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A Pedagogia Socrática: A Ironia

 

A sabedoria de Sócrates acciona-se pela virtude. Ela conduz à felicidade – eudaimonia – que é a alegria do sábio, a de praticar o bem, «de Estar bem». Esta felicidade engendra o verdadeiro amor, a dádiva sem procurar a recompensa. É uma sabedoria activa que não se pode transmitir.

Tudo isto, com efeito, leva-nos aos limites do que pode ser transmitido pela linguagem, através do diálogo. Como, por exemplo, compreender o que é a justiça se não a praticamos? Sócrates tem uma sabedoria que pode praticar, mas não transmitir. A decisão individual de pôr este saber em prática é imperativa para fazê-la emergir em si pois apenas se adquire a partir do interior.

Enquanto um quadro intelectual, uma linha de raciocínio se podem transmitir, existe um certo número de conhecimentos universais atemporais que não são transmissíveis. Com efeito, para que a apropriação da ideia seja feita e que não seja apenas alguma coisa dita por alguém, seja qual for a autoridade do outro, é indispensável redescobri-la em si.

Relação Mestre Discípulo


A verdadeira relação mestre/discípulo apenas se estabelece quando o discípulo redescobre em si próprio o que disse o mestre. Enquanto o discípulo não o fizer seu, é impossível qualquer avanço. O mestre apenas pode dar o enquadramento. Ele sabe que a sua função é preparar, abrir para um tal procedimento. É por isso que o método consiste sempre em pôr em causa o próprio indíviduo: tomará ele ou não a resolução de viver em consciência, segundo o que entendeu? «A linguagem directa é impotente na comunicação da experiência do existir, a consciência autêntica do ser, a seriedade da vivência, a solidão da decisão»(1). A maiêutica é assunto de cada um. É por isso, como diz Cícero, «a discussão praticada por Sócrates era a de recusar os outros raciocínios, não afirmando nada ele próprio.»



Sócrates utiliza a ironia, não para fazer troça das pessoas ou esconder seja o que for, mas porque a ironia é a única figura retórica e pedagógica que permite, por uma parte, o despertar do discípulo e leva-o, por outra parte, a encontrar resposta em si próprio. «A ironia socrática exprime tensão entre a ignorância (ou seja a impossibilidade de exprimir através de palavras) e a experiência directa do desconhecido, ou seja, da existência do homem justo, cuja justiça atinge o nível divino.»(2)

O desafio consiste em passar da obscuridade da ignorância, que é a ausência de verdade, à obscuridade do desconhecido que esconde uma verdade. O interlocutor, purificando-se da ignorância, faz emergir em si próprio uma verdadeira transcendência, ou sabedoria. A função da ironia é permitir esta passagem.


A máscara de Sócrates

Máscara


Através da ironia, Sócrates descobre a sombra do outro – o que não deixa de nos fazer pensar em G. Jung – pondo-a em cena. Cria uma projecção do Eu do seu interlocutor. Faz aparecer o que o outro não quer ver em si próprio: é a máscara de Sócrates. Age como um espelho que envia ao outro a sua imagem, as suas questões, os seus defeitos, a sua natureza. Ao ponto que, lidar com ele era desconfortável. Ele próprio não se entrega pois o seu objectivo é que o outro se entregue. Quando deixamos cair a nossa própria máscara, deixamos de nos proteger, e a de Sócrates também cai e encontramos o verdadeiro Sócrates.

O interlocutor por sua vez projecta o seu problema em Sócrates, até ao momento em que se apercebe que tudo aquilo lhe diz respeito. Quando se apercebe que está perante a sua própria imagem, toma consciência da sua ignorância. Sócrates age por via indirecta, pela metáfora, pelo símbolo, pela analogia, pela imagem. Obriga o seu interlocutor a utilizar a sua imaginação criativa, simbólica. «Trata-se de fazer sentir ao leitor o seu erro, não refutando-o directamente, mas expondo-o de tal modo a fazer surgir claramente o seu absurdo.»(3) Isto evoca o que diz Nietzsche da pedagogia. «Um educador nunca diz o que pensa, mas sempre e exclusivamente o que pensa de uma coisa quanto à sua utilidade para aquele que está a educar.»(4)



Espelho

 

Compreendemos que a ironia de Sócrates é uma ironia amorosa. Pratica a técnica do desmoronamento. Sócrates interessa-se por alguém, coloca-lhe questões, por amor. O outro, desconcertado, pergunta-se o que é que lhe está a acontecer, e a sua primeira reacção é uma forma de rejeição. Mas, paradoxalmente, num determinado momento do diálogo e do questionamento, tocado pelo que diz Sócrates, torna-se interessado. O amado converte-se em amante. É o momento escolhido por Sócrates para se desinteressar do seu interlocutor, para que este desvie o seu interesse para si próprio e venha a encontrar a resposta no seu interior e não em Sócrates. Ele partilha então a verdade com Sócrates, a alegria de tê-la encontrado e de partilhá-la.

Sócrates sabe que não pode transmitir nada, mas que pode despertar o outro para o conhecimento que se imiscuiu nele. Desperta o seu interlocutor para que este venha a desejar que Sócrates lhe comunique o seu conhecimento ou saber. Mas Sócrates leva-o bem para além disso: leva-o a encontrar a sabedoria em si próprio, nem que tenha de fazê-lo passar por momentos de desespero.

Máscara 2


Podemos assim dizer que Sócrates se mascara, ou seja, que desempenha uma função, como o faz um actor de teatro grego que tem a máscara da sua personagem. No caso de Sócrates, esta máscara é a do seu interlocutor. Quando este último o reconhece como tal, ele liberta-se dele e pode ser verdadeiramente ele próprio. O derrubamento que se produz a seguir à troca dialéctica é extraordinário. Ao tirar a sua própria máscara, com efeito, o discípulo acede à dimensão oculta de Sócrates e contempla a sua beleza interior, ou ainda a do Deus que o habita. É nisso que entendemos a comparação de Alcibíades quando compara Sócrates às caixas em forma de Sileno que serviam de escrínios às estatuetas dos deuses.

Temos por vezes uma tal soberba que nos colocamos num nível que nos impede de partir em busca da sabedoria e do conhecimento. Sócrates simula a ignorância, faz de ingénuo, coloca-se a um nível inferior ao do seu interlocutor para que este compreenda o seu verdadeiro nível. Para que ele se aperceba do seu egocentrismo, compreenda a que ponto se sobrestimava e tome consciência da sua ignorância. Então invertem-se as posições: o interlocutor situa-se ao nível que lhe corresponde, o da ignorância. É o momento em que a ironia conduz à perturbação, comparada à perturbação amorosa. Isso pode ser resolvido pela pena ou pela rejeição. Ou então, pelo contrário, a tomada de consciência que a perturbação provoca dá origem à humildade necessária para avançar e traz a conversão filosófica que constitui a primeira etapa do método socrático.

Evidenciando-o, Sócrates permite trazer à luz do dia, no outro, alguma coisa de imiscuído, se este último o assumir quando o constatar. Fica então liberto e encontra uma nova confiança que já não é a confiança na sua própria superioridade, mas na existência da verdade e na sua própria capacidade de descobri-la, no seu mestre interior e já não num mestre exterior.

Caminhos

O jogo irónico da máscara de Sócrates é indispensável para se poder apropriar a verdade. Pois esta apropriação raramente se faz por via directa. Crer que basta dizer as coisas para que sejam integradas é uma utopia. Ouvimos com frequência «Não compreendo, eu já o tinha avisado, ele sabia!...» trata-se, não de calar a verdade, mas de saber apresentá-la de uma forma que dê ao outro a coragem de fazer o necessário para se apropriar dela. A assimilação é um processo complexo. E se a pedagogia da verdade não fosse uma arte tão subtil, os Sócrates seriam uma legião!


O choque da ironia

A ironia – eironiea – surge nos Gregos como uma atitude psicológica segunda a qual o indivíduo procura parecer inferior ao que é, faz-se passar por alguém vulgar, até mesmo superficial, finge que dá razão ao seu interlocutor. Na realidade, como não tem nenhuma intenção negativa Sócrates transforma a ironia habitual. A sua não tem nada que ver com o engano, a hipocrisia ou a maldade: ela permite a compreensão de algo. Provoca um choque, um questionamento. Leva o interlocutor a reflectir em alguma coisa na qual ainda não tinha pensado.

Como o demonstrou Grégory Vlastos, Sócrates deita por terra a fórmula retórica da ironia na figura da linguagem que formulará Quintiliano vários séculos mais tarde, latinizando a ironia – ironia. Figura pela qual «é preciso ouvir o contrário do que é dito». Como ainda dirá Webster’s no século XVIII, «a ironia consiste em utilizar termos para exprimir outra coisa que o seu sentido literal e muito particularmente o seu oposto.» A ironia é um meio de manejar as contradições.

Máscara 3

«Sócrates desdobra-se: existe por um lado o Sócrates que sabe antecipadamente como vai acabar a discussão, mas há o outro Sócrates que vai fazer o caminho, todo o caminho dialéctico com o seu interlocutor. Este último não sabe onde Sócrates o leva. Aqui está a ironia.»(5)

O método é o seguinte: toma como ponto de partida a posição do seu interlocutor; fá-lo admitir aos poucos todas as consequências dessa posição; solicita perpetuamente o seu acordo que obtém submetendo-o a exigências racionais. É encadeando os acordos obtidos que vai demonstrar a contradição contida na posição de partida.

O interlocutor apercebe-se então que não sabe verdadeiramente porque age. Mesmo que não tenha compreendido nada, o importante é que o acompanhamento de Sócrates o tenha levado a experimentar o que é a actividade do espírito: a consciência.


A ironia complexa

A diferença dos sofistas que utilizam a ironia simples, na qual o significado não corresponde ao que é dito, Sócrates utiliza a ironia «complexa». «O que é dito corresponde e ao mesmo tempo não corresponde ao que é significado. O conteúdo aparente deve ser entendido como verdadeiro num sentido e falso noutro»(6). Isso permite a Sócrates manejar as contradições aparentes presentes na realidade que é, para si, verdadeira e falsa ao mesmo tempo. A ironia supõe um esforço de compreensão e interpretação da parte daquele que ouve.

Sócrates transforma a ironia no sentido habitual retirando-lhe a falta de sinceridade. «O facto de que Sócrates afirma nada ensinar... Se considerarmos o sentido banal da palavra, «ensinar» refere-se à simples transferência de saber entre o espírito do professor e o do aluno, e neste caso Sócrates quer dizer o que diz: não pratica este tipo de ensino. Mas, no sentido que queria dar a «ensinar», a palavra designa o procedimento que consiste em envolver na discussão refutativa os candidatos à aprendizagem, para torná-los conscientes da sua ignorância e capazes a seguir de descobrirem por eles próprios a verdade que o professor não quis revelar. Neste sentido da palavra, Sócrates reconheceria de boa vontade que ensina, que ele é mesmo o único verdadeiro professor. Quando dialoga com os seus discípulos, o efeito desejado – e efectivamente obtido – é suscitar e apoiar o seu esforço de melhoramento moral.»(7)

Sócrates

Por este via de ensino que é a ironia, Sócrates é, não um guru, mas um acompanhador, associado à busca de outrem. Aqueles que o acusam de ter abusado deles não foram, na realidade, abusados pelo que ele disse, mas pela interpretação que fizeram das suas palavras. Alcibíades constitui disso o exemplo mais ilustrativo: pensava que Sócrates o amava de amor físico, pela beleza do seu corpo, enquanto Sócrates apenas amava a sua alma.

«É possível compreender o eros socrático como uma espécie de ironia complexa comparável com a que lhe atribui Alcibíades... quando diz que ele (Sócrates) «ignora tudo e não sabe nada». Sustentando «que não sabe nada», Sócrates quer dizer e ao mesmo tempo não quer dizer o que diz; do mesmo modo, falando da sua atracção erótica pelos belos jovens, ele quer dizer e não quer dizer o que diz... No sentido banal em que entendemos o amor pederasta, Sócrates não sente amor por Alcibíades, nem por nenhum dos jovens rapazes que persegue. E, no entanto, ele ama-os, no sentido que o verbo amar (eran) – pode tomar no contexto teórico e prático do eros socrático: a sua beleza física dá um especial sabor à troca afectuosa que mantém com os seus espíritos... sim, Alcibíades foi de facto abusado, senão não teria arquitectado este plano delirante (de se querer deitar com Sócrates, sem sucesso), não se teria obstinado tanto tempo a oferecer os seus charmes para obter a sabedoria, enquanto Sócrates se teria obstinadamente recusado a morder o anzol. Sim, foi de facto abusado, mas por quem? Não por Sócrates, mas por ele próprio. Acreditou no que acreditou porque quis acreditar. Quando Sócrates diz «não»à sua proposta, fá-lo com o vigor de um mestre zen quando dá uma bastonada na cabeça de um discípulo que faz uma pergunta idiota»(8).

Espelho

Mesmo sabendo o que o seu discípulo tinha em mente, ele deixou-o fazer, para que Alcibíades pudesse descobrir sozinho a verdade... Sócrates deixa sempre a escolha, mesmo que seja em direcção ao erro. Mesmo que para ele seja um sofrimento, porque a sua preocupação maior está ligada ao facto de, se a finalidade para cada um é aceder à verdade, ela apenas pode ser alcançada por si próprio, para si próprio. Mesmo que ela desiluda em relação às expectativas, mesmo que isso implique a partida daqueles cujo orgulho não suporta a perspectiva de ser enganado.

A ambiguidade da ironia complexa, que condicionada a encontrar o sentido, liberta do raciocínio racional. Ela abre o espaço e permite o livre arbítrio e a autodeterminação. Ela permite às intuições e aos sentimentos superiores exercerem o seu poder fecundante; à vida de se integrar na via da transformação. Longe de qualquer outra forma de arregimentamento, ela abre um campo cada vez mais vasto. Sócrates procura a autonomia moral de cada um. A sua sabedoria não é nada para quem não a consegue viver por si próprio, pois apenas a autonomia é a garantia de um conhecimento vivo.

Escultura

Fernando Schwarz

1. Pierre Hadot, Eloge de Socrate, p. 34.
2. Friedländer, citado por Pierre Hadot, p. 38.
3. Pierre Hadot, Idem, p. 18.
4. Idem, p. 19.
5. Idem, p. 26.
6. Gregory Vlastos, op. cit., p. 50.
7. Idem, p. 52.
8. Idem, p. 63/64.


 

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