Logo_NA_Verde_2013    
     
  a   a   a   a   a   a   a   a   a   a  
                             
 

A Chama Platónica

Introdução


Há mais de 23 séculos, os ensinamentos de Platão encetaram uma longa viagem, recheada de paragens, percorrendo alguns trechos do percurso de forma estável, e outros sob conturbada instabilidade, ainda outros, quase imóvel, mas a sua chama nunca se apagou, pois a sua essência não morre, simplesmente prossegue o interminável ciclo do devir, do qual, o próprio Platonismo não escapa, sendo as suas reminiscências óbvias, e inevitável o seu regresso, porquanto ele faz parte da roda da vida, de cujas leis, ele mesmo é reflexo.

O legado de Platão é de tão vasto e profundo alcance, que expô-lo em tão poucas linhas seria como tentar colocar todo o mar num pequeno aquário, para poder ser então estudado, assim, este trabalho pretende ilustrar de uma forma sucinta, e sem esgotar o tema, as influências do mestre Grego nas obras dos filósofos mundiais que o sucede-ram, nas grandes correntes de pensamento - seja qual for o quadrante da pirâmide de onde provenham - e também no quotidiano das pessoas que viveram no passado, vivem nos dias que correm e viverão num mundo que se quer necessariamente melhor.


Vida

 

Antes de fazer a análise da influência que Platão exerceu sobre a história, é importante fazer referência ao trabalho que realizou na Academia para que tal acontecesse, pois o pensamento platónico evoluiu paralelamente ao desenvolvimento da Academia.

Platão nasce em 428 ou 427 A.C. no seio de uma família aristocrata de Atenas, com ligações ao regime político da época e à antiga monarquia e tem uma educação condigna: música, ginástica, poesia e filosofia são as principais áreas de estudo.

À medida que vai crescendo, torna-se evidente a sua inclinação natural para a política e, ainda jovem, Platão decide que esse será o seu futuro…não podia estar mais enganado.

Aos 20 anos conhece Sócrates, que será seu mestre durante 8 anos, e é precisamente a ignóbil morte deste às mãos da democracia Ateniense e a incapacidade política do go-verno dos trinta, imposto por Esparta, que levarão Platão a repudiar a política, tal como era praticada na altura, e nunca chegar a ter uma vida política activa, mas antes a dedicar toda a sua vida, a procurar criar os alicerces do que seria o regime politico ideal, e a desenvolver as suas teorias: reminiscência, simplicidade da alma, contrários, reencarnação, mimesis e teoria das Ideias, base do seu conceito filosófico.

Quando forma a Academia, Platão já tinha um grande lastro de conhecimento, adquirido ao longo de vários anos e enriquecido através das suas viagens pela Grécia, Itália, Egipto. A Academia é normalmente apontada como a primeira escola a reunir todas as características de uma verdadeira escola, onde se veicula um novo saber, sob um corpo organizado de conhecimentos, se incentiva a investigação, existe como um lugar físico de localização privilegiada e com regulamentos que lhe permitem sobreviver durante 900 anos, até que Justiniano decretasse o seu encerramento.


Base do Pensamento Filosófico

 

Segundo Platão, o mundo tal como o concebemos com os sentidos, portanto um mundo sensível, corruptível, de mudança e ilusório, não é mais do que uma mera sombra do mundo inteligível, esse sim, verdadeiro, imutável e constituído pelas essências ideais ou arquétipos, das quais, todas as coisas pertencentes a este mundo material são meras imitações.

Para que este mundo fosse criado, o demiurgo, divindade primordial, fez transitar o mundo físico - a natureza - de um estado de caos a um estado de ordem.

Este dualismo idealista de Platão, ou me-lhor este racionalismo ou realidade das ideias, leva a que o conhecimento empírico seja relegado para um segundo plano, pois baseado numa realidade mutável e aparente, não passa de uma mera especulação, a qual não faz o indivíduo libertar-se da cárcere que lhe foi imposta pela roda da vida.

Ao consciencializar os verdadeiros conceitos pertencentes ao mundo inteligível, o indivíduo facilita a reminiscência, o relembrar das ideias que a alma havia contemplado aquando da sua permanência naquele lugar, e que leva a admitir a sua teoria da reencarnação ou metempsicose, o que nos deixa perceber também a influência órfico- -pitagórica no pensamento platónico.

Platão, através da razão, tenta fazer a conexão entre a doxa especulativa e o domínio da metafísica. Neste processo, a alma desempenha o papel principal, pois é através da sua purificação pela acção, que sairá ao de cima a sua sabedoria intrínseca e que a levará em última instância a libertar-se do ciclo da vida como o conhecemos, tornando-se una com esse mundo ideal ao qual verdadeiramente pertence.


O platonismo como motor da história

Aristóteles

 

Apesar do que alguns historiadores querem fazer crer, Aristóteles, um dos principais discípulos de Platão, prova cabalmente a influência que o seu mestre exerceu sobre ele, ao permanecer na Academia sob os seus ensinamentos durante 20 anos e só rompe com ela após a morte deste. Mesmo quando critica algumas das teorias de Platão, fá-lo de forma educada, relembrando a grandeza e exultando a memória do seu mestre.


Neoplatonismo

 

O Neoplatonismo é uma corrente renovadora, bebendo de uma forma ecléctica de doutrinas vindas do Oriente e ensinamentos do Ocidente, sobretudo do génio Platão. “É necessário que haja um algo anterior a tudo, algo que deve ser simples e diferente de tudo posterior; existente por si próprio, transcendente ao que dele procede e, ao mesmo tempo, de uma maneira típica, capaz de estar presente nos outros seres” (Eneada, V, 4, 1).

Conseguimos ver aqui nesta ideia do uno como principio primeiro, donde procede a multiplicidade dos seres, semelhanças com o incondicionado do platonismo. Os neoplatónicos partem de uma base filosófica de aproximação à verdade de uma forma activa, através da razão, da reflexão e meditação, embora sob um aspecto mais pessoal e não tanto social, como vemos em Platão. Conseguimos ver ainda analogias nas ideias do Belo, do Eros, dos números, do Ser e da alma.

Cristianismo

 

O cristianismo original foi fortemente influenciado pelo helenismo (possivelmente o contrário também é verdade, veja-se o Antigo Testamento), portanto em certa medida, também por Platão, pois este moldou o pensamento na Grécia clássica. Esta influência adquire em Clemente e Orígenes (dois dos primeiros padres da igreja cristã), que entre outras coisas acreditavam na reencarnação, uma importância da mais alta significação. Além de representar uma tentativa de fundamentação filosófica das verdades da fé, inauguram uma distinção entre o simples crente e o teólogo, entre aquele que apenas alcança uma interpretação literal ou histórica da doutrina e aquele que conhece o verdadeiro significado dos livros sagrados e entende certos exemplos bíblicos metaforicamente, como exemplos de grandes verdades metafísicas ou éticas, numa altura em que em Alexandria, a par do nascente neoplatonismo, se imiscuía a mensagem católica numa especulação filosófica.

Mais tarde, houve uma personalidade que, ao converter-se ao cristianismo, trouxe com ele um lastro de experiência que lhe permitiria sintetizar os componentes da filosofia patrística como fundamento racional da fé cristã: Santo Agostinho.

Para Agostinho, a fé e a razão complementam-se na busca da felicidade e da beatitude. Ele é considerado um grande filósofo pela penetração filosófica na análise de alguns problemas e na sua grandiosa concepção do mundo, do homem e de Deus, como se pode ver na sua obra A cidade de Deus (talvez influenciada pela República).

Para Agostinho, o homem seria sobretudo um ser pensante e o seu pensamento não se confundiria com a materialidade do corpo, tal como advogava Platão, para o qual o homem é definido como uma alma que se serve de um corpo e não um corpo que se serve de uma alma, assim, o verdadeiro conhecimento não seria a apreensão dos objectos exteriores ao sujeito, devido à sua variabilidade, e sim, a descoberta de regras imutáveis, como o principio ético segundo o qual é necessário praticar o bem e evitar o mal.


Islão

 

Devido ao declínio da época clássica, muitas das obras deste período acabaram por se difundir para o Oriente, sendo depois traduzidas para Árabe por diversas figuras, tendo estas obras, grande influência no desenvolvimento do pensamento filosófico muçulmano.
As obras de Platão acabariam por também ser traduzidas (embora Aristóteles assumisse uma maior importância aqui) sendo Al Fârâbi um dos mais influenciados, tentando o que pensaria ser conciliável: uma síntese entre Platão e Aristóteles, servindo-se para isso de um extracto das Eneadas de Plotino que ele julgara pertencer a Aristóteles.


O Renascimento:
A Academia de Florença

 

Muito mais que um movimento huma-nista, o renascimento incorpora os valores, a virtude e o profundo conhecimento do mundo e cultura clássicos, um espírito universal e tolerante e profundamente comprometido com a dignidade do Homem e foi impulsionado pelo grupo de homens mais brilhante na Europa da época composto por figuras como Pico della Mirandola, Poliziano, Lorenzo de Medici, Alberti, Botticelli, Michelangelo, Rafael, Ticiano e outros e tem como berço Florença. Marcilio Ficino é quem agrupa alguns destes homens sob um mesmo tecto, no que viria a ser a Academia de Florença, - em honra à sua maior influência: Platão - verdadeiro centro irradiador do renascimento do ocidente.

A influência do mestre Grego faz-se sentir em todo o esplendor do seu pensamento, desde a imortalidade da alma até à cosmogonia platónica, passando pela tradução de todos os seus diálogos. Ficino e a Academia seriam, contudo, influenciados por toda a antiguidade, adquirindo um teor multifa-cetado, que vai mais além de Platão introduzindo o que ele chamaria de “furor divino”, tentando demonstrar que os criadores inspirados e possuídos por este furor, também alcançariam o contacto com Deus, à semelhança dos filósofos e místicos.
Ainda neste período, e demonstrando que o seu legado não se fica pelo conteúdo e vai também à forma, temos um ou mesmo o maior apologista literário do renascimento: Camões. Dentre todas as influências que se fazem notar na obra lírica do poeta, Platão pode ser considerado a principal. Tão importante, a ponto do retorno de Camões à Antiguidade clássica ser trilhado pela via Platónica. Camões, de entre tantos líricos da época, foi dos poucos, que soube ver nas passagens da doutrina platónica uma forma de investigar as relações da palavra com o seu significado. Então, o seu platonismo é singular: à verdade, ao belo, à justiça, etc., contidos em estado ideal, no mundo das ideias, ele interpõe uma reflexão sobre o significado e a sua interpretação poética.


Escola de Cambridge

 

Grupo de filósofos e teólogos associado à Universidade de Cambridge, no século XVII.

Com um forte desejo de reformular a religião organizada, foram encontrar na antiguidade, mas sobretudo na doutrina de Platão, os conceitos que, segundo eles, lhes permitiriam reconciliar razão e fé em consonância com a concepção mística da alma em relação a Deus e a crença de que a moral é inata ao ser humano.


Psicologia moderna

 

Foi Jung, através do que ele definiria como inconsciente colectivo - faixa intra psíquica e inter psíquica na nossa psique que contem sensações, pensamentos e memórias de motivos de forte carga afectiva comum a toda a humanidade - um dos maiores percursores dos Arquétipos ou Ideias de Platão, embora Jung caracterizasse estes arquétipos como recipientes, que têm uma forma, mas não conteúdo, pois este seria aplicado pelo individuo que vivenciasse a experiência.

Jung havia percebido este inconsciente ao descobrir que muitas fantasias e imagens dos seus pacientes assemelhavam-se a lendas e mitos da história Universal, sem que se pudesse relacionar o conteúdo dessas fantasias com as experiências específicas dos pacientes.



Política moderna

 

Pode-se afirmar que, sob uma forma deturpada, algumas formas politicas de hoje em dia, tenham ainda resquícios de alguns dos preceitos que Platão enumerou nas suas obras de cariz mais político como a República e As leis. Pode-se citar, como exemplo, a origem do próprio comunismo, cuja origem etimológica é “comum” e um dos seus fundamentos iniciais, era o fim da propriedade privada (defendida por Platão para a classe dos guerreiros) em prol de uma comunidade de bens. ~


Nova Acrópole

 

A Nova Acrópole é uma escola de Filosofia à maneira clássica, isto é, à maneira das escolas da antiguidade como a Academia de Platão, e, salvaguardadas as diferenças devido ao tempo histórico de cada uma, pode-se afirmar que uma é o prolongamento da outra, que a Nova Acrópole é a herdeira do conhecimento legado por Platão, pois mantém acesa a chama do legado platónico e o transporta em direcção ao futuro sob uma estrutura de ensinamento não tão distante quanto a própria distância temporal. Transporta também uma exortação à virtude pela acção e não apenas a um estudo especulativo sobre moral, exigência que nenhum centro de ensino superior do mundo moderno faz aos seus alunos.

 

"(...)outras descobrem que o universo é regido por leis inexoráveis perante as quais devemos assumir o nosso papel, e é para essas pessoas que Platão aponta quando lança o desafio de assumirmos o arquétipo de sociedade ideal."

 


Conclusão

 

Poder-se-iam citar exemplos mais subtis da influência de Platão no nosso quotidiano como sejam o amor platónico, referencia ao arquétipo de amor exaltado pelo filósofo Grego, ou as suas descobertas científicas, que, se pelas quais pode ser acusado de ter falta de especificidade devido ao seu horizonte alargado, também os cientistas modernos podem ser acusados de terem o seu mesmo horizonte do tamanho das células que estudam pois não abordam todas as perspectivas nos seus objectos de estudo, ou ainda do significado dos mitos como roupagens poéticas de profundas verdades filosóficas, mas não são perguntas ou questões que nos ficam de Platão, são certezas, são desafios à acção, à nossa acção, à aventura da descoberta, em fazer com que o homem passe a ter por motor dos seus actos, razões maximamente universais, que se fundamentam numa ordem superior à das estreitas perspectivas que lhe são fornecidas pelas paixões. Assim, as ideias de Platão, não se basearam numa complexa estrutura mental engendrada por ele, mas sim no seu perfeito entendimento das leis da natureza.

Enquanto que para a maioria das pessoas nos nossos dias, a única abordagem compreensível da realidade baseia-se na definição de tudo através de conceitos literais, lineares, racionais, materiais e impessoais, outras descobrem que o universo é regido por leis inexoráveis perante as quais devemos assumir o nosso papel, e é para essas pessoas que Platão aponta quando lança o desafio de assumirmos o arquétipo de sociedade ideal.

Daniel Oliveira

 

 

curso_filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
  Nova Acrópole  
  imagem  
  CURSO FILOSOFIA PRÁTICA
A Sabedoria Viva das Antigas Civilizações
 
   
  Vide Programa do Curso  
 

  ACTIVIDADES n.a. EM PORTUGAL  
 

a

 
  Aveiro  
  Braga  
  Coimbra  
  Lisboa  
  Oeiras-Cascais  
  Porto  
   
  Notícias  
     

  NOVA ACRÓPOLE INTERNACIONAL  

  Anuários  
  Resoluções da Assembleia Geral  
     
  Perguntas Frequentes  
   
     
  Nova Acrópole Internacional  
     

SITES N.A. EM PORTUGAL

Porto
Coimbra
Aveiro
Braga
 

  outros cursos  

   
  Arte de Falar em Público  
  Cursos de Matemática e
Geometria Sagradas
 
  Florais de Bach  
  Outros Cursos  
     

  REVISTA ACRÓPOLE  

   
     

  NOVIDADES EDITORIAIS  

  TÍTULOS PUBLICADOS  
   
 

 
© Nova Acrópole 2009 | Optimizado para monitor 1024X800 | Mapa do site | Webmaster