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PLATÃO – O FILÓSOFO DOS MISTÉRIOS

 

«Na realidade os maiores bens vêm-nos por intermédio
da loucura, que é sem dúvida um dom divino.»

Platão, in Fedro 244a

 

«Toda a história da filosofia ocidental resume-se a uma série de notas de rodapé à obra de Platão.»

Alfred North Whitehead

 

Jean-Pierre Vernant na sua obra As Origens do Pensamento Grego afirma que a invasão da Hélade pelos dórios marcou uma ruptura com a Grécia tradicional da civilização micénica. Esta ruptura deu origem, por sua vez, à magnífica aventura filosófica dos gregos que influenciou todo o Ocidente nos últimos 2500 anos e cujo ciclo está hoje a esgotar-se. O antropólogo Fernand Schwarz reiterou: «A invasão da Hélade pelos dórios, entre os séculos XII e VIII a. C., provocou a desintegração das crenças religiosas primitivas que o universo micénico soubera preservar, mantendo um equilíbrio justo entre os poderes matriciais da Terra e o espírito fecundante do Céu.», ou seja, houve um conhecimento mágico e simbólico que alimentou as civilizações cretense e micénica que se foi perdendo com o advento do racionalismo da Grécia Clássica.

PlatãoParadoxalmente, Platão, o pai da filosofia ocidental, foi o filósofo que, percepcionando as consequências da perda dessa sabedoria primitiva, incorpora-a no seu sistema de pensamento. Como escreveu Mircea Eliade n’O Mito do Eterno Retorno: «Poderíamos então dizer que esta ontologia ‘primitiva’ tem uma estrutura platónica, e Platão poderia ser considerado neste caso como o filósofo por excelência da ‘mentalidade primitiva’, isto é, como o pensador que conseguiu valorizar filosoficamente os modos de existência e de comportamento da humanidade arcaica. Claro que a ‘originalidade’ do seu génio filosófico não fica de modo nenhum diminuída; porque o grande mérito de Platão continua a ser o seu esforço em justificar teoricamente essa visão da humanidade arcaica, através dos meios dialécticos que a espiritualidade da sua época lhe podia fornecer.» Não esqueçamos que o substantivo grego arkhé, étimo do lexema arcaico, significa «origem» e «princípio», e, como termo eclesiástico, os «poderes» ou «potências celestes». Está presente na etimologia do termo arquétipo (arkhé+týpos), significando týpos, «imagem», «modelo», «padrão» – arquétipo é assim o «modelo das origens», a «imagem primordial», o «padrão primitivo». Portanto, o homem arcaico, verdadeiramente, é aquele que mantém a comunicação com os arquétipos, simbolicamente mantém a comunicação entre o Céu e a Terra. Platão, no Fedro, exterioriza a sua nostalgia pela era arcaica onde o homem tinha uma relação muito directa com a Natureza invisível: «(…) no santuário de Zeus em Dodona, os primeiros oráculos saíram de um carvalho. É que aos homens de outrora (…) na sua simplicidade bastava-lhes ouvir um carvalho e uma rocha, desde que proferissem verdades.» Também no Fedro e seguindo esta visão arcaica do cosmos, o filósofo da academia divulga o mito de Thot (a divindade da sabedoria dos antigos egípcios, corresponde ao Hermes grego e ao Mercúrio romano) como deus maldito, dado que este inventa a escrita e isso será um grande mal para a humanidade, porque fará com que os homens percam a memória e a qualidade de ler directamente no Livro da Natureza, quer dizer, segundo esta concepção do mundo a escrita constitui uma degradação da percepção espiritual da humanidade – por esta mesma razão os druidas proibiam a escrita aos seus discípulos celtas.

Platão, tal como Pitágoras anteriormente, viajou, depois da morte de Sócrates, ao Egipto, onde deve ter tido acesso aos grandes mistérios da velha terra de Khem. Esta tradição está confirmada por Plutarco, Diodoro de Sicília e Diógenes de Laércio.

Platão foi o filósofo que, entendendo o seu tempo – no qual o paradigma da transmissão pela escrita começa a ganhar grande importânciaplatão_2 – e com uma visão de futuro extraordinária – ainda no século XX a sua filosofia influenciou homens como Jung e Heisenberg – incorpora no seu sistema filosófico uma síntese da antiga sabedoria arcaico-mistérica. Quando não o pode fazer através da razão (logoi) recorre ao mito (mythos), ou seja, ao pensamento simbólico para transmitir o conhecimento esotérico por imagens (imaginação: o órgão da alma que estabelece a comunicação entre o Céu e a Terra) e de forma velada à razão (kama-manas dos hindus). Aristóteles, por seu lado fica condicionado à razão. Esta é uma questão fulcral da história do pensamento do Ocidente que poucos estudiosos têm compreendido. Giovanne Reale, catedrático de História de Filosofia Antiga da Universidade Católica de Milão, é uma excepção. Na sua obra «Platão – Em busca da Sabedoria Secreta» afirma: «O erro hermenêutico mais grave que muitos cometem na interpretação da obra de Platão consiste em realizar sofisticadas tentativas de desmistificação dos seus mitos a fim de transformá-los em puro logos, ou em procurar colocá-los entre parêntesis, quando não os eliminam de forma sistemática em nome de uma compreensão considerada ‘científica’.»

A MEMÓRIA E A REMINISCÊNCIA PLATÓNICA

rio_lethA memória estava divinizada como Mnemosine, a mãe das Musas. O seu oposto, o esquecimento, era visto como equivalente à ignorância que gera a mentira. A verdade, alétheia, relaciona-se etimologicamente com o não-esquecimento – a-léthe. No livro X da República, Platão cria o mito de Er para divulgar a teoria da reencarnação (ou metempsicose) – que deve ter aprendido nos mistérios egípcios – fazendo referência ao rio Léthe, o rio do esquecimento onde as almas se banham antes de reencarnar. Aquelas que bebem muita água no rio Léthe ficam mais esquecidas dos mundos divinos e, portanto, mais ignorantes. Alétheia era também o nome de um ornamento em safira usado pelo sumo sacerdote egípcio (Diodoro, I, 48 e 75). O Dighanikaya (I, 19-22) da Índia afirma que os deuses caem do céu quando «a memória lhes falta ou se torna confusa»; pelo contrário, os Deuses que não se esquecem são imutáveis e eternos. Mas é claro que, aqui, nos referimos à memória da alma, ou seja, à reminiscência platónica, recordações do ser interior de quando viveu no mundo celeste: «A tal acto chama-se reminiscência das realidades que outrora a nossa alma viu, quando seguia no cortejo de um deus, olhava de cima o que nós agora supomos existir e levantava a cabeça para o que realmente existe. (…) Apenas o homem que fizer um recto uso de tais recordações, o perpetuamente iniciado nos mistérios perfeitos, apenas esse se torna na realidade perfeito. (…) A beleza, porém, era então visível no seu esplendor, quando, com um coro feliz – nós no séquito de Zeus, e outros na companhia de outro deus –, gozávamos de uma visão e de um espectáculo beatíficos e éramos iniciados nos mistérios que com justiça devemos considerar os mais santos.» (Fedro 249c-250c) É também evidente que este texto pode ser visto como uma descrição velada das experiências epópticas dos mistérios.

 

Paulo Alexandre Loução
Investigador e Escritor


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