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D. Dinis um Rei Sábio

«O nosso pensamento deve ser como um raio de Sol: Não chocar violentamente contra os impedimentos, parar e esclarecer tudo quanto percebe.»

Marco Aurélio

 

Esta meditação do imperador-filósofo romano, que se encontra no livro VIII dos seus Pensamentos para mim próprio, reflecte muito bem a inteligência e o modus operandi do nosso Rei-Poeta. Talvez não haja na história conhecida uma tão grande semelhança entre outros dois reis do que aquela que existe entre o imperador Marco Aurélio e D. Dinis.
Se o tio-avô de D. Dinis, Afonso X, o Sábio, recebeu este cognome foi pelo esforço em promover o conhecimento, pela tradução de livros, pela fundação da Escola de Tradutores de Toledo para além de outras coisas. Mas o Rei D. Dinis foi considerado sábio por muito mais. Ele promoveu o saber, com a fundação da Universidade de Coimbra. Também impulsionou as traduções e fez da língua portuguesa a mãe da nossa nacionalidade, como diria Fernando Pessoa. Mas, acima de tudo, demonstrou em alto grau as distintas formas em que a sabedoria se pode expressar.

«Talvez não haja na história conhecida uma tão grande semelhança entre outros dois reis do que aquela que existe entre o imperador Marco Aurélio e D. Dinis.»

1 – Como providência, que é a alma da verdadeira prudência. É o saber ver, é a percepção daquilo que a vida e a história requerem de cada um, quer dizer, o que o futuro exige de nós. Foram actos de singular providência os que permitiram fazer de Portugal, que era na altura, em certa medida, um agregado de povoações, uma nação civilizada. Pois esta última manifesta-se com uma administração orgânica, um sistema de leis, uma língua comum, uma estratégia de defesa nacional, uma economia desenvolvida através da organização do trabalho, o comércio e a exploração dos recursos naturais. Mas em tudo isso centrou os seus esforços com uma clara visão do futuro. Pois durante o seu reinado sobressaem, precisamente, «a organização e dignificação do trabalho, a preocupação pelo cultivo do intelecto, tão intenso como o da terra; o amparo das indústrias, sem esquecer a mineração, que era básica; o desenvolvimento da marinha mercante indispensável à expansão do comércio internacional; a sábia elaboração de leis justas aplicadas com imparcial espírito de justiça; o permanente cuidado de salvaguardar os interesses da plebe, tão menosprezados pelas classes dominantes na Idade Média, a multiplicação dos concelhos em que os povoados se defendiam melhor da voracidade dos grandes senhores e o constante impulso dado pela instituição da Coroa ao progresso geral do país.»

2 – Como justiça nas decisões, pois a justiça é a expressão formal e objectiva da sabedoria. Sabedoria e justiça presentes na elaboração de um corpus legal, de tal eficácia na administração e nos costumes, que perduraram durante séculos e logo seriam compiladas nas Ordenações Afonsinas. O povo, com a sua memória tão fiel, converteu em aforismo a sua proverbial justiça e recordaria que: «Não há juiz como D. Dinis.»

3 – Como diplomacia, quer dizer, saber enfrentar a violência com força, mas sem gerar mais violência. Não ferir nada nem ninguém sem necessidade, a não ser que seja para actuar como o médico ao usar o bisturi. A sua diplomacia impediu várias vezes a guerra com Castela, a guerra civil como motivo da rebelião do seu irmão, o infante Afonso; os interditos e as excomunhões lançados como dardos de artilharia psicológica pelo Vaticano, perigosos dissolventes morais naqueles tempos. Esta diplomacia permitiu-lhe, também, fortalecer Portugal através dos casamentos dos seus filhos com príncipes de Castela: Constança com Fernando IV e Afonso IV com Beatriz, futuros reis de Castela e Portugal, respectivamente. Também soube manter-se imparcial e fazer o devido, não se deixando levar pela ira ou pelo abatimento, quando o seu próprio filho se sublevou originando uma guerra civil no interior das fronteiras portuguesas. É pela sua fama de sabedoria que o próprio papa o elege para arbitrar a contenda entre os reis de Castela e de Leão, por ser o único em quem todos confiariam no encontro de uma solução justa.

 

«(...) Um dos sinais da sabedoria é o sentido de oportunidade, saber quando se deve fazer as coisas e quando não se deve.(...)outro sinal de sabedoria, é conhecer de um modo directo a realidade, sem intermediários, enfrentar os factos crus, sem argumentos.(...)»

4 – Nas Decisões Rectas, pois como diz o sábio da Índia Sri Ram, «a sabedoria não é uma matéria de estudo, mas sim de vida.».  É difícil destacar algumas destas decisões rectas, pois a sua vida inteira foi uma sucessão de actos inteligentes, como bem o provaram as férteis consequências dos mesmos. Foi um signo distintivo de sabedoria, por exemplo:

a) Assumir a sua responsabilidade como Rei com 18 anos, impedindo, com grande delicadeza, que a mãe, Beatriz de Castela, governasse com um Conselho de Regência. Mas não fez isto por uma ambição insana, e a prova foi que não despediu os que tinham sido ministros de confiança do seu pai, o rei Afonso III. Um dos sinais da sabedoria é o sentido de oportunidade, saber quando se deve fazer as coisas e quando não se deve.

b) Logo após ser nomeado Rei, iniciar um percurso por Portugal inteiro para conhecer de facto a situação da terra, das suas gentes, para que todos o conhecessem (nesses dois anos de viagem ganhou o coração dos seus súbditos), aproveitando para fazer um trabalho hercúleo de fortificação das fronteiras: outro sinal de sabedoria, é conhecer de um modo directo a realidade, sem intermediários, enfrentar os factos crus, sem argumentos.

c) Dar autoridade aos municípios, formando um Terceiro Estado, o do povo, para encontrar assim um equilíbrio de forças, com os outros dois, o Clero e a Nobreza: outra das características da sabedoria, achar o centro de gravidade e de forças, pois a sabedoria sempre descansa no verdadeiro centro de todos os assuntos.

d) Não ceder à pressão dos acontecimentos, por exemplo, quando faleceu o seu pai, o rei Afonso III, que o fez comprometer-se a cumprir o seu testamento, o que incluía ceder a todas as pretensões do clero (Afonso III fez isso, possivelmente, por recear que a sua alma não descansasse em paz). D. Dinis conseguiu retirar a suspeita e a excomunhão, mas sem ceder a todas as exigências do clero, mas pelo contrário, reduzindo o seu poder temporal e submetendo-o ao Rei. Foi preciso muita força para não ceder à pressão «emocional» e, no entanto, sair triunfante. O mesmo podemos dizer com todo o processo dos Templários e do nascimento da Ordem de Cristo. É próprio da sabedoria encontrar o quando e o como, não cedendo a nenhum tipo de pressão, pois não há nada mais livre do que a luz da sabedoria.

e) Deslocar a Universidade para Coimbra, para evitar que esta se corrompesse com a vida da corte ou com as correntes chegadas do estrangeiro a Lisboa.  

José Carlos Fernandéz
Director Nacional da Nova Acrópole
                                                                                                        

                         

«No conjunto das qualidades morais e intelectuais de D. Dinis, uma há que parece predominar sobre as outras e até harmonizá-las de forma a dar-nos uma imagem global do seu carácter: o bom-senso. (…) O bom-senso que se alimenta da equidade e bondade, sendo por isso muito mais vantajosa para a Sociedade, visto que é através do humano que tende a realizar os grandes ideais colectivos. Esta última era a sensatez que caracterizava o rei-poeta.
Em todas as soluções, mesmo quando se tratasse de conflitos violentíssimos, acabava por dominar sempre o bom-senso equânime deste rei ímpar da história nacional. (…) a serena paciência, a perspicácia, o penetrante poder de análise dos homens e dos sucessos, o dom de previsão e o sentido da oportunidade em que se deve actuar, que faziam de D. Dinis um homem acima do comum. Nele se aliavam o coração e a inteligência, permitindo-lhe realizar uma obra de estadista que o impôs como um dos primeiros, senão o primeiro monarca do seu tempo. Servido de tão excelentes qualidades, não admira que os seus triunfos na política externa se registassem a par dos que obteve dentro do seu reino.»

«Não precisou D. Dinis de cometer espectaculares façanhas guerreiras para se cotar como o monarca de maior envergadura de estadista de toda a primeira dinastia, e talvez de toda a Europa do seu tempo. Pelo contrário, foi com os seus actos pacíficos que pôde engrandecer a nação, mais do que os seus antecessores e os seus próximos descendentes. E o mais relevante neste rei é que ele, para bem governar, se absteve de lançar mão de processos que a sã moral e a boa razão condenariam em qualquer pessoa vulgar: nada de ludíbrios ou ardis equívocos para fazer triunfar os seus planos, nem de mentiras astuciosas, nem de descarados perjuros tão frequentes nos nobres senhores de então, nem de perseguições iníquas, nem de simulada ignorância dos delitos praticados pelos seus partidários, só porque eles alinhavam no seu partido, nem de tolerância dos crimes dos seus parentes mais chegados. Contudo o seu coração magnânimo gostava mais de perdoar que de condenar, porquanto sabia distinguir entre a justiça e a bondade, ou melhor: tinha a intuição de que sem bondade não haveria justiça perfeita.»

Mário Domingues
In  D. Dinis e Santa Isabel

 

 

 

 

 


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