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NATURA EST DEUS IN REBUS

 

Abordar a figura de Giordano Bruno segundo as suas obras é uma tarefa tão edificante como revitalizadora, nesta oportunidade proponho-me apresentar, em jeito de introdução, os aspectos mais relevantes de Expulsão da besta triunfante, a primeira obra dos três diálogos morais publicada em Londres em 1584.

Introdução
A Expulsão enquadra-se dentro da esfera de estrelas fixas e suas constelações – na qual Bruno não acredita, mas serve-se destas imagens para expor as suas ideias, antecipação da sua arte da memória -, no Olimpo celebra-se a comemoração do triunfo sobre os titãs – ou seja, triunfo sobre os vícios que se avizinham.

Júpiter reúne os verdadeiros deuses e propõe uma reforma moral, uma purificação do céu; assim começa a expulsão dos vícios para serem substituídos por virtudes há muito tempo proibido. As bestas das constelações representam os vícios e as virtudes do processo purificador, para isso, Bruno emprega a vasta mitologia grega e o seu simbolismo.

Os personagens do diálogo são: Sofia, Saulino e Mercúrio. Sofia simboliza a sabedoria humana, a filosofia, a busca da Verdade, mas não é a sabedoria divina nem a Verdade. Saulino representa o homem, o indivíduo que busca e recebe a sabedoria, e Mercúrio é o mediador, a ponte que utiliza Sofia para chegar ao divino, para que Saulino se supere e evolua.

 

"Júpiter reúne os verdadeiros deuses e propõe uma reforma moral, uma purificação do céu."



Sofia relata o que sucede no céu, ali Júpiter simboliza a Vontade, é quem propõe a purificação, e os deuses restantes são as faculdades e atributos da alma, por exemplo, Momo (a crítica, a censura) critica, burla-se e detesta os vícios.

Ideário
A obra abunda em ideias tanto relacionadas com a sua época como transcendentais, é muito rica em temas, o que nos descreve a medida de um ser entendido em tantas matérias, que o levaram a confrontar-se com todos os poderes em prol da verdade por uma sociedade espiritual.

A metempsicose: ao contrário do cristianismo e o judaísmo mas de acordo com o pitagorismo e o platonismo, Bruno fala-nos da emigração da alma, da imortalidade da alma, já que não há aniquilação, só transformação, o que deve desterrar o medo à morte que os cristãos tanto infundiram.

«O destino ordenou as preces tanto para implorar como para não implorar, e para não gravar demasiado as almas transmigrantes interpõem a bebida do rio Letes no meio das mutações.» (Diálogo I, 1ª parte).

O karma está presente nesta transmigração, as causas e os seus efeitos, as boas e más acções e não a fé cega são as que vão determinar as vidas futuras; desta forma o juízo final do cristianismo fica reduzido a um sem sentido, além disso, contra a ideia luterana- calvinista da predestinação, Bruno contrapõem o livre arbítrio.

«Da mesma maneira convém que quem for favorecido pelos desuses passe por bons votos e acções.» (Diálogo I, 1ª parte).

E quando o Juízo ascende ao céu Júpiter disse:
«Por esta espada e coroa entende Júpiter o juízo universal, através do qual cada um será premiado e castigado no mundo de acordo com a medida dos seus méritos e delitos.» (Diálogo I, 3ª parte).

A ciclicidade: assim como há épocas em que a Sabedoria destila o seu néctar e florescem as civilizações, também há aquelas em que as trevas constrangem os impérios e pouca luz ou nada se percebe. Para Bruno, a alternância de sabedoria e ignorância, como a vida e a morte, forma parte desta ciclicidade:

«Só a verdade junto com a absoluta virtude é imutável e imortal e se às vezes cai e se afunda, idêntica necessariamente ressurge a seu devido tempo, do braço da sua donzela Sofia».  (Diálogo I, 1ª parte).

A Unidade absoluta, a Verdade: a Unidade é omnipresente, omnisciente, omnipotente; é imanente ao mundo em oposição à posição judaico-cristã de Deus dissociado da natureza.

«E deves saber também, Sofia, que a unidade está no número infinito e o número infinito na unidade; … o ser e a unidade encontra-se em todos os números, em todos os lugares, em todos os tempos e átomos de tempo, lugares e números; e o princípio único do ser está em infinitos indivíduos que foram, são e serão». (Diálogo I, 3ª parte).

 

"Só a verdade junto com a absoluta virtude é imutável e imortal e se às vezes cai e se afunda, idêntica necessariamente ressurge a seu devido tempo, do braço da sua donzela Sofia."



Assim como Helena P. Blavatsky sentenciou há mais de um século «There is no religion higher than truth» (não há religião superior à verdade), a primeira virtude que Bruno faz ascender ao céu é a Verdade.
«Acima de todas as coisas, Saulino, está situada a verdade, porque ela é a unidade que reside por cima de tudo».

«Assim pois, a verdade é anterior a todas as coisas, está com todas as coisas e é posterior a todas as coisas; está por cima de tudo, com tudo, por trás de tudo; tem carácter de princípio, de meio e de fim.» (Diálogo II, 1ª parte).

A Reforma: a crítica contra a Reforma é um dos temas mais desenvolvidos na Expulsão, este novo dogma não restitui os valores perdidos e a sabedoria mas, inclusive, afasta-se mais da verdade, interpretando a letra morta das Sagradas Escrituras.

É um monstro pior que o de Lerna, derramando o seu fatal veneno por toda Europa, e urge a necessidade de um príncipe restaurador para a erradicar, um Hércules.

«Bastará com que ponha fim a essa folgada seita de pedantes que, sem trabalhar bem, segundo a lei divina e natural acreditam e querem ser considerados religiosos gratos aos deuses e dizem que o trabalhar bem está bem, o trabalhar mal está mal, mas que não se chega a ser digno e grato aos deuses pelo bem que se faça ou o mal que não se faça, senão por esperar e acreditar segundo seu catecismo. Vede, deuses, se alguma vez houve velhacaria mais manifesta que esta, que só não a vêem aqueles que não vêem nada». (Diálogo I, 3ª parte).

«…. Além disso, vê-se que a maior parte deles não está de acordo nem consigo próprio, rasgando hoje o que escreveram no dia anterior». (Diálogo II, 1ª parte).


Também se representa a Reforma como uma das Górgonas, que paralisa e mata. Quando Perseu desce do céu, o herói necessário para eliminar este novo flagelo, Júpiter disse:

«Que vá, se o Senado inteiro assim o quiser (porque me parece que há na terra alguma nova Medusa capaz, não menos do que a que existiu há já muito tempo, de converter em pedra dura com o seu aspeto a todos quantos a olharem), que vá para ali … e veja se, valendo-se da mesma arte, pode vencer um monstro tão horrível quanto mais novo.» (Diálogo II, 3ª parte).

Destrói os vestígios dos valores que ficavam.


"Os egípcios, como sabem os sábios, a partir dessas formas naturais exteriores de animais e plantas vivas ascendiam e (como mostram os seus êxitos) penetravam na divindade."


«… quando alguém se converte a essa fé e profissão desde qualquer outra, o que antes era liberal torna-se avarento, o que era brando torna-se insolente, ao humilde o vês soberbo, … e em conclusão: o que podia ser mau torna-se péssimo até ao ponto de não poder ser pior.» (Diálogo II, 1ª parte).

Natura est deus in rebus: a natureza é Deus nas coisas, Bruno insiste reiteradas vezes nesta ideia sobre a manifestação divina, enfrentando assim a postura cristã que dissocia Deus dos homens, dos mundos, dos animais, etc., e quebra a comunicação homem-Deus.

« … porque já sabes que os animais e as plantas são efeitos vivos da natureza, … não é outra coisa que deus nas coisas.» (Diálogo III, 2ª parte).

Quando Ísis defende a magia egípcia disse:

«Sabiam aqueles sábios que Deus estava nas coisas e que a divindade, latente na natureza, actuando e refulgindo de forma diversa em diversos indivíduos, por diversas formas físicas, em certas ordens, vem fazer partícipe de si, isto é, do ser, da vida e do intelecto.»
(Diálogo III, 2ª parte).

O lamento do Asclépio: é este um momento importante da obra, a Expulsão quer restaurar a verdadeira religião (a egípcia o que representa a sabedoria), lançando a falsa religião (de tradição judaico-cristã). O lamento do Asclépio é parte do livro II atribuído a Hermes Trismegisto, ali Hermes profetiza sobre a queda do culto egípcio, a perda da sabedoria, a decadência espiritual e o ressurgimento da verdadeira religião; Bruno cita o texto hermético que representa o estado actual da religião e da Reforma.

« … Não sabes, Asclépio, que o Egipto é a imagem do céu e para dizê-lo melhor a colónia de todas as coisas que se governam e põem em acção no céu? Para dizer a verdade, a nossa terra é o templo do mundo. Mas, ai de mim!, virá um tempo em que parecerá que o Egipto rendeu um culto religioso vão à divindade; porque a divindade retornando ao céu, deixará ao Egipto deserto e esta sede da divindade ficará viúva de toda a religião por estar abandonada da presença dos deuses, já que sucederá pessoas estrangeiras e bárbara, sem religião, piedade, lei e algum culto. Egipto, Egipto!, das tuas religiões só ficarão as fábulas …

As trevas antepor-se-ão à luz, a morte será julgada mais útil que a vida, ninguém elevará os olhos ao céu, o religioso será estimado louco, o ímpio será julgado prudente, o furioso forte, o péssimo bom… Só ficarão anjos nocivos que, misturados com os homens, forçarão os desgraçados a atrever-se a todo mal como se fosse justiça, dando origem a guerras, pilhagens, enganos e todas as outras coisas contrárias à alma e à justiça natural … Mas não temas, Asclépio, porque depois de que tivessem sucedido estas coisas, então o senhor e padre Deus, o omnipotente fornecedor, mediante dilúvio de água ou de fogo, de doenças ou de pestes, sem dúvida alguma porá fim a semelhante mancha, chamando de novo o mundo ao seu antigo rosto.» (Diálogo III, 2ª parte).

Da sabedoria dos cultos mágicos egípcios passa-se à adoração judaico-cristã. Reivindica-se a religião egípcia.

«Os egípcios, como sabem os sábios, a partir dessas formas naturais exteriores de animais e plantas vivas ascendiam e (como mostram os seus êxitos) penetravam na divindade. Pelo contrário, os outros…
descendem logo até adorar em substância como deuses aos que apenas possuem tanto espírito como as nossas bestas, pois que, finalmente, a sua adoração termina em homens mortais, inúteis, infames, néscios, …» (Diálogo III, 2ª parte).

Cristo e o cristianismo: a crítica para Cristo e o cristianismo que é exposta através de toda a obra, converte-se no tema central na constelação do Órion.

Junto à defesa do culto egípcio é outro momento culminante da Expulsão. Devido ao facto de o cristianismo ter chegado a afastar a verdadeira religião, e Cristo foi a semente para tal inversão de valores, que causou a asinidade (ignorância e passividade), a quebra de comunicação homem-Deus, tornando-se a fonte de todos os males que afetam à época, impondo-se como culto exclusivo e única salvação pela alma humana, é que Bruno o apresenta como um impostor, os seus milagres não ajudam a uma reforma moral, constitui a profecia hermética, a decadência espiritual. A associação Órion-Cristo tem o seu fundamento no conteúdo mitológico de Órion, que se atreveu a arrebatar toda a caça aos deuses.
«Mas com medo, deuses, dou-vos este conselho,… dado que poderia ocorrer que este finalmente, encontrando-se com a caça na mão, ficasse com ela para ele dizendo-lhes e fazendo-lhes, além disso, acreditar que o grande Júpiter não é Júpiter, senão que Órion é Júpiter e que os deuses não são mais do que quimera e fantasias.» (Diálogo III, 3ª parte).

Se Cristo é o único meio entre os homens e a divindade, qual é o papel da filosofia?
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao padre senão por mim.» (João, 14,6).

 

"As trevas antepor-se-ão à luz, a morte será julgada mais útil que a vida, ninguém elevará os olhos ao céu, o religioso será estimado louco, o ímpio será julgado prudente, o furioso forte, o péssimo bom…"

 

A religião: a constelação de Centauro simboliza a religião, o centauro de natureza dupla, animal na parte inferior e homem na parte superior, assinala a evolução para formas cada vez mais perfeitas. Como o centauro mais famoso da mitologia grega, Quirón, que educou Hécules, Aquiles, Eneas, Jasão, Asclépio, etc., Bruno entende que a religião deve educar ao vulgo, conter as massas, e que apesar de tudo, a religião é necessária; por tal motivo a constelação do Centauro não é expulsa do céu, mas os vícios sim: a Bestialidade, a Ignorância, a Fábula inútil e perniciosa, a Superstição, a Infidelidade e a Impiedade; e ascendem a justa Simplicidade, a Fábula moral, a Religião não vã, a Fé não néscia e a verdadeira e sincera Piedade.

«E visto que o altar, o templo, o oratório é muito necessário e seria inútil sem o administrador, que viva, pois aqui, que aqui permaneça e preserve eternamente a não ser que o destino disponha outra coisa.» (Diálogo III, 3ª parte).

Em conclusão, a expulsão (a purificação) da besta (os vícios) triunfantes (dominantes e regentes) é a expulsão da falsa religião para restituir as virtudes (que brinda a verdadeira religião) e, por conseguinte, a sabedoria. Assim mesmo, Júpiter também é o homem, o indivíduo que tem todo um mundo para governar, o seu mundo interior – a máxima hermética «assim como é em cima é em baixo» - e decide purificar-se mudando vícios por virtudes para restaurar a comunicação divina.

Há 400 anos as chamas consumiram o corpo do Nolano, mas não as suas ideias, elas estão ali, à espera do herói que se atreva a retomá-las e restituí-las à sua sede natural.

 

Óscar Escalante

 

Bibliografia:  Giordano Bruno, Expulsão da besta triunfante, Barcelona, 1995;
                      Vero L. Labriola A., Giordano Bruno, Valência, 1990;
                      Yates Frances A., Lulio e Bruno. Ensaios reunidos I, México, 1990;
                      Hermes Trismegisto, Os livros de Hermes Trismegisto, Barcelona, 1998.


 

 


 

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