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As Escolas Médicas e as Escolas de Filosofia na Grécia

 

Escolas Médicas

 

Tentaremos neste trabalho mostrar como as escolas médicas ao longo dos tempos se encontraram profundamente ligadas às escolas de filosofia, e como ambas foram caminhando a par das diferentes formas do ser humano se entender a si mesmo e ao universo, criando uma concepção integral da saúde, entretanto abandonada durante muitos séculos, para regressar hoje novamente. Embora nem sempre se dê o devido reconhecimento a essa herança, gradualmente ela vai-se revelando muito mais profunda do que até há pouco tempo era considerada, pelo prisma orgulhoso da nossa civilização tecnológica. Torna-se pois imperativo o resgate e o retomar dessa concepção integral do ser humano, assim como do carácter terapêutico da filosofia como via de equilíbrio e saúde para o ser humano.

 

O Início das Escolas Médicas na Grécia:


Antes de falarmos do Pai da Medicina Ocidental, Hipócrates, há que falar do avô, Alcméon de Crotona, que viveu no séc. VI a.C.; foi médico e filósofo contemporâneo de Pitágoras, tendo provavelmente sido discípulo da tradicional escola médica de Crotona e, portanto, ligado à filosofia pitagórica. Alcméon deu abertura a uma nova visão do cosmos e do homem, com implicações importantíssimas para um novo modo de compreensão da manifestação das doenças.

Hipócrates



Alcméon de Crotona foi o autor da primeira doutrina médica ocidental sobre o binómio saúde-doença. Juntamente com os filósofos-médicos Empédocles de Agrigento e Diógenes de Apolônia formularam grande parte das teorias que constituíram a base da doutrina médica hipocrática.

A teoria humoral das doenças, que Alcméon de Crotona foi o primeiro a enunciar, reflecte a influência da doutrina pitagórica sobre a complementaridade dos opostos, teoria também desenvolvida por Empédocles de Agrigento:

 



“A maior parte das coisas humanas ocorre aos pares”
“A saúde é a igualdade dos direitos das funções húmido-seco, frio-quente, amargo-doce e todas as demais”
“A causa das doenças é o predomínio de uma dessas sobre todas as outras”
“A saúde é a mescla harmoniosa das qualidades”

Este médico-filósofo foi o primeiro a relacionar o cérebro com as funções psíquicas, ao descobrir através da dissecação, que certas vias sensoriais terminavam no encéfalo. A Alcméon é atribuída a frase “O homem distingue-se dos demais seres por ser o único que compreende, pois todos os demais percebem, mas não compreendem”.

Presume-se também, que foi o primeiro a distinguir o que hoje denominamos de veias e artérias, para além de ter explicado fisiologicamente o sono, o acordar e a morte.

Nas obras de Alcméon encontramos também as primeiras ideias sobre a importância da constituição individual e a sua influência sobre o processo da doença, para além da importância do meio ambiente no seu desenvolvimento.

No “Fédon”, Platão sem se referir a ele, faz no entanto alusão às suas ideias, quando Sócrates, dirigindo-se a Cebes, declara: “Muitas vezes detive-me seriamente a examinar questões como esta: se, como alguns pretendem, os seres vivos se originam de uma putrefacção em que toma parte o frio e o calor; se é o sangue que nos faz pensar, ou o ar, ou o fogo, ou quem sabe, se nada disso, mas sim o cérebro, que nos dá a sensação de ouvir, ver e cheirar, das quais resultam por sua vez a memória e a opinião, ao passo que destas, quando adquirem estabilidade, nascerá o conhecimento.”

Mais ou menos deste período, destacam-se quatro principais escolas médicas na Grécia. A Escola Pitagórica, liderada por Alcméon de Crotona, que como vimos, encarava a saúde como um equilíbrio de forças dentro do corpo, considerando o cérebro como centro das sensações. A Escola Siciliana, de Empédocles, Acron e Filisto, dando destaque à importância do ar. A Escola Jónica, realizando estudos de anatomia. A Escola de Abdera, na qual participava o atomista Demócrito, dando uma especial importância à ginástica e à dieta.

 

A Escola Hipocrática


No início do séc. IV a.C. existiam dois grandes templos e centros de medicina: as Asclépias, consideradas as duas primeiras escolas médicas gregas, a de Cnidos e a de Cós. A Escola de Cnidos desenvolve uma abordagem do conceito de doença como um mal exterior que evolui e que deve ser erradicado rapidamente, defendendo uma proposta terapêutica pragmática e intervencionista. Por outro lado, a escola de Cós entendia a doença como um estado desarmónico entre o corpo e a natureza.

Desta escola de Cós saiu um dos médicos mais importantes da história da medicina, Hipócrates, muitas vezes reconhecido como o pai da medicina ocidental, e que viveu entre 460 e 370 a.C.

Hipocrática

 


Recebeu formação do seu pai e mais tarde de Demócrito de Abdera. Estudou igualmente retórica e filosofia. A magnitude e abertura da Grécia levou-o a viajar em busca de conhecimento, tendo estado na Síria, Egipto, Líbia, etc., assim como por toda a Grécia, tendo conhecido Platão e outros filósofos da época, em cujos ensinamentos encontrou a sustentação do seu pensamento médico.

 

 


Hipócrates criou o estudo da anatomia humana, criando a observação e experimentação na medicina, originando um novo método de estabelecimento de conclusões através do raciocínio indutivo e, simultaneamente, a descrição de muitas das doenças, assim como a indicação de tratamentos adequados. Escreveu igualmente sobre vários outros temas como dietas, feridas e úlceras, ofício médico, aforismos, aves, animais, água e geografia. O seu legado foi reunido posteriormente pelos seus discípulos na obra Corpus Hippocralium, composta de 72 livros, dos quais se sabe que pelo menos 17 foram de sua autoria.

 

escolas médicas

 

 

Desenvolve a Escola Médica de Cós, que será modelo de escolas posteriores, de onde vai sair muita literatura médica em duas vertentes, uma dedicada aos especialistas e outra ao grande público, esta última composta por conferências e discursos de divulgação, escritos por médicos oradores itinerantes.

Uma das ideias importantes da medicina hipocrática era de que a physis do corpo é uma expressão particular da physis universal e, como tal, é o princípio originário e organizador do corpo. É assim que ela projecta no ser as qualidades da harmonia, da ordem e da beleza, regendo a morfologia e as funções normais do corpo e das suas partes. Mas a physis rege igualmente a doença e os seus sintomas e, por isso, a doença era para a maior parte dos autores hipocráticos um facto natural.

A physis possui dois modos de acção: um necessário e outro contingente. Aquilo que ocorre por necessidade ou fatalidade divina não permite a intervenção humana, enquanto que, o que ocorre acidentalmente, pode ser evitado e suprimido através da técnica médica. Classificam assim as doenças em duas modalidades: as determinadas pela necessidade e as determinadas pelo acaso.

Cada ser possui a sua própria dynamis (força, poder) ou um conjunto delas, para além de estar integrado na dynamis de todo o universo. O médico hipocrático observa esta propriedade da physis e analisa a dinâmica de interrelação das diferentes subdivisões de dynamis presentes: da totalidade do indivíduo humano, isto é, do corpo e da alma; da idade e do sexo; de cada órgão, que manifesta uma actividade vital geral ou particular; das actividades e hábitos humanos; dos alimentos; dos medicamentos; dos sintomas e das doenças; das estações, dos climas e das regiões. Toda a prescrição era realizada de acordo com cada uma das Dynamis, e procurava restabelecer o equilíbrio natural das possíveis debilidades ou desarmonias. Não havia uma abordagem generalista, mas seguia a máxima de que não existem doenças mas sim doentes.

 

Uma abordagem filosófica da saúde:


No pensamento grego podemos encontrar uma íntima relação entre a filosofia e a medicina, e que melhores exemplos do que as semelhanças entre o pensamento e métodos de Hipócrates na medicina, e de Platão na filosofia, constituindo um dos postulados mais importantes para ambos a abordagem unificadora e integral?

Hipócrates procura entender o ser humano como um todo, onde todas as partes se integram, e é nele que se foca a atenção do cuidado de manutenção do equilíbrio ou saúde e não na patologia do corpo. A saúde é o resultado do equilíbrio das partes com o todo.

Para Hipócrates, o cuidado médico tinha uma focalização integral: corpo, alma, natureza e sociedade compreendidos como partes indissociáveis de um todo. Do mesmo modo vamos encontrar na obra de Platão e na Paidéia grega o sentido do desenvolvimento harmónico do ser humano: “mente sã em corpo é”, uma formação da alma e do corpo num desenvolvimento harmónico com o mundo circundante, tanto da natureza como da sociedade.

O desenvolvimento do pensamento médico na Grécia foi fortemente influenciado pela filosofia pré-socrática e o conceito de phisis, da natureza do cosmos e o sentido de totalidade (universus).

 

Escolas medicas

 

A atitude filosófica pré-socrática de observação da natureza e da realidade na procura de explicações causais para os fenómenos da natureza, estabelecendo explicações de causa e efeito, e a existência de uma ordem universal espelhada nas diferentes leis, proporcionou esse mesmo espírito à medicina grega, com a observação da natureza e realidade do doente, e uma compreensão da conexão necessária de todas as partes: corpo, mente, sociedade, natureza. A noção de saúde estabelecia-se numa relação equilibrada entre as partes que constituem o todo. Assim, uma natureza em desequilíbrio ou uma sociedade doente pode gerar desequilíbrios ou doença no ser humano, tal como o desequilíbrio de uma parte do corpo pode criar problemas a todo o corpo.

Jaeger na obra “Paidéia” diz o seguinte:

“Dentro da esfera das influências culturais jónicas, já em Sólon deparamo-nos com uma visão perfeitamente objetiva das leis que regulam o curso das enfermidades e da indissolúvel conexão que existe entre a parte e o todo, a causa e o efeito, visão que naquela época provavelmente só entre os Jónios podia existir com tão grande claridade. É ela que em Sólon constitui a premissa evidente da sua concepção orgânica das crises políticas como perturbações da saúde na vida da coletividade.”

Toda esta visão da grande rede cósmica que interliga todas as partes levou também a que a medicina grega deixasse de ter uma visão focada sobre a doença para a direcionar sobre o indivíduo, abandonando uma visão generalista em prole de uma adequação a cada indivíduo, a medida adequada a cada caso e para cada constituição orgânica, isto é, as diferentes partes que constituem a “unidade indivíduo” e como se interrelacionam. Então o problema passa a não residir apenas no homem em si, mas também no que ingere (o que come e bebe) e no seu modo de viver. Vamos encontrar aqui a noção de justa medida tão cara ao pensamento de Platão e de Aristóteles. Essa justa medida é o que proporciona a saúde do corpo, como diz Hipócrates “para cada natureza individual, uma medida de alimentos e uma proporção de exercícios sem excesso, nem para mais nem para menos, teremos um meio exacto de manter a saúde”. Essa justa medida é a harmonia entre o organismo consigo mesmo e com o que lhe é exterior. No caso do homem, sendo um composto de relações entre a alma e o corpo, ela é a justa proporção entre essas duas partes. A ordem harmónica do corpo é a saúde, a da alma é a virtude.

Nos diálogos platónicos encontramos com frequência a comparação entre a medicina e a filosofia; a primeira cuidando do corpo e a segunda da alma. No entanto, tanto para Platão como para Hipócrates, alma e corpo estavam interligados e por isso o cuidado da alma levava ao cuidado do corpo; assim havia um objetivo a unir a medicina e a filosofia: o cultivo da alma. Platão de um modo muito claro na obra Fédon refere a importância desse “cuidado da alma”, pois ela é o guia do corpo e, por isso, a parte a ser cultivada para atingir a Arete (virtude).

 

escolas médicas

 

Para Platão a medicina é o modelo da retórica autêntica, isto é, do bom uso da palavra, com a finalidade de encaminhar a alma e o corpo para o que verdadeiramente é melhor para o indivíduo, pois assim como ao corpo se deve dar remédios e alimentos para lhe restaurar a saúde e força, à alma é necessário infundir-lhe convicção, tornando-a virtuosa por meio de discursos e argumentos legítimos, isto é, a palavra justa que dá saúde à alma.

Se quiséssemos sintetizar o ponto de união entre a filosofia e a medicina na Antiguidade, seria a concepção de unidade e totalidade presente nas suas visões, o homem como um todo pois não se poderia falar do equilíbrio do corpo sem o equilíbrio da alma.

 

 

 

Da mesma forma que uma parte do corpo não pode ser curada senão em função de todo o corpo, o corpo não pode ser curado sem ter em conta a alma.

Saúde e justiça são dois valores que sempre estiveram ligados. Para Platão a harmonia no todo da cidade é justiça, a maior virtude, a que proporciona a harmonia e equilíbrio na cidade e individualmente a harmonia das forças da alma, a sua saúde. Para Platão, a virtude é pois a saúde da alma, pois se o que é saudável gera saúde, o que é justo gera a justiça, do mesmo modo que o que é nocivo gera doença e o que é injusto, a injustiça.

“O remédio da alma são certos encantamentos. Estes consistem nos belos discursos que fazem nascer na alma a sabedoria. Quando a alma possui por uma vez a sabedoria e a conserva, é fácil então dar saúde à cabeça e ao corpo inteiro” (Platão, no Fedro).

Como Jacques Derrida refere na sua obra “A Farmácia de Platão”, o pharmacon, que designa remédio, droga, veneno ou cosmético é para Platão, na saúde da alma, o uso da palavra que, quando administrada com o fim de levar ao conhecimento e equilíbrio, é remédio, quando mal empregue é veneno e quando dissimulada é cosmético. Assim como um medicamento mal administrado pode gerar doenças, mascarar uma patologia, a palavra mal empregue também o pode, daí a necessidade do conhecimento da Ideia, para o correto uso do pharmacon, da palavra, para Platão. Para Hipócrates é o conhecimento das circunstâncias (ventos, águas e regiões), da organização da sociedade, da natureza e dos hábitos do indivíduo, e não um princípio universal, que garantirá o correcto uso de um pharmacon, seja ele uma dieta, um remédio ou uma palavra.

Na obra “Das Epidemias” de Hipócrates, encontramos claramente essa aproximação entre a escola platónica e a hipocrática, da necessidade do cuidado da alma: “O esforço físico é alimento para os membros e para os músculos, o sono é-o para as entranhas. Pensar é para o Homem o passeio da alma”. O caminho para a manutenção da saúde e aperfeiçoamento do equilíbrio natural, seria assim o exercício do corpo e da alma.

Dizia Platão dessa relação entre alma e corpo: “Não há proporção ou desproporção que mais produza saúde ou enfermidade, virtude e vício, que a que existe entre a alma e o corpo”. “Não devemos mover o corpo sem alma nem a alma sem corpo”. “Desta forma estarão em vigilância entre si, e manter-se-ão sãos e equilibrados”.

O pensar é o exercício da alma e a palavra o seu remédio. A manutenção da saúde, no seu sentido integral – alma, corpo, sociedade e natureza – assim como requer um cuidado constante com uma dieta adequada, que inclui os alimentos e estilo de vida, também inclui o exercício do pensar. Neste sentido comungam a medicina hipocrática e a filosofia socrático-platónica.

Também Aristóteles, ao falar do conceito de equilíbrio, se referia a uma medida interna, um meio-termo relativo a cada indivíduo, recusando uma medida única, uma regra absoluta, uma receita que se aplique a qualquer caso. Assim se encontra também na medicina hipocrática em que o médico é chamado a restabelecer o equilíbrio, a medida natural, dependendo essa medida das circunstâncias, das características individuais, sendo por isso uma medida flexível, orgânica.

O pensamento cartesiano deixou como herança uma dicotomia mente-corpo, da qual a medicina também foi herdeira, isolando o corpo e seccionando-o em partes, pois ocupa-se das partes doentes.

“É curioso pensar que Descartes contribuiu para a alteração do rumo da medicina, ajudando-a a abandonar a abordagem orgânica da mente-no-corpo que predominou desde Hipócrates até ao Renascimento.“ (António Damásio, O Erro de Descartes)

Esta visão cartesiana de separação é, no entanto, mais um produto pós-Descartes do que realmente seu, porque para Descartes, essa separação constituía uma metodologia, de modo a ser dado um tratamento adequado a cada uma das naturezas.

Diz Descartes a este propósito:

“...não somente estou alojado no meu corpo, como um piloto no seu navio, mas, além disso, estou-lhe unido muito estreitamente e de tal modo confundido e misturado que componho com ele um único todo. Pois se assim não fosse, quando o meu corpo é ferido não sentiria dor alguma, eu que não sou senão uma coisa pensante, apenas perceberia esse ferimento pelo entendimento, como o piloto percebe pela vista se algo se rompe no seu navio...”

O conceito de saúde, que na Antiguidade significava equilíbrio ou harmonia do todo, foi substituído por ausência de doença. O olhar do médico que era direccionado ao todo passou a focalizar-se sobre a parte, que cada vez é menor. O cuidado que antes era dirigido ao corpo e à alma, dirige-se agora para a doença. A atenção médica que antes era dedicada mais à prevenção, à manutenção do equilíbrio, agora ocupa a maior parte do seu tempo tratando as doenças já estabelecidas. O conhecimento das circunstâncias, do ambiente, dos hábitos, da organização familiar e social é deixado em segundo plano, primando a investigação através dos exames laboratoriais. O cuidado para a não generalização que existia na Medicina Hipocrática deu lugar à generalização, deixando-se as características individuais para segundo plano.

Por outro lado, a filosofia foi-se tornando uma abstração conceptual e não assume mais a função de cuidado, prevenção e saúde do homem em todas as suas dimensões. A função do pharmacon, a palavra, perdeu o seu poder de prevenir e curar, e tornou-se mais um veneno e uma máscara.

 

A Arte como terapia na Filosofia e na Medicina grega

 

Escolas Médicas

 


As maiores referências da filosofia relativamente ao uso das artes em aplicações terapêuticas são de Pitágoras e Platão, embora as menções sejam frequentes no pensamento grego, como por exemplo em Homero, nos filósofos pré-socráticos, nos textos hipocráticos, entre outros.

Tal como já observámos anteriormente, a saúde era entendida na relação entre a alma e o corpo, assim como a relação com o meio ambiente, seja ele o universo ou a Pólis; daí a importância dada à influência das artes sobre a alma e o corpo e, logo, o seu estado de harmonia.

O conceito de terapia, ao contrário do que normalmente aplicamos hoje, não se resumia exclusivamente à cura de uma desordem instaurada do corpo ou da mente. O termo therápon, utilizado por Homero, designa o companheiro do guerreiro, o escudeiro. A forma verbal therapeúein significa “cumprir as funções de therápon”, daí o seu significado de cuidar, assistir, de onde acabou por derivar o termo therapeia (serviço, cuidado) referindo-se assim aos cuidados, não só de restaurar mas também de manter a saúde.

Uma das características do pensamento antigo, e que agora ressurge como visão de vanguarda, era considerar como característica essencial do ser humano a sua relação com o meio ambiente e dessa relação mais ou menos harmónica dependia o seu bem-estar ou o desenvolvimento da doença. Como forma de manter o equilíbrio ou restaurá-lo, foram utilizadas as artes como meio terapêutico, sendo talvez Pitágoras o primeiro a atribuir-lhes essas funções.

Penso ser importante esclarecer, para que se possa entender como a filosofia e a medicina se cruzam, que para Pitágoras e para toda a filosofia à maneira clássica, o caminho filosófico era fundamentalmente um modo de vida dirigido à elevação da alma, ao crescimento interior do homem, em que o estudo e reflexão de todas as manifestações e questões da vida serviam como guia para viver de um modo mais correcto, verdadeiro e justo.

É importante recordar que para Pitágoras o elemento que estabelece a relação entre toda a natureza é o número, ele é a causa da harmonia, o princípio divino estruturante do mundo. No Cosmos (no sentido geral de ordem), a alma humana está em íntima relação com o universo e Deus, e como o semelhante pode ser conhecido pelo semelhante, a alma é capaz de conhecer o desenho do Cosmos. Isto implica para o pensamento pitagórico que quanto mais se conhece algo, mais se vai assemelhando a ele. Assim, procurar entender filosoficamente a estrutura cósmica de Deus leva progressivamente a uma assimilação da alma com a divindade. Na medida em que se conhece o cosmos divino, a ordem e a harmonia vão-se reflectindo na própria alma.

 

Escolas Médicas


Das artes, Pitágoras refere a música, a poesia e a dança como capazes de purificar a alma, transformando-a em boa, bela e harmoniosa, e no que se refere ao corpo, são capazes de tratar doenças e desordens, restaurando a saúde. Na Biografia de Pitágoras (Pythagórou Bios) de Porfírio, o filósofo de Samos aparece curando as doenças da alma e do corpo por meio de ritmos e cantos, através da poesia e da música. Porfírio relata, na citada obra, como Pitágoras curava os corpos e reanimava as almas dos seus discípulos quando estes ficavam doentes, valendo-se para tal de cantos que qualifica de mágicos. Na mesma passagem, assinala que existia toda uma gama de diferentes tons e melodias para o corpo ou para as alterações da alma. Relata também que Pitágoras, a fim de preservar a sua alma num estado saudável, todas as manhãs cantava versos de Tales, Homero e Hesíodo, e para manter o seu corpo ágil e são, executava danças.

Jâmblico em “La vita pitagorica”, atesta os relatos de Porfírio contando como Pitágoras não só ensinava como a música e a poesia contribuíam para a saúde mental e física, mas dizendo que também aplicou esse método para curar desordens do corpo e da alma. Na obra “Peri toû Pythagorikoû Biou”, Jâmblico relata como Pitágoras ao cuidar do bem-estar das pessoas começava com o cuidado de lhes proporcionar a perceção visual de formas e figuras belas e de belos ritmos e melodias para o ouvido, capazes de curar tanto na sua condição anímica como no respeitante às suas doenças. Deste modo, podia ainda regenerar a harmonia das partes da alma, constituindo-se assim num meio para a cura das doenças tanto da alma como do corpo.

Relata também Jâmblico que Pitágoras compôs músicas para os seus discípulos, através das quais alcançava a inversão no polo oposto das diferentes doenças da alma que produziam dor, ira, medos, estados depressivos, agressividade, etc., servindo-se assim destas melodias como compostos benéficos para a saúde. Jâmblico assinala, ainda, que havia diferentes melodias para as diferentes doenças da alma (ira, angústia, medos, etc.). Os pitagóricos, para além da música, utilizavam também a dança acompanhada pela lira e a declamação de versos de Homero e Hesíodo como meios para preservar e restabelecer a harmonia da alma. A dança, pelos seus movimentos corporais, também tinha a finalidade de propiciar agilidade e saúde ao corpo.

 

Escolas Médicas



Para a filosofia platónica é evidente a importância dessa relação entre a saúde e as artes, analisando Platão a saúde em termos estéticos como harmonia, ordem, proporção, ritmo, enquanto que a doença, sendo um estado negativo, é descrita como desarmonia, desordem, desproporção e ausência de ritmo.

Para Platão, a saúde do corpo encontra-se na devida proporção das substâncias que o compõem, a interrelação das funções e que o próprio corpo se encontre em relação harmónica com a alma.
Para Platão, a alma é ternária e ordenam-se hierarquicamente no sentido descendente: a racional, a impetuosa e a apetitiva. Quando estão ordenadas naturalmente na sua posição, desenvolvem-se as funções que lhe são próprias e então existe harmonia e saúde na Psyché. Para que essa ordem natural ocorra, devem operar as quatro virtudes principais: sabedoria, valor, moderação e justiça. Quando se inverte a ordem hierárquica na alma, essas quatro virtudes são convertidas nos vícios ou doenças da alma a que se refere Platão: em vez de sabedoria há ignorância; em lugar de valor, cobardia; em lugar de moderação, intemperança; em lugar de justiça, a injustiça. Do ponto de vista ético, uma alma afectada por um destes vícios é má, do ponto de vista estético é feia e do ponto de vista médico é doente. No IV Livro da República, Platão define a virtude como a saúde, beleza e vigor da alma.

... a excelência (areté) é algo como a saúde (hygieia), a beleza (kállos) e a boa disposição de ânimo (euexia psykhês); enquanto que o malogro (kakia) é como uma doença (nósos), fealdade (aîskhos) e fraqueza (asthéneia)”. (Platão, República, IV, 444d-e)

Quando Platão se refere ao valor terapêutico da arte, não deve entender-se exclusivamente como um modo de restaurar a saúde perdida, mas como um modo de preservar um estado harmónico do corpo e da mente. É neste segundo sentido que Platão destaca a importância das artes na educação, onde estão compreendidas a “música” e a “ginástica” (entre aspas, pois estes conceitos são muito mais amplos do que o que poderíamos atribuir-lhes à partida).

A palavra música revela através da sua etimologia uma relação com as Musas, deusas das artes e ciências, e das quais também a filosofia era filha. Platão no Fédon fala dessa relação entre a música e a filosofia do seguinte modo: “A filosofia era a mais elevada música”.

Platão fala dos diferentes modos musicais aplicados aos estados de alma, como o dórico para combater a cobardia e o frigio para desenvolver a moderação. Como vimos anteriormente para Pitágoras, a música era entendida como uma unidade música-palavras, quer dizer, a poesia cantada, epodai.

“... a educação musical é de suma importância porque o ritmo e a harmonia são o que mais penetra o interior da alma e a afecta mais vigorosamente, trazendo consigo a graça... Aquele que foi educado musicalmente como deve ser louva as coisas formosas, alegra-se na sua alma e nutrir-se-á delas até se converter num homem de bem.” (Platão, República)

 

 

Escolas Médicas

 

Aristóteles refere-se também ao efeito dos diferentes modos musicais nos seguintes termos: “diferem essencialmente um do outro e quem os escuta sente-se diferentemente afectado por cada um deles. Alguns entristecem e tornam sérios os homens, como o chamado Mixolidio; outros debilitam a mente, como os modos lânguidos; por outro lado, há os que produzem um estado de ânimo moderado e estável, o que parece ser o efeito peculiar do Dórico; o Frigio inspira entusiasmo.

Nos Asclepions, templos e centros médicos de cura dedicados a Asclépio, realizavam-se procissões, orações e cerimónias acompanhadas de música terapêutica. Inclusive em alguns santuários foram construídos edifícios especialmente dedicados a esse fim, denominados “odeón”, com uma acústica especialmente cuidada: havia uma sala destinada a audições (instrumentais, solistas e corais)onde os doentes se curavam dos seus males espirituais. A dança, embora fazendo parte da ginástica, e portanto proporcionando a saúde do corpo, é capaz de produzir modificações na alma. Para Platão, se bem que factores fisiológicos possam causar determinadas emoções, também estas podem produzir alterações fisiológicas. Estados de alma como o valor e a moderação, estão associados com certas posturas e gestos e estes desenvolvem uma tendência na pessoa para experimentar esses estados. A interacção entre corpo e alma não é unilateral, mas sim recíproca, princípio presente em praticamente todas as medicinas tradicionais com ligações ao pensamento filosófico (Egipto, China, Índia, Grécia, etc.) e que hoje começa a ser objecto novamente de interesse e estudo.

 

Asclepion

Odeón do Asclepion de Pérgamo



Para Platão, a arte tem como efeito benéfico sobre a alma o facto de reflectir os ideais, isto é, exprimir, transmitir, simbolizar ou mostrar ao ser humano tais ideais, os quais ao serem apreendidos pela alma vão modelando o temperamento do homem à semelhança desses ideais. A contemplação leva à assimilação do contemplado.

As verdadeiras obras de arte possuem uma influência benéfica na alma, não só por assimilar os ideais que transmitem, mas porque produzem um efeito purificador, de kathársis, isto é, de supressão do mau e a conservação do bom.

 

Conclusão


Para os antigos filósofos e médicos um coração saudável é uma alma feliz, que atingiu uma forma adequada de felicidade. O nome grego atribuído a esse tipo de homem era "kalos kagathos", que significa o homem bom e belo. E para alcançar este estado, a “terapia” não era outra senão a filosofia.

Assim como para o médico, existem dois tipos de tratamento, um preventivo e outro curativo, assim podemos observar na prática da filosofia a mesma forma: há um tratamento preventivo, uma prática regular e assídua da filosofia e uma curativa, o elenchos, que significa "arte da refutação", a dialética ou o método socrático, que significa "a arte da alma para dar à luz ", um termo cunhado por Sócrates. O papel da filosofia é permitir a uma alma aperfeiçoar-se. A justiça é o maior bem, o maior e mais poderoso remédio.

A saúde é como parte de um todo maior e é regida pelas mesmas leis que mantêm a harmonia tanto no céu como na terra. Esta harmonia é como a música, uma consonância de sons, um equilíbrio entre o rápido e o lento que, devidamente combinados produzem o ritmo. Consonância e ritmo são a arte da saúde e ambas são obras do amor, regidas por Apolo e administradas por Asclépio e Higia. A saúde surge assim como Felicidade, sendo a “felicidade do corpo” o resultado da saúde da Alma, a verdadeira Felicidade, os bens divinos: sabedoria, temperança, justiça e coragem.

 

Escolas Médicas

 

 

 

José Ramos
Janeiro 2012

 

 

 

Bibliografia:

- El Proemio a “De Medicina” de A. Cornelio Celso, de Claudia Chuaqui Farrú
- Caminhos e bifurcações da história da formação médica, de Lenina Lopes Soares Silva
- O legado hipocrático e sua fortuna no período greco-romano: de Cós a Galeno, de Regina Andrés Rebollo
- Medicina Greco-Romana, de Osvaldo Pessoa Jr.
- Aleméon de Crotona, o avô da medicina, de José Marques Filho
- Pensando o processo de saúde doença: a que responde o modelo biomédico, de José Augusto C. Barros
- Las bellas artes como terapia en Pitágoras y Platon, de Sergio González A.
- Saúde: uma abordagem filosófica, de Mónica Aiub e Luis Paulo Neves

 


 

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