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Felicidade

 

felicidade

A Felicidade é a condição ou estado que procuram todos os seres vivos. É inerente à vida, que é um processo de movimento constante, de expansão. Toda a evolução é um processo de organização para a liberação de vida, mais vida.
Por isso há alegria num mero viver da vida através de um instrumento perfeito, através de uma forma per­feita. Contemple os pássaros e os animais quando são livres. Apesar de se devorarem uns aos outros, ape­sar da dor ocasional, a sua vida é alegre, enquanto o homem não intervir. O homem é quem caça, é aquele que os enjaula, que os tortura e os despoja de mil formas.


Mesmo o homem que morre como mártir ou que inflige a si próprio penas corporais, fá-lo porque lhe dá prazer afirmar o seu domínio. Experimenta assim uma felicidade que prepondera à dor.
Maior que as alegrias da natureza física são as alegrias das emoções e da mente, a alegria de criar, a alegria de uma experiência estética, ou a de amar. Cada uma dessas é uma experiência em diferente nível.
De acordo com a filosofia antiga da Índia, a natureza da vida, ou de ser, é bem-aventurança. A vida é obviamente uma força motriz. É também segundo podemos ver, um fundo de energia latente, um armazém de potencialidade; é até onde podemos ver, ilimitada. Quando a energia flui de forma a dar saída a essa potencialidade, há felicidade. Quando há restrição, há sofrimento ou dor. Tal restrição deve-se ou ao molde em que a vida que flui é aprisionada ou por uma alteração que sofre quando trata de ser algo que não é.
O que é que cria este molde, ou que causa esta contorção? Nos seres humanos obviamente, é a mente.
Qual é a relação entre a mente e a vida? A mente é inerente à vida. Desde o ponto de vista da filosofia que é a sabedoria inerente nas coisas – todas as coisas – onde houver vida há realização ou consciência, adormecida ou desperta, em germe ou desenvolvida.

 

"Quando existe amor sem possessão e sem a busca de gratificação dessa possessão, há bem-aventurança. Amar é dar de si mesmo e dar é a experiência da felicidade. A felicidade consiste na plenitude de vida"

 

Onde há mente há dualidade: o eu e a outra pessoa, dentro e fora, uma coisa e outra. A mente não se satisfaz com o deixar que a corrente de vida siga o seu curso, no seu plano natural, mas coloca metas e objetivos de acordo com experiências que recorda e busca ser algo que não é. Ou quer restrição dentro dos limites de certos hábitos, os quais lhes dá satisfação de ócio ou indolência (de Thamas), ou actua de acordo a certas idéias ou desejos, que também vem do passado e se desfiguram violentamente no processo. Este é o homem ambicioso ou apaixonado, o homem de Rajas. Nos dois está a limitação da mente e vida do homem. Num caso pelo simples ímpeto de velhos hábitos de pensamento e acção e no outro pelas manobras da mente sobre as experiências passadas, produzindo no­vas ideias ou desejos. Desde que o resultado seja estagnação ou ambição, estupidez ou desejo febril, existe um retrocesso no processo natural da livre expressão do que há dentro de si mesmo, e daí resulta a infelicidade.


As palavras “perseguição da felicidade” fazem parte de uma frase pronunciada frequentemente na América: “direito à vida, à liberdade e à perseguição da felicidade”. É interessante que os três estados que são inseparáveis – vida, liberdade e felicidade - que surgem de dentro e não apenas de uma reacção prazeirosa por excitação externa, se unam numa frase. Felicidade é inerente à vida, não necessita ser perseguida ou procurada, e na sua livre expressão, nos seres humanos é possível apenas quando as acções da sua natureza, da sua mente não são influenciadas pelo seu passado. Não deixa de ter o seu significado que, de acordo com a filosofia da antiga Índia, o fim e meta de vida era concebida como Moksha ou liberdade absoluta. Não era apenas liberdade da necessidade de uma vida terrestre e dos seus labores, liberdade de karma, das complicações do nosso passado; mas também das limitações da nossa capacidade para viver; por outras palavras, a vida num estado de liberdade tal como podemos conceber que uma flor vive a sua experiência quando ela é ela mesma (considera os lírios do campo, não trabalham nem tecem, mas neles há exuberância de viver).


O problema não é um problema de felicidade, que é um privilégio nosso ao nascer. Todos crêem ter direito à felicidade. Apenas estranham quando há dor, não compreendem porque há-de existir essa dor. O problema é um problema de sofrimento e de dor, como especificou há muito tempo Buda na sua sabedoria. O sofrimento e a dor são as negociações da vida pelas limitações impostas.
Esta limitação, que é o próprio karma, é imposta a cada um por si mesmo, na sua ignorância. Somos prisioneiros das nossas recordações, ansiando a repetição de prazeres passados, planeando como repeti-los, construindo uma vala de segurança por medo de perdê-la e fechando-nos dentro dela.


O homem feliz é aquele que não é escravo dos seus desejos, onde mente e coração estão livres de ansiedade pelo amanhã. Ser dominado por um desejo não é ser um homem livre. Quando está perturbado pelo desejo não experimenta a felicidade. Quando o desejo está satisfeito, a satisfação é temporária; há uma reacção de cada satisfação, e todo o processo se repete perpetuamente. A verdadeira felicidade é uma experiência que não dá lugar a reacção porque nasce da nossa própria expressão, da nossa própria manifestação. Não surge de fora, não depende de nada, não está em encher um vazio dentro de nós mesmos, não é alívio do tédio. Não é o mesmo que prazer, que surge da excitação do corpo físico ou de qualquer outro corpo.


A verdadeira felicidade não é um estado em que o homem se separa do resto do mundo e se coloca indiferente a ele, como quando estamos sob o estímulo de bebidas fortes ou de drogas. O estado mais alto de felicidade é aquele onde a consciência é universal, livre como o vento, e pode identificar-se com cada movimento – com o vôo de um pássaro, com o tremor de uma folha, com o trabalho de uma formiga, com sorrisos e lágrimas de outros seres humanos – tudo num instante. Um homem que está concentrado em satisfazer a sua luxúria não pode pensar mais que na sua satisfação e em si mesmo. O desejo imoderado de prazer, que é luxúria, pode destruir a humanidade individual ou o mundo em geral.


Também especifiquei liberdade pelo anseio do amanhã. Isto não quer dizer que não se deva planear a vida e vivê-la de forma inteligente. Mas devemos ter esta elasticidade de espírito, chamemos valor, e a boa vontade de aceitar qualquer estado que nos confronte, que é o único que nos permitirá viver sem angústia: um homem livre no verdadeiro sentido da palavra.
Pelo menos, podemos alcançar certa medida de felicidade, tomando a vida filosoficamente. Muita da nossa desdita é devido à maneira que enfrentamos os incidentes da vida. Um bom batedor de Cricket pode fazer que a bola rebote no ângulo para o lado do campo apenas roçando a bola. Se alguém faz um comentário desagradável sobre nós, podemos não dar importância – o que faremos se não possuímos muito do que se chama em sânscrito Ahamkara ou euismo – ou podemos deixar que nos fira, que magoe os nossos sentimentos até que nos prenda de um modo que seja difícil nos soltarmos.


Aquele que busca generosamente como proporcionar felicidade aos demais, cria-a para si mesmo. Há alegria em dar, que sempre aumenta, há prazer que decai, no receber. A felicidade do homem não é medida pelas suas posses. É possível dormir mais profundamente no solo que num colchão de plumas. Dizem que Deus distribui os seus favores muito desproporcionalmente; mas ele é muito imparcial na quantidade de felicidade que confere a cada um de seus filhos.
Liberdade de desejo, se isto pode ser alcançado, é a chave do segredo da felicidade. Esse segredo está em si mesmo e não em nenhuma outra parte do universo; nem mesmo em deus, porque o que chamamos Deus não é a realidade, mas apenas uma projecção da nossa própria mente. Este segredo consiste em ser você mesmo – que não consiste em chegar a ser isto ou aquilo, que é o que tem planeado e tem desejado a nossa ambiciosamente. Há um chegar a ser na natureza que é questão de forma. Ser é da vida, em sua essência e pureza. Mas quando queremos chegar a ser, alcançar, ganhar, experimentar, colocamos um objectivo fora de nós mesmos ao qual aspiramos alcançar. Então há luta, conflito, a renúncia à felicidade que é possível encontrar dentro de nós mesmos. O cessar do desejo, ao realizar a sua natureza, é a separação do não ser e a realização do verdadeiro ser. Nisto consiste a maior felicidade. Há uma passagem extraordinária num dos Upanishads que compara a felicidade dos mortais de vários Devas 1 e de outros. A felicidade maior, segundo essa passagem, é a felicidade do homem que realizou a sua natureza de Brahman, a verdade em todas as coisas e dentro de si mesmo e que já não é agitado pelo desejo.


Não desejar é amar tudo; porque é desejo o que separa aquele que goza do objecto a gozar e de outros aos que possa servir esse objecto. Quando existe amor sem possessão e sem a busca de gratificação dessa possessão, há bem-aventurança. Amar é dar de si mesmo e dar é a experiência da felicidade. A felicidade consiste na plenitude de vida. A vida é consciência e existe em todos os níveis, no mental, no emocional, e no físico. Plenitude implica, portanto, no cume da realização, a realização de todos os ideais, da verdade, da beleza e da bondade, a harmonização do pensamento e da acção. Então não vive desde um centro interior nele que não há possibilidade de conflito, onde há uma fonte perene de pensamento, de sentimentos e de acção, todos perfeitamente mesclados, todos respondendo instintivamente à necessidade de cada situação segundo se apresenta de instante a instante.

1 Palavra Sânscrita para designar os Deuses

 

Nilakantha Sri Ram (1889-1973)
Filósofo Indiano

Fragmento extraído do livro “O interesse humano”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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