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A Saudade, Platão e Apolo

 

«A alma é imortal e muitas vezes renascida. (...) De maneira que não é de admirar, não só acerca da virtude, como também acerca de outras realidades, que lhe seja possível recordar-se daquelas coisas que já anteriormente soube. (...) Por isso, o investigar e o aprender são exclusivamente reminiscência.»

Platão, Ménon, 81c-d

«(...) mas na realidade os maiores bens vêm-nos através da loucura, que é sem dúvida um dom divino. De facto, é no estado de loucura que a profetisa de Delfos e as sacerdotisas de Dodona têm proporcionado à Hélade inúmeros benefícios, tanto de ordem privada como pública, enquanto, no seu bom senso, a coisa de pouca monta ou nada se reduz o que fazem.»

Platão, Fedro, 244a/b

 Fernando Pessoa mostrou sentir essa saudade cósmica já evocada por Camões no século XVI, num poema datado de 1914 e divulgado por António Quadros:

«Meu pensamento é um rio subterrâneo
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subterrâneo (...)

E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói-me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.»

Busto de Platão

 

A nosso ver, a relação entre esta saudade cósmica e a reminiscência platónica é evidente. No Fedro, Platão aprofunda a sua metafísica da reminiscência, relacionando-a claramente com as experiências dos mistérios da Antiguidade: «A tal acto chama-se reminiscência das realidades que outrora a nossa alma viu, quando seguia no cortejo de um deus, olhava de cima o que nós agora supomos existir e levantava a cabeça para o que realmente existe. Por isso é justo que apenas a inteligência do filósofo seja provida de asas, já que com a recordação está continuamente absorvido, na medida do possível, nas coisas a cuja contemplação um deus deve a sua divindade. Apenas o homem que fizer um recto uso de tais recordações, o perpetuamente iniciado em mistérios perfeitos, apenas esse se torna na realidade perfeito. Ao afastar-se, porém, dos interesses humanos e ao voltar-se para o que é divino, recebe os doestos do vulgo, como se fora um demente [tal como no mito da caverna]; (...).

A beleza, porém, era então visível no seu esplendor, quando, com um coro feliz – nós no séquito de Zeus, e outros na companhia de outro deus –, gozávamos de uma visão e de um espectáculo beatíficos e éramos iniciados nos mistérios que com justiça devemos considerar os mais santos; nós mesmos os celebrávamos, íntegros e imunes a todos os males que nos aguardavam no tempo posterior, contemplando após a iniciação as visões íntegras, simples, inabaláveis e bem-aventuradas, a uma luz pura, nós que éramos puros e sem a marca deste sepulcro, a que agora chamamos corpo, a envolver-nos, agarrado a nós como a concha de uma ostra.»(249c-250b)

A nosso ver, descendo das belas realidades metafísicas evocadas com mestria pelo filósofo divino da Academia, a saudade portuguesa, profundamente relacionada com o amor, é, também, a tradução em palavra de um estado de espírito muito comum nos portugueses (mas não exclusivo deles), e de uma sensibili­dade subtil, astral. O português entra facilmente em estado modificado de consciência, tem uma abertura (mesmo que inconsciente) para o invisível e para uma relação sensível-refinada e supra-sensível, seja com os objectos, seja com as pedras, plantas, animais ou humanos. Cria facilmente uma relação invisível com um qualquer lugar que lhe toque a alma, ou que seja depositário de uma história que adquira um valor mítico. Esta memória astral do lugar, da aldeia, das suas origens, está intimamente ligada às saudades sentidas por esse mesmo lugar. Esta sensibilidade panteísta, que proporciona contacto invisível com a vida interior dos lugares e dos seres vivos, constitui uma forte possibilidade de «inspiração espiritual». Ou seja, é fácil para o português sentir um mito, embeber-se no mito. O grande problema, desde há uns séculos a esta parte, está em harmonizar esse aspecto da «inspiração espiritual» com uma acção criadora que proporcione uma «expiração espiritual» a essa riqueza mítica. A saudade evoca o aspecto lunar da Religião (Yin), pelo que terá de ser compensada pelo aspecto solar (Yang). A ideia destes dois movimentos está presente na simbólica da tríade hindu. Vishnu é o deus compassivo, que distribui alimento espiritual, o deus conservador, que vela pelo que é eterno. Shiva representa a acção ígnea, o destruidor das formas ancilosadas e construtor das novas formas. Vive por isso no «centro do mundo», onde o arúpico se transforma em rúpico, e o rúpico se dissolve no arúpico. Por essa razão, Fernando Pessoa propôs: «Criemos um Imperialismo andrógino, reunidor das qualidades masculinas e femininas: imperialismo que seja cheio de todas as subtilezas do domínio feminino e de todas as forças e estruturações do domínio masculino.

Pintura representando o deus grego Apolo

Realizemos Apolo espiritualmente.» A verdade é que a essência Yang da espiritualidade portuguesa desvaneceu-se abruptamente no século XVI. Nas primeiras dinastias, o culto a Santiago, a S. Jorge, e, sobretudo, ao arcanjo São Miguel (D. Afonso Henriques era-lhe devoto) era for­tíssimo, sendo todos eles, miticamente, heróis solares por excelência. Depois, é simbolicamente representativo que, a partir do século XVII, Nª. Srª. da Conceição ficasse a ser a padroeira de Portugal. Com esta perda da espiritualidade guerreira-solar da história portuguesa, a tradição lusitana ficou amputada. No entanto, desta mística e mítica guerreira-solar ficaram resquícios em muitas tradições portuguesas que, amiúde e curiosamente, aparecem figuradas no calendário «profano» ligado a celebrações da Igreja oficial, como por exemplo, a luta ritual travada entre S. Jorge e a Coca, realizada em Monsanto após as cerimónias religioso-oficiais do Corpo de Deus. Também encontramos esses resquícios nas festas dos rapazes de Trás-os-Montes, nas danças dos pauliteiros ou dos «mouros» da bugiada, na tradição eminentemente guerreira dos Zés-Pereiras e nos heróis salvadores de muitas lendas portuguesas. O desvanecimento deste aspecto mais activo, solar, yang, da religiosidade portuguesa constitui um fenómeno ao qual não se tem dado a devida importância. Por esta razão, um jovem de 24 anos chamado José de Almada Negreiros, que, com toda a sua energia peculiar apela ao «heroísmo quotidiano», vê a saudade como um estado de espírito decadente: «Porque o sentimento-síntese do povo português é a saudade e a saudade é uma nostalgia mórbida de temperamentos esgotados e doentes. O fado, manifestação popular da arte nacional, traduz apenas esse sentimento-síntese. A saudade prejudica a raça tanto no seu sentido atávico porque é decadência, como pelo seu sentido adquirido definha e estiola.» A saudade, tamásica, definha realmente se não é compensada com acção criadora. Aquele que se alimenta da carga poderosa que os mitos arquetípicos contêm, mas que não digere esse alimento, não o assimila no seu projecto de vida de um modo intrínseco, global no ser, o que se reflecte depois numa dinâmica de esforços continuados. Quem não efectua essa assimilação, essa «expiração espiritual», dificilmente poderá alargar os seus horizontes de consciência, permanecerá um «eleito» esperando eternamente pelo «messias redentor». Os cavaleiros do Graal, descendentes directos daquela mística céltica e solar, não ficaram passivos, aguardando a visita do Santo Cálice. Partiram em demanda do desconhecido, passaram provas, mostraram a sua heroicidade, a sua bravura, a sua coragem na demanda de um objectivo espiritual; tinham saudade do Graal mas não ficaram inactivos. Era esta mística que inflamava os portugueses do tempo da formação de Portugal e os seus seguidores, que se aventuraram pelos mares, pelo desconhecido, pelo território do medo, como era considerado na Idade Média. A tradição solar é um elemento estruturante da cultura mítica portuguesa que não pode ser escamoteado, constituindo um pilar adormecido.

Paulo Loução

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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