Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

A Senda Moral dos Guerreiros no Ocidente e no Oriente

 

Introdução

Desde tempos antigos, imemoriais, o Homem procura um sentido para a sua vida. No seu interior ainda palpitam pequenas recordações de uma vida num mundo mais subtil, de uma vida fora do corpo físico naquele lugar que no mundo ocidental chamaram Paraíso, na Índia Nirvana e no Egipto Amenti.


De facto, o ser humano vive crucificado entre a sua natureza mortal e a sua natureza imortal, um pouco como Atlas, cuja figura apoia os seus pés na terra e, com as mãos, suporta o céu acima da sua cabeça.
Tendo a noção da existência da parte imperecedoura e espiritual que existia no seu interior, o Homem utilizou várias vias, ao longo da História, para tentar atingi-la. Uns seguiram a via da contemplação, tornando-se sábios, eremitas, monges ou sacerdotes.

Esta via implicava uma aniquilação do chamado eu inferior, sede dos desejos e instintos animais, das paixões e do egoísmo. Outros seguiram a via da acção, em que não era necessário o extermínio do ego inferior, mas sim um completo domínio sobre os diversos elementos que coabitam no interior do indivíduo, de modo a que estes não perturbassem o caminho evolutivo. Esse era o caminho dos filósofos, governantes, magistrados e guerreiros, no fundo, de todo o resto das pessoas que quisesse ascender um degrau no caminho espiritual.
Neste artigo iremos nos debruçar sobre a via do guerreiro.

No mundo moderno a imagem do guerreiro é um pouco mal vista, pois este é encarado como alguém cuja necessidade seria a de lutar e matar exercendo, consequentemente, violência sobre o seu entorno. Porém, a realidade não podia ser mais distante.

A via do guerreiro não implicava violência, ele não era um ser sanguinário que ambicionava participar em batalhas procurando oportunidades para exterminar vidas. Pelo contrário, era uma via onde existia a honra, a justiça, o amor, o valor ou a piedade. Tudo valores que faziam com que o verdadeiro guerreiro pelejasse pelo justo, pela defesa dos mais desfavorecidos, pela ordem ou por amor ao próximo.

Porém, o caminho não era fácil e exigia uma constante vigilância da parte daquele que tivesse escolhido esta via. Não era muito difícil alguém deixar-se embriagar pelo poder ou pelo prestígio que se poderia atingir e, assim, tornar-se um déspota ou um opressor, guiado pelo seu orgulho desmedido. Para evitar este tipo de queda várias eram as classes guerreiras, ocidentais e orientais, que tinham um código de ética, oral ou escrito, que servia de guia para a acção dos seus integrantes. Não iremos apresentar muitos exemplos, por razões de espaço, mas focaremos provavelmente as principais e mais conhecidas classes guerreiras.

 

Os Kchâtryas e a sua moral

Começamos a nossa viagem na Índia antiga, onde vamos encontrar os kchâtrya, a casta guerreira deste país do Oriente longínquo. Grande parte do ensinamento ético provém de uma obra que se encontra no interior de uma das grandes epopeias da Índia, o Mahabharata, e que é o Bhagavad-gita. Conceitos como a acção justa, o dever, o desapego ou a ausência de medo da morte são presentes na obra.

O livro inicia com a sua narração com um dos personagens, Samjaya, a narrar ao Rei cego, Dhritarashtra, os acontecimentos no campo de batalha de Kurushetra, perto da cidade onde este último governava – Hastinapura. Aí encontram-se posicionados dois exércitos, frente a frente. De um lado apresentam-se os filhos do Rei, os príncipes Kuravas, e do outro os seus primos, também príncipes, os Pandavas.

A história irá girar em torno do diálogo estabelecido entre um dos Pandavas, de seu nome Arjuna, e o seu Mestre Krishna, onde este último irá transmitir toda uma série de conhecimentos para esclarecer e motivar o seu discípulo, que entretanto tinha recusado entrar em combate ao ver alguns dos seus parentes, amigos e antigos mestres em ambos os exércitos. Depois de um breve diálogo explicando as razões do seu desalento, Arjuna larga o seu arco e deixa-se cair, abatido, no carro onde se encontrava, conduzido por Krishna, que actuava como seu cocheiro.

Perante esta atitude, o Mestre começa por dizer:

«É indigno de um nobre como tu deixar-se apanhar pelo desalento no momento da luta. Como é possível? Isto não te fará ganhar nem o céu nem a terra.»

É deste modo que Krishna começa a chamar a atenção do seu discípulo para o seu comportamento. Um kchâtrya não se deve deixar dominar pela falta de motivação, pela insegurança ou pela incerteza. Essa atitude não o levará a desempenhar o seu papel na terra, nem o fará ganhar o seu lugar no céu, onde somente os mais nobres e valentes encontram lugar.

De facto um kchâtrya nunca podia recusar um desafio e deixar de cumprir o seu dever, pois é próprio dele aceitar os desafios e alimentar-se deles; pois estes fortalecem e purificam a alma. E continua: «Sobrepõe-te a esse medíocre desalento e levanta-te como o fogo que queima tudo o que encontra à sua passagem.»

Arjuna deve compreender que tal como o fogo consome a matéria, transmutando-a em elementos mais subtis, também ele deve «queimar» o seu eu inferior utilizando-o como combustível para alimentar o Eu Superior, aquele que supera as limitações das emoções e dos sentidos, a chama imortal e imutável que todos os homens têm dentro de si.

Porém, Arjuna argumenta que não quer matar os seus parentes e amigos, ao qual Krishna responde nestes termos: «O Espírito imortal mora em todos os seres e a morte não o pode afectar. Repõe-te, pois, da tua tristeza. Por isto, pensa no teu dever e não duvides.» Aqui constatamos um dos pontos importantes da filosofia indiana: o Espírito é permanente, imutável e é a verdadeira identidade do Homem, o seu verdadeiro Ser. O corpo físico é somente o invólucro que ele utiliza para se manifestar na vida material.

Para a mentalidade oriental, não é o corpo que tem espírito, mas o espírito é que tem um corpo. É uma concepção totalmente oposta à ocidental, que tem uma visão mais materialista. Sendo assim, não existe razão para Arjuna não combater, pois nem flechas, nem espadas podem ferir ou matar o Ser, somente os corpos iriam ser atingidos, e como diz Krishna: «(…) tudo o que tem um princípio tem que ter um fim. A morte é o final certo para quem nasceu. Mas também é certo que quem morreu há-de renascer. Assim, não deverias afligir-te pelo inevitável.»

Para um guerreiro da Índia a morte era algo natural, enquadrado dentro da lei dos ciclos que regia toda a natureza. Ele tinha que aceitar a morte, não devia temê-la, aliás um kchâtrya tinha como princípio morrer em combate ou, quando chegasse o momento próprio para abandonar esta vida, ir para um bosque morrer sozinho. Para nenhum deles era aceitável morrer na cama, não era próprio da sua casta.

Outro ponto importante na sua filosofia tem a ver com o facto do kchâtrya ter que agir sem apego aos frutos da sua acção, ou seja, sem esperar recompensas nem elogios. Pegamos novamente nas sábias palavras do Mestre Krishna: «Concentra a tua mente no teu trabalho, mas nunca permitas que o teu coração se apegue aos resultados. Nunca trabalhes por amor à recompensa e realiza o teu trabalho com constância e regularidade.»

A verdadeira recompensa deve ser sempre a satisfação de ter efectuado a acção correctamente, de uma maneira eficiente. Como se pode chegar a uma acção eficiente, sem exagero, sem apego aos desejos? «Tudo é impulsionado à acção irremediavelmente pelas três forças da Natureza: as três Gunas», diz-nos Krishna. As três Gunas são as três características que tingem a matéria: Rajas, Tamas e Sattva. Tudo no mundo manifestado rege-se por estes elementos.

Rajas é a acção impulsiva, desmedida, a paixão; Tamas é a inércia, a inacção, a cegueira espiritual; finalmente, Sattva é o ponto de harmonia, de equilíbrio, a perfeição. O Homem, quando age umas vezes é mais tamásico outras mais rajásico, mas raramente está em Sattva. Para se chegar a este ponto de equilíbrio há que conseguir efectuar as acções com consciência e delas conseguir tirar experiências, para que, deste modo, no futuro, se possa efectuar o mesmo tipo de acção de maneira mais equilibrada.

Não se pode passar de Rajas directamente para Sattva, o mesmo acontece com Tamas. Como um pêndulo, que balança de um lado para outro e vai perdendo o balanço até parar no centro, também as acções do guerreiro devem-se harmonizar pouco a pouco, de modo a que ele não responda à impulsividade que existe no seu interior, pois pode ser fatal em batalha, nem se deixe ficar paralisado perante o medo ou a insegurança.

Este yoga da acção iria permitir o paulatino desenvolvimento da consciência, fazendo com que ela se elevasse cada vez mais e compreendesse a essência das coisas. É por não compreender qual é a verdadeira natureza daquilo que se apresenta à sua frente que Arjuna hesita, pois ainda permanece na ignorância.
Algo para o qual os kchâtryas tinham que estar preparados era a pressão para a qual podiam estar submetidos como guardiães das cidades.

De acordo com a sua própria natureza eles deviam ser o garante da segurança citadina em todos os seus planos, não somente na vertente física. Daí a importância do desenvolvimento interior, de modo a conseguirem captar elementos mais subtis. Um kchâtrya era incorruptível e o seu dever devia ser vivido de uma forma alegre e essa alegria era algo que estava presente no próprio carácter do guerreiro, pois ela permitia a libertação das tensões que ele sofria devido ao estado de constante vigilância ao qual devia estar votado.

É curioso constatar que muitas das características destes guerreiros da Índia, foram referidos por Platão na sua descrição do guardião ideal de um estado, na República. Será em território heleno que prosseguiremos a viagem, mas não propriamente em Atenas, mas mais a sul na sua eterna rival: Esparta.

 

Licurgo e a moral espartana

Ao falar-se de guerreiros e seus códigos de conduta seria incontornável a referência a uma sociedade que fez de todo o seu sistema legislativo e educativo uma via para o desenvolvimento de qualidade militares no homem: Esparta.

Esparta foi uma cidade que se desenvolveu nas margens do rio Eurotas, na região do Peloponeso, em território grego. Este local fora conquistado pelos antecessores dórios, que deram posteriormente origem aos espartanos. A grande fatia da população não era espartana, mas sim formada por hilotas e periecos.
Os hilotas eram os escravos dos espartanos e faziam todo o trabalho de manutenção das terras férteis, bem como outros serviços.

Os periecos possuíam mais autonomia do que os primeiros, mas também estavam subjugados pelos espartanos que formavam 1/5 da população do território. Devido ao seu número bastante inferior e tendo que enfrentar revoltas constantes dos povos submetidos, os espartanos desenvolveram uma capacidade militar rígida, disciplinada e de grande qualidade de modo a poderem manter o território.

Tudo foi sacrificado em benefício do desenvolvimento militar, o hoplita espartano, de facto, veio marcar uma nova era rompendo com os cânones típicos do guerreiro homérico. Este último apresentava-se no cenário da batalha no seu carro de guerra e escolhia o oponente contra quem queria combater. Podemos ter dois exemplos disso nos duelos entre Heitor e Aquiles e entre Diomedes e Eneias que aparecem na Ilíada.

Porém, em Esparta o individualismo era totalmente negado, o herói desaparece em benefício de um ideal colectivo.
Os espartanos combatiam formando uma falange de hoplitas e a força deste conjunto, e dos soldados individualmente, dependia da força de cada um e da solidariedade que os guerreiros tinham que ter com os outros companheiros, nomeadamente quando deslocavam o seu escudo para a esquerda quando sentiam o companheiro do lado em perigo.

Para se chegar a esse ponto, possuíam uma educação bastante rígida e um conjunto de normas que possibilitavam o desenvolvimento das capacidades necessárias para um espartiata (cidadão de Esparta).
Licurgo foi quem estabeleceu as bases de conduta de toda a sociedade espartana e é a ele que se devem as suas leis, que acabaram por perdurar durante cinco séculos.

Não existem muitos dados sobre este personagem enigmático, alguns historiadores localizam a sua vida no séc. VIII a. C. e outros no séc. V a. C. O importante, porém, foi o seu legado, a estrutura moral e de costumes que deixou, abrindo as portas para que Esparta pudesse se tornar uma das grandes potências do mundo antigo ocidental.

Acima de tudo, Licurgo, procurou fazer desaparecer do meio dos cidadãos quaisquer elementos que pudessem causar a discórdia e a desunião entre eles. Ele procurou implementar regras que possibilitassem uma união semelhante à que as abelhas têm, em que o bem geral está acima do individual. Analisemos algumas das suas regras.

Na educação ele instituiu que as crianças, a partir dos cinco anos, fossem educadas distribuídas em agéla, (1) onde se tornavam companheiros e partilhavam o tempo das refeições, da educação e mesmo de ócio. Essa educação era denominada de agogê (treino, adestramento). Nas letras somente tinham a instrução básica suficiente para poderem ser minimamente cultos, enquanto que a restante educação estava voltada para a total obediência, para resistir ao cansaço e para vencer nos combates.

À medida que a idade avançava mais rigorosos eram os exercícios: eram obrigados a andar descalços; a andar sem tochas à noite, de modo a perderem o medo do escuro; a viverem somente com um manto de lã durante o ano inteiro, com os corpos sebentos, pois não tomavam banho nem punham bálsamos, à excepção de uns poucos dias em que isso era per­mitido.

Dormiam juntos sobre leitos de palha que eles mesmo preparavam. Entre os 13 e os 18 anos ficavam sob as ordens de um jovem, já entrado na idade adulta e que era considerado um combatente, sendo estimulados a desenvolver as capacidades de astúcia e destreza. Ele pedia-lhes que trouxessem lenha e comida e eles tinham que o fazer roubando, quer invadindo os quintais, quer entrando nos banquetes comunitários dos adultos. Mas se fossem apanhados eram severamente punidos por terem sido negligentes e descuidados, mas não pelo acto de roubar.

Este espírito comunitário, de companheirismo, que era inculcado nas crianças tinha continuidade na idade adulta através das syssítia, que eram banquetes comunitários, nos quais todos os cidadãos espartanos deviam reunir-se para tomar as refeições. Esta foi uma medida implementada para extirpar o luxo e o valor do dinheiro, já que todos comiam do mesmo, sem distinção entre comida para pobres e para ricos. As rações eram iguais para todos, eram frugais e não havia grande requinte na sua preparação.

A presença na syssítia era obrigatória, e se alguém comia em casa e depois comparecia ao banquete e não tomava a sua refeição era recriminado por não ter tido temperança e por ter sido débil ao ponto de sucumbir ao luxo e não se ajustar ao regime comum de vida. Mesmo os governantes eram obrigados a comparecer e conta-se um episódio em que o rei Agys, depois de ter regressado de uma expedição, ter manifestado o desejo de almoçar com a sua esposa.

Para isso pediu que lhe levassem a refeição a casa, mas esta foi-lhe negada pelos polemarcas (2) . O rei ficou indignado e recusou-se a efectuar o sacrifício que devia na manhã seguinte, mas sofreu uma multa por isso. Pode-se constatar que na sociedade espartana não havia espaço para egoísmos e individualismos, todos tinham que passar pelo mesmo e com isso fomentava-se a união entre o grupo, pois em vez de ficarem em casa, deitados em liteiras luxuosas e deleitando-se com a comida e perdendo a forma física, aprendiam a conviver uns com os outros e a conhecerem-se melhor.

Licurgo não deixou escrito o seu conjunto de regras, procurando antes fazer com que os seus conterrâneos as vivessem no dia a dia, pois acreditava que assim é que elas podiam perdurar.
A simplicidade no modo de viver dos cidadãos era outro elemento preponderante no código licúrgico. Era referido lá que os tectos das casas deviam ser trabalhados com machados e as portas somente com serras, sem grandes acabamentos.

Esta medida ia contra o esbanjamento e o fausto, pois aquele que tivesse um tecto bem trabalhado, também iria querer ter uma porta bonita. A seguir viria uma cama com a respectiva roupa que estivesse à altura dos elementos anteriores e as restantes peças de mobiliário teriam que seguir o mesmo padrão. Isto ia fazer com que os cidadãos procurassem passar mais tempo em casa, no conforto, do que a cumprirem os seus de­ve­res como espartanos e cultivarem a rigidez, a simplicidade e o controlo, aspectos importantes para um guerreiro da Lacedemónia.

Licurgo também deu uma grande importância aos aspectos relacionados com os matrimónios. As mulheres também eram educadas no aspecto físico, sendo treinadas no manejo das armas, na corrida e nos lançamentos, cultivando com isso um corpo são que seria o receptáculo dos futuros cidadãos de Esparta. Fomentava-se também o controlo em relação ao relacionamento entre homens e mulheres. Uma das coisas que se fazia em Esparta era pôr as jovens a dançarem nuas diante dos jovens e com os adultos a assistirem.

Tinha como objectivo impor aos jovens o controlo sobre as suas paixões e desejos, sendo que aquele que falhasse, ao fazer uma observação ou algum movimento despropositado seria recriminado pelos adultos. Nas jovens tinha como objectivo estimular a beleza livre de lascívia e da sensualidade desmedida.
Um aspecto curioso em relação ao namoro é-nos relatado por Plutarco nas suas Vidas Paralelas, no capítulo onde conta a vida de Licurgo.

O encontro com a amada acontecia numa sala escura e depois de passarem algum tempo juntos, que não podia ser demasiado, o homem tinha que sair para passar a noite junto dos seus companheiros, mas entrava no dormitório com todo o cuidado para que ninguém notasse a sua chegada. Estes encontros iam-se sucedendo por vezes durante tanto tempo que alguns acabavam por se tornar pais sem nunca se terem ainda visto um ao outro. Refere Plutarco que esta não era somente uma forma de continência e de temperança, mas também uma forma de manter sempre um amor fresco e cheio de encanto, longe das relações que se poderiam tornar monótonas com o tempo.

Os espartanos eram bastante liberais nos matrimónios, era possível que um marido mais idoso, de uma mulher jovem, escolhesse um rapaz jovem que lhe agradasse e que este fecundasse a esposa sendo o filho que nascesse dessa relação adoptado pelo casal. Uma mulher fértil e prudente também poderia ter relações com outro homem, se o marido desta ficasse convencido de que os filhos que daí resultassem seriam de porte nobre.

De facto, Licurgo não considerava os filhos como uma propriedade dos pais mas sim património da cidade e, por isso, desejava que os cidadãos fossem descendentes dos melhores. O espartano não entendia como é que nas outras cidades gregas permitiam que os melhores cavalos fertilizassem as éguas, e com os homens não acontecia o mesmo, pois qualquer um podia ter filhos, mesmo que fosse idoso, doente ou tonto. Acima de tudo estava o interesse da cidade, e este somente seria suprido se houvesse cidadãos capazes e úteis para desempenhar as tarefas necessárias.

Além disso o facto de seguirem as leis naturais, o interesse da cidade e o domínio sobre os sentidos, evitava que o adultério e os problemas daí inerentes existissem em Esparta.
Em suma este era o guerreiro espartano: duro, viril, corajoso, nobre, disciplinado, astuto, anti-individualista, obediente aos superiores e fiel às leis da sua cidade.
Para concluirmos esta parte nada melhor do que um poema do grande ideólogo de Esparta, o poeta Tirteu onde são exaltadas as características de um espartano.

1     «Eu não lembraria um homem pela sua excelência (aretê) na corrida ou na luta,
       nem que tivesse dos Ciclopes a estatura e a força
       e vencesse na corrida o trácio Bóreas,
       nem que tivesse figura mais graciosa que Titono,

5     ou fosse mais rico do que Mídias e Ciniras,
       ou mais poderoso que Pélops, filho de Tântalo,
       ou que tivesse a eloquência dulcíssima de Adrasto
       ou possuísse toda a glória – se lhe faltasse a coragem valorosa.
       Pois não há homem valente (agathós) no combate,

10   se não suportar a visão da canificina sangrenta
       e não atacar, colocando-se de perto.
       É esta a excelência (aretê), este é entre os homens o maior galardão,
       e o mais belo que um jovem deve obter.
       É um bem comum para a cidade e todo o povo,

15   que um homem aguarde, de pés fincados, na primeira fila,
       encarniçado e esquecido da fuga vergonhosa,
       expondo a sua vida (psikhé) e ânimo (thymós) sofredor,
e, aproximando-se, inspire confiança com as suas palavras àquele que esteja ao seu lado.
       Um homem assim distingue-se no combate.

20   Em breve derrota as falanges furiosas dos inimigos,
       com o seu ardor detém as vagas da batalha.
       Se ele cair na primeira fila, vendendo cara a vida (thymós),
       deu glória à cidade, ao povo e ao pai,
       se for mal ferido, na frente, ao peito,

25   do escudo bombeado e da couraça.
       Choram igualmente os novos e os velhos,
       aflige-se a cidade com amarga saudade.
       O seu túmulo, os seus filhos serão notáveis entre os homens,
       bem como os filhos dos filhos, e toda a posteridade.

30   Jamais perecerá a sua nobre glória e o seu renome,
       mas mesmo debaixo da terra será imortal,
       aquele a quem perder o fogoso Ares, quando praticava altos feitos (aristeúein),
       e resistia, combatendo pela pátria e pelos filhos.
       Mas, se escapar ao destino (kér) da morte que deita por terra,

35   e alcançar, vitorioso, a glória fulgente da lança,
       honrá-lo-ão por igual os jovens e os anciãos,
       e, depois de gozar muitas delícias, descerá ao Hades.
       Quando envelhecer, distinguem-no os cidadãos, e ninguém,
       quererá prejudicá-lo, faltando ao respeito ou à justiça.

40   Todos por igual, novos, ou da sua idade, ou mais velhos,
       na sua terra, lhe cedem o lugar.
       E agora, que todos os homens tentem chegar aos píncaros
       desta excelência (aretê), sem desviar o ânimo (thymós), da guerra.» (Frag. 9 Diehl)

 

Os Samurais e o caminho da Honra

Voltando o nosso olhar novamente para o Oriente podemos vislumbrar aquele que, talvez, tenha sido o melhor exemplo do que era um guerreiro por excelência: o samurai.
Toda a manifestação é regida por duas polaridades, Yin e Yang, masculino e feminino. O homem como elemento integrante da Natureza não foge à regra. No exemplo espartano vemos que a vertente masculina é altamente desenvolvida: a força física, a virilidade, o espírito de conquista.

O samurai também possui estes elementos, mas complementa isso muito bem com aspectos relacionados com a polaridade feminina como a sensibilidade e a criatividade artística, tornando-o, talvez, o protótipo do ser humano ideal.

Longo é o historial destes guerreiros formidáveis que marcaram presença no Japão. O termo que os japoneses empregavam para designar os guerreiros era bushi (bu – militar; shi – samurai, cavalheiro). A palavra samurai era utilizada para aqueles que estivessem na posse de cargos militares. Etimologicamente provém de saburau e quer dizer «aquele que serve o seu senhor».

O aparecimento dos samurais deu-se no séc. VIII, quando os grandes proprietários de terras começaram a contratar guerreiros para protegerem o seu território. Com o tempo isso foi dando origem a classes militares que acabaram por rivalizar entre si. Nessa altura somente os mais fortes e decididos é que eram recrutados, o que originou uma classe militar de estirpe rude, viril e dotada de uma grande força. Para controlar as aspirações a postos de honra e aos privilégios dos vassalos, e para conseguir tornar o combate uma forma de luta limpa e nobre apareceu um conjunto de regras de conduta. Esse código era o bushido, literalmente «a via do guerreiro».

O bushido era formado por regras da mais alta moral e constitui, mais do que instruções para os guerreiros, um autêntico compêndio de como se comportar nas mais diversas situações, podendo ainda ser utilizado nos dias de hoje.

Os seus princípios são quatro:

       – Não deixar nada nem ninguém ultrapassar os Ideais em que se acredita.
       – Servir o Chefe Supremo.
       – Ser fiel aos pais.
       – Ser piedoso e sacrificar-se pelo bem dos demais.

Existem quatro votos que são impostos:

       – A morte.
       – A fidelidade.
       – A dignidade.
       – A prudência.

A força deste código não radica na sua letra mas na vivência que os samurais deviam ter das suas regras. Mais do que sabê-lo de cor, eles deviam sabê-lo no seu coração e expressá-lo nos seus actos.
Por exemplo, um samurai devia ter noção de que a sua espada servia proteger os mais débeis e não ser uma fonte de opressão, o guerreiro devia estar ao serviço da justiça.

O bushido foi algo que foi evoluindo com o tempo e teve várias influências que foram acrescentando alguns aspectos que o permitiram melhorar. O budismo contribuiu com a sua postura de submissão tranquila ao inevitável, o sangue frio perante o perigo, o desdém à vida e o amável acolhimento da morte. De facto aquilo que tinha de acontecer devia ser aceite sem grandes medos.

Daidoji Yuzan (1639-1730) refere n’ O Código do Samurai: «Um samurai deve sempre, acima de tudo, manter presente no seu espírito a inevitabilidade da morte, dia e noite, desde a manhã do Ano Novo, quando toma a primeira refeição, até à noite do último dia do ano (…) Se tiver plena consciência de tal facto, poderá viver de acordo com o caminho da lealdade e do dever filial, evitará um sem-número de males e adversidades, conservar-se-á livre da doença e da desgraça e gozará de uma vida longa.» (3)

Mas não se deve compreender mal e pensar que o samurai era alguém que honrava a morte quando, na realidade, ele rendia culto à própria vida, pois ao constatar que a vida era efémera vivi-a mais intensamente, procurando aproveitá-la da melhor maneira possível, dentro do caminho traçado. De facto, apesar de um samurai não ter medo de morrer a sua morte devia ser algo útil e não desperdiçada em rixas ou lutas fúteis.

O zen deu o seu cunho na forma como através da meditação o guerreiro procurava alcançar o transcendente. Através da sua prática percebe-se que existe um princípio que rege todas as coisas e que o bushi deve procurar estar em harmonia com ele. A influência do zen e a sua fusão com o shintoísmo inculcou no carácter do samurai a lealdade para com o soberano, a veneração aos antepassados e a piedade filial.
O confucionismo deixou as suas marcas nos princípios de relacionamento entre senhor e vassalo; pai e filho; marido e mulher; irmão mais velho e irmão mais novo.

Analisemos agora alguns dos ensinamentos do bushido. A rectidão era um dos preceitos mais importantes no código do samurai. A rectidão estava relacionada com o facto de poder tomar, sem hesitar, uma decisão relativa a uma certa maneira de se guiar e que se encontra de acordo com a razão: morrer quando se deve morrer, ferir quando se de­ve ferir. A rectidão seria o esqueleto que mantém o samurai, pois sem ela nem o talento nem o saber o podiam manter. Ela trazia consigo o Giri, ou seja, o Dever, que é agir de acordo com o nosso Ser interior. Tem o mesmo sentido que a Recta Acção, referida no Bhagavad Gita.

Em relação ao valor, este só era considerado uma virtude se estivesse ao serviço da Justiça. O príncipe de Mito define assim o verdadeiro valor: «Precipitar-se no mais duro da batalha e morrer é muito fácil; aquilo que é próprio do verdadeiro valor é viver quando é necessário viver e morrer quando é necessário morrer». Sendo assim, o samurai valoroso devia saber conter os seus impulsos, pois o verdadeiro valor somente era possível com sangue frio e com a presença tranquila do espírito.

Ao samurai, desde a sua infância, ensinavam as virtudes da força, do valor e da superação. Mas isso tinha que vir acompanhado de bom senso, pois a força não podia ser desperdiçada, por exemplo, para exibicionismos em que o ego era alimentado. Isso era considerado inapropriado. A sua educação aproximava-se da espartana no sentido de que realizavam práticas de fortalecimento do corpo, longas marchas sem comer, provas em que tinham que aprender a superar o cansaço, a fome, o medo e a dúvida. Tudo aspectos relacionados com o ego inferior e que impediam o brilho da verdadeira natureza do homem que era o Ser.

A bondade era outro dos elementos que ocupava os lugares cimeiros do espírito de um samurai. Foi a bondade que fez com que, durante o período feudal, o governo não degenerasse em militarismo, pois o governante sentia-se responsável, perante o céu, pelo seu povo. A bondade tinha que estar presente no coração de um samurai, pois isso permitia-lhe ser paternal em relação às pessoas que tinha que proteger. Como dizia Confúcio: «O mais alto dever de um condutor de homens é a bondade».

Segue-se, como outro ponto preponderante, a fidelidade. Não só a fidelidade ao soberano, mas também aos pais. Um bom samurai era fiel ao seu senhor até à morte, porém, isso não devia implicar a perda de honra. Por exemplo, um guerreiro que seguisse as fantasias loucas do seu senhor era considerado um ver­me que adulava como poucos, e que procurava o carinho do seu senhor com actos de criado servil.

A fidelidade não se via verdadeiramente nos momentos de mais abundância, mas nos momentos de dificuldade. Quando faz referência ao dever filial Dai­doji Yuzan refere que é fácil exercer a lealdade filial quando os pais são honrados, tratam bem os filhos e lhes deixam uma renda acima da média. Porém, quando os pais são aziagos, falam mal dos filhos nas costas destes, não oferecem carinho e bondade, aí sim pode ver-se a verdadeira lealdade filial.

Um samurai tinha que perceber que ele não tinha nascido do nada, mas que os responsáveis pela sua existência eram os progenitores. Era entre aqueles que melhor praticavam a lealdade filial que os grandes senhores deviam procurar os samurais, pois estes compreenderiam muito bem o que era a fidelidade e que sem isso a vida perdia muito do seu sentido.

Por último, falaremos da honra e da verdade para um samurai. A honra implicava uma consciência do valor e da dignidade pessoal. O homem de bem considerava que o atentado ao seu bom-nome era uma vergonha «semelhante a uma cicatriz sobre uma árvore, que o tempo em vez de apagar ainda faz aumentar».4 A honra não dependia de nada externo ao bushi, mas residia em todo aquele que cumprisse com o seu dever.


O sentimento de honra regia todos os actos; em combate, por exemplo, não se procurava alcançar a fortuna, mas a glória, um sentimento superior que mesmo na adversidade faz com que o homem se sinta em harmonia. De tal modo era importante a honra e o bom-nome que os jovens guerreiros saíam de casa e só voltavam quando conseguiam conquistar um nome, passando por duras provas de sofrimento físico e moral. A vida sem honra era inconcebível, e era preferível limpar o seu nome através do ritual do seppuku5 do que viver com ele manchado.

Sendo assim, a verdade era de extrema importância, pois para um samurai a mentira era um acto de cobardia. Ser bushi equivalia a ter uma palavra mais verídica do que a de um comerciante ou de um camponês, pois a palavra dada por um samurai era a sua garantia, e não podia faltar a ela. Uma história que aparece no Hagakure exemplifica isso: «Numa certa ocasião, pediram a Morooka Hikoemon que confirmasse com um juramento a verdade das suas palavras em relação a uma certa questão.

Hikoemon ofereceu a seguinte resposta:
‘A palavra de um samurai é mais firme do que o metal. Visto que me rejo por este princípio que outra coisa poderiam trazer às minhas palavras os deuses e os budas?’ Assim, o juramento foi anulado.»6 Era de tal modo importante a palavra que fazer um falso juramento ou soltar alguma imprecação acarretava a perda da honra.
Terminamos deixando uma pequena frase que resume tudo aquilo que é o espírito de um samurai.

«A vida de um samurai é como a flor de cerejeira, bonita e breve. Para ele, assim como para a flor, a morte seguia-se de forma natural, gloriosa.»

Como referimos no começo do nosso trabalho, muito ainda haveria para dizer sobre os guerreiros e as suas virtudes, desde o código de cavalaria na Idade Média, passando pelas regras da Legião Romana, bem como da moral da cavalaria espiritual islâmica, os Muridin, mas o espaço deste trabalho não permitia isso.
Em suma podemos dizer que o caminho do guerreiro, nas mais diversas culturas, era algo que implicava uma grande dedicação e força de vontade.

Era um caminho ascético, duro, que acarretava um distanciamento em relação aos prazeres mundanos e uma abertura cada vez maior para os planos mais elevados do ser humano; era um caminho de harmonização, onde as virtudes e as leis morais tinham um papel importante, para fazer com que eles não se tornassem déspotas ou tiranos.

O mais curioso é que o seu conjunto de regras ainda pode ser aplicado em tempos de paz, por um homem comum, pois o que definia um guerreiro não era a sua capacidade de lutar mas a importância que tinha para ele a guerra interior, a conquista de si próprio. Esse é algo que qualquer um de nós pode e deve aspirar, para estarmos cada vez mais em harmonia connosco e com aquilo que nos rodeia.


Cleto Saldanha

Notas:

 (1)Grupos de camaradas cujo objectivo era receberem uma formação militar.

 (2)Figura investida de poder militar.

 (3) Yuzan, Daidoji; O Código do Samurai, Coisas de Ler, Lisboa, 2003.


(4) Aforismo japonês.


(5) Ritual em que o samurai se matava cortando o próprio ventre segundo certas regras, sendo logo de seguida decapitado.


(6) Yamamoto, Yoshi; Hagakure, El Libro Oculto del Samurai, Ladosur, Buenos Aires, 2004.

Bibliografia:

• Saura, Javier; «El Bushido», in Revista Nueva Acrópolis n.º 90, Janeiro 1982.
• Yamamoto, Yosho; Hagakure, El Libro Oculto del Samurai, Ladosur, Buenos Aires, 2004.
• Yuzan, Daidoji; O Código do Samurai, Coisas de Ler, Lisboa, 2003.
• Plutarco; Vidas Paralelas.
• História de Esparta, in http//espartano.wordpress.com/category/historia-de-esparta
• El Bhagavad Gita, tradução de Julio Pardilla.

 


 

curso_filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Famalicão  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster