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Um Natal Muito Especial em Varge

 

«Nunca a psicologia poderá dizer a verdade sobre a loucura, já que é a loucura que detém a verdade da psicologia.»

 Michel Foucault

«Se me apetece rir dum louco, não preciso de ir procurar muito longe: rio de mim mesmo.»

 Séneca

 

 Varge é uma aldeia situada na Baixa Lombada do Nordeste Transmontano. Todos os anos, de 24 a 26 de Dezembro, é palco de uma das Festas dos Rapazes mais tradicionais de Trás-os-Montes.

O problema da desertificação populacional de toda a faixa interior do país constitui uma questão que deveria merecer maior atenção. Estas zonas têm grandes potencialidades para originarem espaços com grande qualidade de vida, assim houvesse imaginação criadora das autoridades. Apesar desse esvaziamento demográfico, muitos jovens regressam às suas aldeias neste período do Natal e Ano Novo, para manterem as tradições dos seus antepassados. Os protagonistas destas festas de raiz muito arcaica são, em grande parte, jovens bem integrados e com êxito na vida da sociedade moderna. Constatámo-lo em Varge de forma bem evidente.

Ângelo Preto, um «velho» da «confraria de rapazes solteiros» de Varge, descreveu-nos o programa da festa. António Tiza, oriundo desta aldeia e ex-presidente da Região de Turismo do Nordeste Transmontano, complementou-nos essa informação. Agradecemos aos dois a sua disponibilidade.

À cabeça desta festividade cíclica estão os dois mordomos efectivos. Em 2001, foram o Óscar e o Eurico. Os preparativos começam em Agosto com a contratação do gaiteiro e a reserva do vitelo. A festa propriamente dita começa no dia 24 de Dezembro, com a imolação do vitelo que servirá para as refeições dos «confrades» e a preparação da «casa da festa». Nestes dias festivos, este espaço cedido pela Junta de Freguesia é exclusivo dos rapazes solteiros da confraria e dos dois cozinheiros contratados (por necessidade, são os únicos casados que participam nos festejos). Ninguém mais pode lá entrar, ficando a pairar um ar de secretismo sobre o que lá se passa. Parece que certas praxes nunca são divulgadas. À noite, depois de passarem a consoada de Natal com a família, os protagonistas da festa vão ensaiar as loas para um moinho situado fora da aldeia. As loas são quadras de maldizer que versam sobre os acontecimentos ocorridos na aldeia durante todo o ano, em que os eventos mais ridículos são mesmo teatralizados. De seguida, vão cear para a casa da festa. Nos três dias de festa comem muito, bebem muito... e dormem pouco. Necessitam de ter força de vontade para superar situações de esforço, num clima adverso. No ano de 2001, a temperatura esteve sempre nos negativos durante todo o dia e chegava aos -10º durante a noite.

A alvorada de dia 25 acontece bem cedo, pouco depois do raiar do dia. De seguida, os rapazes, sem máscaras, assistem à missa e, quando ela acaba, saem a correr, vestem os fatos de Caretos, colocam as máscaras e os habitantes da aldeia são conduzidos para o largo onde se vão dizer as loas. Quando aparecem os Caretos neste espaço, logo um mundo irreal se manifesta e o próprio frio parece desaparecer. Ninguém está a salvo das suas diabruras. Um grupo denso de populares leva com um monte de feno em cima, as raparigas são abraçadas, a água da fonte é espalhada, e os próprios Caretos entram ao som dos seus chocalhos e gritos estridulantes (hi, gu, gus, ...) num certo estado de loucura: vimos um a atirar-se para dentro do tanque da fonte, partindo a superfície de gelo...

 

À noite, realiza-se o jantar na «casa da festa» só com a presença dos membros da confraria e dos cozinheiros

 

Começa o cantar das loas. Um conjunto impressionante de qua­dras exorciza com o seu maldizer os «rumores» da aldeia, traz à luz do dia aquilo que vive na «obscuridade». As críticas são bastante duras, mas ninguém pode comentar nem levar a mal. Depois de ditas, acabou. Pelo meio das loas sucedem-se, representados em pequenos sketchs, episódios cómicos ocorridos durante o ano, alguns deles hi­la­riantes, como aque­le em que um camponês queria meter um porco num saco que só daria para um leitãozinho.

Os dois mordomos não estão mascarados. Têm como atributo a «vara das roscas» e dirigem toda a representação.

Este rito, para além de favorecer o exorcismo das intrigas, ajuda a su­peração do «medo do ridículo». Unamuno lembra-nos bem que «foi expondo-se ao ridículo que D. Quixote alcançou a sua imortalidade».

De seguida, não almoçam e vão de casa em casa, pela aldeia, dar as boas festas. Os Caretos continuam com as suas travessuras e os habitantes da povoação recebem-nos, em grande parte dos casos com bolos e Vinho do Porto. Todos gostam de ouvir bater os Caretos à sua porta, pois os jovens mascarados representam a energia do ano novo, que se quer fértil e abundante. Para a mentalidade arcaico-solar, o guerreiro é, sobretudo, o símbolo da energia espiritual que cosmiza o caos, ou seja, aquele que se supera a si próprio, que enfrenta com êxi­to os estadoslimite, e essas vitórias, assim como a energia libertada na passagem iniciática dos adolescentes ao estatuto de adultos, são pro­piciadoras da fer­tilidade dos campos, da saúde do gado e da «boa sorte». Por isso, Marte, deus da guerra, era também, em épocas recuadas, uma divindade protectora e agrícola – já vimos que os deuses solares têm um sim­bolismo fortemente enraizado nos ciclos agrícolas. Catão evoca Marte nestes termos: «Pai Marte, eu te suplico e peço que sejas benevolente e propício a mim, à minha casa e família (...) que impeças, que repilas, que afastes as doenças visíveis e invisíveis, as más co­lhei­tas, a devastação, as calamidades e as intempéries.» (De Re Rustica, 141, 2).

Após a ronda pela aldeia, segue-se a «corrida da rosca». Os vencedores ficam com as roscas das «varas dos mordomos» e os vencidos pagam o valor previamente estipulado para cada uma delas.

À noite, realiza-se o jantar na «casa da festa» só com a presença dos membros da confraria e dos cozinheiros.

No dia seguinte, a hora da alvorada não é divulgada, mas quando o gaiteiro tocar todos têm de estar presentes. Os que não estiverem «vamos buscá-los à cama e levam-se a tomar banho ao rio. Em 2000 tivemos que partir o gelo para cumprir a tradição», testemunhou-nos Ângelo Preto. A ideia de estar a ser posto à prova é uma constante destas Festas dos Rapazes, exclusivas dos solteiros.

Estamos no dia 26 de Dezembro, dia dedicado a Santo Estevão, o pri­meiro mártir do cristianismo (cf. Actos dos Apóstolos, 6-8) e padroeiro dos rapazes. Por essa razão, é um dia considerado mais solene, sem Caretos e com a respectiva missa de Stº. Estevão. Ao almoço elegem-se os dois mordomos efectivos e os dois suplentes para a festa do ano seguinte. Estes quatro confrades oferecem a sobremesa a todo o grupo. De seguida, vão pedir autorização aos pais das raparigas para elas participarem no jantar da noite, que se realiza em mesas separadas, uma para os rapazes e outra para as raparigas. Fluem as picardias entre ambos os sectores, preparando o ambiente para o baile que encerra a festa. Depois de separados durante três dias, os princípios feminino e masculino, simbolizados pelos rapazes e raparigas, voltam a unir-se.

Na «confraria dos rapazes» existem baptismos – à base da superação do efeito do álcool – e «patentes» (sic): os «novos», jovens com poucos anos de festa, e os «velhos», jovens com mais anos de festa e que, no geral, já foram mordomos. As raparigas também fazem os seus baptismos às caloiras, partindo-lhes um ovo em cima da cabeça e com ou­tras praxes não divulgadas.

Ultimamente, tem crescido o número de «festas das raparigas» em Trás-os-Montes. É provável que elas tivessem existido nos tempos pré-cristãos e que depois não resistissem ao advento da cultura judaico-cristã, que reprimiu acentuadamente o protagonismo da mulher. Nos antigos mistérios de Artémis havia ritos de passagem para as jovens adolescentes, com a utilização de máscaras.

A origem destas festas dos Caretos é um enigma. Encontramos, sem dúvida, semelhanças com as antigas Saturnais, Dionisíacas e Juvenálias, mas a sua essência parece ter uma origem ainda mais remota. Mircea Eliade dá-nos a chave para essa percepção: «(...) há já bastante tempo que Mannhardt, Gaidoz e Frazer mostraram a integração do complexo solar do ano e da roda da fortuna na magia e na mística agrária das crenças europeias antigas e do folclore moderno.

 

A máscara, com o seu simbolismo e poder mágico inerentes, constitui um aspecto fundamental deste rito. A máscara é o símbolo da passagem de um estado de consciência para outro

 

O mesmo complexo cultural sol-fecundidade-herói (ou representante dos mortos) reaparece mais ou menos intacto em outras civilizações. No Japão, por exemplo, no quadro do cenário ritual do visitante’ (cenário que engloba elementos do culto ctónico-agrário), realiza-se, todos os anos, a vi­si­ta de grupos de jovens de cara sarapintada, chamados os Diabos do Sol’; estes jovens, que vão de herdade em herdade para assegurarem a ferti­li­dade da terra durante o ano que chega, representam os antepassados (i. e. os mortos’) solares. (...) Deve-se, no entanto, evitar querer reduzir a todo o custo o herói solar a uma epifania do astro; a sua estrutura e o seu mito não se confinam à manifestação pura e simples dos fenómenos solares (aurora, raios solares, luz, crepúsculo, etc.). Um herói solar apresenta sempre, além disso, uma zona obscura, a das suas relações com o mundo dos mortos, a iniciação, a fecundidade, etc. (...) O herói salva o mundo, renova-o, inaugura uma nova etapa que equivale por vezes a uma nova organização do universo, quer dizer, conserva ainda a herança demiúrgica do ser supremo. Uma carreira como a de Mithra, originariamente deus celeste, depois solar e mais tarde soter na qualidade de Sol Invictus, explica-se em parte por esta função demiúrgica (do touro abatido por Mithra saem sementes e plantas) de organizador do mundo. (...)

Valeria (...) a pena sublinhar a afinidade da teologia solar com as eli­tes, quer se trate de soberanos, de iniciados, de heróis ou de filósofos. Ao contrário do que acontece com as outras hierofanias [hiero+fanos, manifestação do sagrado] cósmicas, as hierofanias solares têm tendência para se tornarem privilégios de círculos fechados, de uma minoria de eleitos’ (...).»(1)

A máscara, com o seu simbolismo e poder mágico inerentes, constitui um aspecto fundamental deste rito. A máscara é o símbolo da passagem de um estado de consciência para outro, facilita ao jovem o «romper» da sua persona de adolescente e o subsequente renascer para a vida de adulto. Num rito mítico-religioso, o portador da máscara ganha uma nova personalidade e a vivência dessa relação constitui um mistério. O seu simbolismo está estritamente relacionado com os seres do «outro mundo», sejam antepassados mortos ou divindades. Em Varge, onde a interpretação que vimos dos Caretos foi de grande nível, foi evocado o grande mistério do jogo entre as trevas e a luz. Aos «Caretos quase tudo é permitido» e isso dá-lhes uma grande responsabilidade. Não é fácil gerir os limites, quando é necessário ritualizar a subversão. Os Caretos de Varge, terríveis, ameaçadores, estranhos, têm o dom de a todo o momento, eles próprios, se tornarem seres dó­ceis e simpáticos. Afinal, eles têm funções profilácticas e propiciadoras. Manejar estas energias opostas com domínio constitui uma experiência excepcional. Segundo o Bardo-Thödol, a alma humana é recebida nos primeiros sete dias por divindades pacíficas mas, na segunda se­mana, são essas mesmas divindades que se tornam terríficas e põem à prova a espiritualidade da alma. Este aspecto terrífico da Divindade é necessário para descongelar os «monstros do inconsciente» e pôr à prova o carácter e a vontade da individualidade. Nesta perspectiva filosófica, a face «diabólica» de Deus tem uma função iniciática...

Careto.

 

Merecem ser divulgadas as palavras de António Tiza, como o testemunho de alguém da região que conhece estas festividades e que, inclusive, chegou a protagonizá-las: «Festas das máscaras e dos Caretos que então surgem, quais sacerdotes de antigas divindades, ligando o natural ao sobrenatural, louvando os mortos e castigando os vivos. Os Caretos, máscaras, carochos ou chocalheiros’ (designações que variam de terra para terra) tornam-se seres superiores, mágicos ou proféticos, gozando de uma liberdade quase sem limites, com a faculdade de castigar, acariciar ou criticar. Criticando publicamente os males sociais, expurgam a comunidade, purificam-na e preparam-na para o ano novo que se aproxima. Danças, gritos e chocalhadas, anomias e críticas sociais institucionalizadas são ritos que o mascarado executa no desempenho das suas funções – profilácticas e propiciatórias.

Festas dos rapazes e dos rituais de passagem: a passagem da adolescência à maturidade; ritos para rapazes, como nas antigas sociedades secretas masculinas, nas quais os jovens, antes de nelas se iniciarem, deviam submeter-se a determinadas provas, mascarando-se em seguida e executando danças violentas para afastar a presença das mulheres. Os jovens são, neste contexto, os líderes e os principais animadores da festa. A máscara, obra das suas próprias mãos, é o elemento pelo qual se dá a transformação do jovem em animador, líder, sacerdote e profeta.»

O historiador José Mattoso observa que a utilização das máscaras deverá estar, na origem, relacionada com um ritual destinado a estabelecer uma relação entre os vivos e os mortos; e afirma com toda a lógica: «As máscaras que encarnam os mitos têm, obviamente, uma eficácia muito maior do que a mera recitação oral, devido ao facto de se usarem em rituais com uma enorme carga emotiva.»(2) Este facto leva-nos ao teatro mistérico da Grécia antiga, pois não podemos deixar de recordar que a máscara (prosopon) dos seus actores deu origem ao termo latino persona, étimo de pessoa e personalidade. A nossa personalidade é composta de múltiplas máscaras, que muitas vezes nos dominam e aprisionam o Ser mais profundo. Nos seus fundamentos esotéricos, o teatro dá-nos a possibilidade de entender essa relação misteriosa entre o Ser e as personalidades ou, se quisermos, entre o «rosto» e as «máscaras». Mas a «máscara», como todos os poderes, pode ser dominada ou dominadora…

 

Paulo Alexandre Loução
Investigador e Escritor

 

(1) Mircea Eliade, Tratado da História das Religiões, Asa, Porto, 1994, pp. 197-199.

(2) José Mattoso, As máscaras. O rosto da vida e da morte, in Poderes Invisíveis – O imaginário medieval, p. 24.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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