Moisés ter-vos-ia deixado o cálculo das fluxões; Jesus Cristo ter-vos-ia esclarecido as obscuridades das vossas ciências; os apóstolos ter-vos-iam dito donde é que saem essas manchas imensas de gás ou de metais em fusão, ligadas a núcleos que rodam para se solidificarem, procurando um lugar no éter, e que entram, por vezes, violentamente num sistema quando se combinam com outro astro, quando embatem contra ele e o quebram pelo choque, ou o destroem pela infiltração de gases mortais. Em lugar de vos chamar a viver em Deus, São Paulo ter-vos-ia explicado como é que a alimentação é o laço secreto de todas as criações e o laço evidente de todas as espécies animais. Hoje, o maior milagre seria o de encontrar o quadrado igual ao círculo, problema que julgais impossível, e que, sem dúvida, está resolvido na marcha dos mundos pela intercepção de qualquer linha de matemática, cuja equação é visível aos olhos dos espíritos que chegaram às esferas superiores.

   «Crede-me bem: os milagres dão-se dentro de nós. Assim se cumpriram os fenómenos naturais que os povos julgam sobrenaturais. Deus teria sido injusto se desse testemunho do seu poder só a algumas gerações, se o recusasse às outras. A vara de bronze pertence a todos. Nem Moisés, nem Jacob, nem Zoroastro, nem Paulo, nem Pitágoras, nem Swedenborg, nem os mais comuns mensageiros, nem os mais brilhantes profetas de Deus foram superiores ao que vós podeis ser. Somente... Há horas em que as nações têm fé. Se a ciência material devesse ser o escopo dos esforços humanos, vede-lo, as sociedades, esses grandes lares onde os homens se reuniram, não estariam a ser providencialmente dispersas? Se a civilização fosse o escopo da espécie, poderia a inteligência perecer? Seria puramente individual? A grandeza de todas as nações que foram grandes esteve baseada em excepções: cessou a excepção, decaiu a potência. Os videntes, os profetas, os mensageiros, não teriam desenvolvido mais a ciência do que a crença, não teriam apelado mais para os vossos cérebros do que para os vossos corações, se tal julgassem melhor. Todos vieram para reconduzir os povos pelo caminho de Deus; todos proclamaram a via-sacra quando vos diziam as simples palavras que convocam para o reino dos céus; todos cheios de amor e de fé, todos inspirados pela palavra que paira sobre as populações, que as une, anima e soergue, nunca a qualquer interesse humano.

   «Os vossos grandes génios, poetas, reis, sábios, desapareceram com as suas cidades, e o deserto cobriu-os com o seu manto de areia; ao passo que o nome desses bons pastores, ainda hoje abençoados, sobreviveram ao desastre. Não nos podemos, pois, entender em ponto algum. Estamos separados por abismos: vós estais do lado das trevas, e eu vivo na luz verídica. Era esta a palavra que queríeis que eu dissesse? Digo-a com alegria, porque ela pode alterar-vos. Sabei, pois: há ciência da matéria e há ciência do espírito. Onde vedes corpos, vejo eu forças que tendem umas para as outras, por um movimento gerador. Para mim, o carácter dos corpos é o índice dos seus princípios e o sinal das suas propriedades. Estes princípios engendram afinidades que vos escapam e que estão ligadas a centros. As diferentes espécies em que a vida está distribuída são fontes incessantes que têm mutual correspondência. A cada uma, a sua produção especial. O homem é efeito e causa; é alimentado, mas por sua vez alimenta. Denominando Deus o Criador, amesquinhai-l’O; é que Ele não criou, como vos parece, as plantas, os animais, os astros; poderia Ele proceder por diversos meios? Não actuou antes pela unidade de composição? De Deus provêm os princípios que deveriam desenvolver-se, segundo a sua lei geral, de acordo com os meios onde viessem a encontrar-se.

   «Portanto, uma só substância e o movimento; uma só planta, um só animal, mas relações contínuas. Com efeito, todas as afinidades estão ligadas por similitudes contíguas, e a vida dos mundos é atraída para centros, por uma aspiração faminta, tal como vós sois levados pela fome a vos alimentardes.

   «Vou dar-vos um exemplo das afinidades ligadas a similitudes, lei secundária sobre a qual assentam as criações do vosso pensamento. A música, arte celestial, é a aplicação deste princípio: não será ela um conjunto de sons harmonizados pelo número? Não será o som uma modificação do ar, comprimido, dilatado, repercutido? Conheceis a combinação do ar: azoto, oxigénio e carbono. Como não colheis som no vácuo, é claro que a música e a voz humana são o resultado de substâncias químicas organizadas que se põem em uníssono com as mesmas substâncias em vós preparadas pelo pensamento, coordenadas por meio da luz, a grande alimentadora do nosso globo. Pudestes já contemplar os montões de nitro depositados na neve, ver as descargas do raio, observar as plantas que aspiram no ar os metais que contêm, e não concluístes que é o sol que funde e distribui a essência subtil que tudo alimenta neste mundo? Como Swedenborg disse, a terra é um homem! As vossas ciências actuais, o que vos engrandece aos vossos próprios olhos, são misérias junto das luzes que jorram sobre os videntes. Cessai, cessai de me interrogar, os nossos idiomas são diferentes.

   «Se por momentos me servi do vosso, quis dar à vossa alma um clarão de fé, quis emprestar-vos uma ponta do meu manto, atrair-vos às sublimes regiões da oração. Competirá a Deus descer até junto de vós, ou sois vós que deveis ascender até Ele? Se a razão humana logo perde as suas forças ao querer demonstrar a existência de Deus, e nem sequer o consegue, não vos será evidente que careceis de outra via para chegardes ao conhecimento do divino? Tal via é a que temos dentro de nós. O vidente e o crente encontram em si próprios uns olhos mais penetrantes do que os que às coisas da terra se aplicam. Apercebem uma aurora. Quereis ouvir esta verdade? As vossas mais exactas ciências, as vossas mais ousadas meditações, as vossas clarezas mais belas não são mais do que nuvens. Acima delas é que está o Santuário donde brota a verdadeira luz».

 

Honoré de Balzac

 

 

 

 

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