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As origens ocultas dos Lusitanos – Características e História - Parte I -

“Quanto mais intenso for o conhecimento da história, tanto mais firme será a consciência da nacionalidade”.
  J. Leite de Vanconcelos

Introdução

ViriatoSob a designação de Península Ibérica entende-se o território situado aquém dos Pirinéus, no extremo ocidental da Europa. Este vasto território foi berço de inúmeras culturas desde, pelo menos, a proto-história (segundo a significação que se dá actualmente a este termo), e de uma civilização: referimo-nos à ainda obscura e enigmática civilização de Tartessos. Alguns investigadores, apoiados nas ciências actuais e nas fontes dos autores antigos, na sua maioria romanos, têm feito importantes estudos sobre os povos ibéricos. Não obstante, se bem que não abundem os dados sobre a Lusitânia, esta tem sido quase sempre tratada no contexto algo genérico de “povos de Espanha”. São raras ou inexistentes as obras que versam com alguma profundidade sobre a Lusitânia como fenómeno particular dentre os povos ibéricos. Esta lacuna, quanto a nós, parece ser demasiado grave para não se pôr cobro a ela. E isto por várias razões, das quais expomos as que se nos revelam mais significativas:

O facto de haver um conjunto de tribos que, apesar dos seus particularismos locais, conformavam uma sólida identidade nacional que os distinguia dos demais povos peninsulares.

A realidade desta identidade nacional prova-o o facto do território actual de Portugal estar compreendido quase na sua totalidade no da Lusitânia.

Uma boa parte das feições do carácter do português encontrava-se já nas tribos da Lusitânia. Os costumes, lendas, tradições do povo acham-se em estreita relação com o passado.

A riqueza das suas tradições e a existência de um peculiar simbolismo mágico-religioso que, por si só justifica amplamente um estudo particular.

Iremos então traçar um quadro, necessariamente resumido por razões de espaço, daquilo que se nos afigura mais relevante para uma aproximação à maneira do pensar, de sentir e de agir deste povo ibérico que desde tempos remotos é conhecido por LUSITANO.

As origens

Lusitânia era o nome dado na generalidade, ao território situado, segundo Plínio, no extremo Oeste da Península Ibérica e que começava a Norte depois do Durius. A palavra LUSITÂNIA vem de LUSITANI. Quanto à origem deste nome, diversas tem sido as hipóteses emitidas. Segundo Varrão e Plínio provém de Lusus ou Lysa, hipótese igualmente defendida por Schúlten, segundo o qual a raiz Lus era bastante vulgar em território celta. Martins Sarmento é de opinião diferente já que o supõe deduzido de LIUSETANI, por sua vez tirado de liguses, antiga forma de ligures. A hipótese defendida por José Leite de Vasconcelos é a que busca a etimologia de Lusitani em Lusones, nome de uma tribo celtibérica de que falam Estrabão e Appiano.
           
Os Lusitanos, povo de raiz autóctone, formaram com os celtas, mediante cruzamentos, um conjunto de tribos com características e língua celtibera após as invasões celtas e ibéricas, no início da Idade do Ferro.

Geografia

Estrabão (1) situa a Lusitânia primitiva a partir do Tejo para cima até ao extremo NO da Península. Segundo o mesmo autor, o Oeste da Ibéria constava de três grandes regiões, fisicamente bem determinadas: O Cinetium (Algarve), a Mesopotâmia (entre Tejo e Guadiana) e a Lusitânia primitiva (entre o Tejo e o extremo Norte da Galiza) que se decompunha em duas vastas áreas: comarca dentre Tejo e Douro e a Galiza ou Callaecia.

A Lusitânia cinde-se em duas zonas distintas: a do Sul, desde as mais remotas eras dedicada às grandezas do comércio, e aos contactos com o Mediterrâneo e a civilização; a do centro e Norte, uma plana e áspera, a outra acidentada, dura, montanhosa e selvagem. No tempo da cultura castreja o país situava-se, segundo parece, entre o Guadiana a Sul, e os Rios Douro e Minho a Norte (2). A pátria Lusitana ocuparia a metade setentrional, a região montanhosa entre o Tejo e o Douro. Fisicamente, a região Oeste da Ibéria foi uma zona rica, pois os seus rios são cantados na fama das suas areias auríferas por escritores antigos como Estrabão, Catulo, Ovídio, Lucano, Sílio Itálico, Juvenal, entre outros. País rico em contrastes, de norte a Sul, com excelentes vias de comunicação fluviais onde o peixe era abundante, a Lusitânia mereceu de Estrabão os mais vivos elogios quanto à variedade e riqueza da sua fauna. O território era igualmente rico em minérios, especialmente ouro, prata, cobre, estanho e ferro. Famosas eram também as águas medicinais: Políbio retrata de forma eloquente as riquezas naturais do país: “O bem temperado clima, os prolíficos animais e gentes e os frutos que jamais estragam o País”.

Grupos étnicos

Os grupos étnicos que habitavam a Lusitânia nos tempos proto-históricos e que não eram, necessariamente contemporâneos uns dos outros, são os seguintes: na região do Cyneticum (Algarve) viviam os Cynetes ou Curetes, os Cemsi, os Glaetes, os Turdetani e os Celtici. A norte do Tagus (Tejo) achamos os Turduli Veteres, os Transcudani e os Igaeditani. Ainda ao sul do Douro Plínio menciona os Presuri. Do Douro para o extremo norte habitavam os Callaeci conforme refere Estrabão. Pomponio Mela coloca na mesma região outros Celtici (povos resultantes da fusão de Celtas com Callaeci) entre os quais distingue os Grovii. Sempre para Norte, entre o Durius (Douro) e o Minius (Minho) Ptolomeu situa os Callaici Bracari. Ao Sul do Minho ficavam ainda os Leuni e Seurbi. Para Leste, na região que hoje corresponde a Trás-os-Montes, ficavam os Turodi, de que fala Ptolomeu (3). Por aqui se vê que não havia unidade social na Lusitânia, mas que as populações estavam distribuídas por tribos. Os Fenícios, Lígures, Gregos, Celtas e Cartagineses, cruzando-se com as raças primitivas da Lusitânia, constituíram os LUSITANOS proto-históricos (4) no sentido mais lato da palavra.     

 

Caracteres etnogénicos

“em cada raça, as formas evolutivas de agregação social, essencialmente idênticas, dão de si produtos morais diversos que todavia as caracterizam e que permanecem (…) vivos nos usos e costumes das populações peninsulares, apesar das instituições e leis de uma organização política e de uma religião trazida de fora”

    
Na sua obra “Elementos de Antropologia” (5) Oliveira Martins não afasta a hipótese de uma origem comum aos iberos e Ameríndeos, fundamentada não só por algumas analogias que existem nos idiomas como pela provável ligação continental da Europa e da América através da Atlântida, o que faria dos Iberos uma raça terciária. Estas hipóteses, sem serem de desprezar, não são, contudo, suficientemente sólidas porquanto, segundo Estrabão, os Iberos seriam antes um mosaico de povos, cujas origens permanecem ainda hoje por esclarecer, com muitas línguas e alfabetos diferentes. De resto, e citando Alexandre Herculano, “acerca da divisão dos povos de Espanha, só se pode tirar uma conclusão sincera, e é que em tal matéria pouquíssimos factos têm o grau necessário de certeza para serem considerados como históricos”.  

Para Oliveira Martins (6) o princípio da História Peninsular data do momento “em que aparecem em cena, de um lado os libi-fenícios de Cartago e do outro os romanos, a prolongar nas idades conhecidas o sistema de encontros de raças que parece ter já precedido os tempos históricos”. E conclui dizendo que devemos “à espécie de influência exercida sobre as populações indígenas pelos invasores indo-europeus ou, particularizando mais, pelos romanos (…) não só o carácter europeu da nossa civilização, mas até o próprio facto da existência dela. De outra forma teríamos ficado na vida da tribo…” (7).

O que o citado autor acima referiu só em parte poderá ser verdade porque hoje sabemos quão elevado era o grau de cultura da civilização de Tartessos, na parte meridional da Península. O seu renome e a fama de suas riquezas atingiam as altas culturas mediterrânicas. O mais verosímil é que tenha ocorrido, provavelmente após a queda de Tartessos, um período de involução, recuando estes povos a formas mais primitivas. Para vários escritores antigos, os iberos eram os directos sucessores dos Tartéssicos.

Como observa O. Martins, “em cada raça, as formas evolutivas de agregação social, essencialmente idênticas, dão de si produtos morais diversos que todavia as caracterizam e que permanecem (…) vivos nos usos e costumes das populações peninsulares, apesar das instituições e leis de uma organização política e de uma religião trazida de fora” (8). A compreensão destes caracteres atávicos que sobreviveram à influência romana é o que nos interessa particularmente para se tentar uma aproximação das raízes etnológicas dos Lusitanos.

História (epítome)

Chama-se Lusitanos ao conjunto de tribos que viveram na Idade do Ferro. Dedicavam-se à caça, a uma agricultura incipiente (sobretudo os povos da montanha), à pastorícia, à pesca, mas também tinham uma importante vida económica, comprovada pela existência de cidades comerciais, e uma agricultura rica nas zonas baixas, uma intensa vida de relação, uma arte, uma literatura de tipo bélico e litúrgico. Viviam em cidades amuralhadas, nos altos penhascos, chamadas castros ou citânias.

Os Lusitanos viviam segundo três formas de vida: a da montanha, a da planície, a do litoral, mais dedicadas as duas últimas ao comércio.

No que se refere aos costumes, estes não eram uniformes para todos os povos da Lusitânia, pois os graus de civilização em que se encontravam também não eram os mesmos. Estrabão, quando fala dos povos da Lusitânia faz a distinção entre os costumes dos montanheses e os dos habitantes das planícies (9). Prosseguindo na sua narrativa, Estrabão diz que nas montanhas os homens trazem cabelos compridos, como as mulheres, que atam quando entram em combate; usam saios e dormem no chão. As mulheres trajam vestuário de cor. E continua:

“Quanto às comidas, utiliza-se a carne de bode e fabrica-se uma espécie de pão feito de landes de carvalho secas; a bebida ordinária é a água e a cerveja de cevada. No entanto, celebram-se frequentemente grandes banquetes…” (10).

Os divertimentos dos montanheses não se limitam às danças e à música. Como povos guerreiros que são mantêm-se em forma fazendo jogos gímnicos, hoplíticos e hípicos, em que fingem combates, e se exercitam no pugilato e em corridas.

Tanto os Lusitanos das montanhas como os da planície tornaram-se famosos na arte da guerra. Diz Diodoro Sículo (11) que os Lusitanos marcham para a guerra com passo cadenciado, e cantando hinos. Estrabão pormenoriza o seu equipamento bélico, descrevendo o escudo redondo, o punhal da cintura, a espada, a lança, a couraça de linho, a cota de malha e o capacete de couro com penachos (12).

O facto de os Lusitanos serem um mosaico de culturas reunidas num pequeno grupo em que não estavam isentos determinados caracteres bárbaros, é certo, mas onde se faziam, não obstante, notar o refinamento da antiga civilização de Tartessos e a forte influência celta, particularmente no domínio cultural, confere-lhes uma especificidade histórica no seio dos outros povos peninsulares, sendo altamente controversos e esguios aos olhos dos civilizadores romanos, devido à confluência na formação do seu carácter, dos três elementos étnicos atrás citados.

A conquista romana  

A história da conquista romana da Lusitânia pode ser dividida em cinco períodos:

  1. Incursões dos Lusitanos na Bética, e consequente conquista da Lusitânia meridional ou d´entre Anas e Tagus;
  2. Guerra viriatina;
  3. Conquista da Lusitânia central dentre Tagus e Durius, e começo da Lusitânia setentrional, – campanha de Decimo Junio Bruto;
  4. Intervenção dos Lusitanos na guerra sertoriana;
  5. Conclusão da conquista da Lusitânia setentrional por Júlio César e Augusto, com uma fase intermédia em que os Lusitanos entram na guerra civil cesariano-pompeiana.

Durante estes cinco períodos alguns dos caracteres próprios dos Lusitanos, como sejam: o apego à independência nacional; a intrepidez na vicissitude da guerra; a irrequietidão do génio, sempre ávido de aventuras.


Eduardo Amarante
In Revista Nova Acrópole Nº 30 – 1986

 

NOTAS

  1. Estrabão, Geogr. III, III, 3

  2. Da delimitação da Callaecia fala Estrabão (Geogr. III, IV, 20) quando diz que os Galegos ficam ao N. do Douro. Porém num outro passo, o mesmo autor (III, III, 4) ao referir-se ao rio Minius (Minho) comenta que “é o maior rio da Lusitânia, navegável na extensão de 800 estádios, a contar da foz. Vem do território dos Cantabros. Como Sublinha J. Leite de Vasconcelos (Religiões da Lusitânia, II, 35) parece ser que os autores latinos faziam uma distinção entre Gallaecia (geográfica) e Gallaeci (etnológica).

  3. Ptolomeu (Geogr., II, VI, 39)

  4. Entende-se por tempos Proto-históricos os que medeiam entre a Pré-história e a chegada dos Romanos à Península, no séc. III a.C. Neste período decorreram os factos que constituem a História Heróica Lusitana.

  5. Oliveira Martins, “Elementos de Antropologia”, pgs. 126-7

  6. Oliveira Martins, “História da Civilização Ibérica, pag. 32

  7. Ibidem, pag. 32-3

  8. Ibidem, pag. 32

  9.  Estrabão, Geogr., III, III, 7

  10. Ibidem    

  11. Diodoro Sículo, Bibl., V, 34

  12. Estrabão, Geogr., III, IV, 15

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