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Amizade

Um homem jovem pediu. Fala-nos da Amizade.

E ele disse:

O vosso amigo é a resposta para as vossas necessidades.

Ele é o campo que semeais com amor e colheis com agradecimento.

E ele a vossa mesa e o vosso lar.

Porque vos precipitais para ele com a vossa fome e o procurais sedentos de paz...

KHALIL GIBRAN

 

Entre as muitas formas que existem de manifestar o amor, a amizade é, talvez, a mais usual e ao mesmo tempo a mais desconhecida. Quem considera a amizade como uma forma de amor? E, no entanto, a verdadeira amizade, a que nasce do fundo da alma, a que não conhece o tempo nem a distância, a que não sabe de idades, de status nem de conveniências, a que só sabe dar porque nada espera em troca, essa AMIZADE nasce do amor, não como um fogo que arrasa e inflama, mas sim como uma cálida brasa que ilumina e nos aproxima com a sua luz aos Ideais de fogo que iluminam o mundo.

Aristóteles dizia que a verdadeira amizade é aquela que se fundamenta na virtude e que é preciso diferenciá-la daquela outra que se fundamenta na utilidade. Hoje em dia, em nome do amiguismo, cometem-se as mais graves injúrias contra a amizade. Paixões obscuras disfarçam-se sob a sua pele e habituámo-nos a utilizá-la segundo a necessidade que dela tenhamos e, deste modo, chamamos “amigo” a qualquer pessoa que nos convenha ter perto nesse momento, ao sócio, ao conhecido, à pessoa simpática, ao vizinho ou ao colega. A amizade converte-se assim na vítima das nossas necessidades. Quando a necessidade desaparece, a amizade também acaba porque, já se sabe, rei morto rei posto...

No entanto, quem reconhece a amizade como um dom que os deuses deram aos homens abre uma porta ao amor e à liberdade, pois a amizade deseja, acima de tudo, a liberdade do outro; o amigo é o supremo bem a quem dirigimos o nosso afecto e reconhecer a sua liberdade significa respeitá--lo. Nenhuma forma de amor respeita tanto a liberdade do outro como o faz a amizade, pois não há que esquecer que esta é aceite e querida e não admite nada contrário à nossa vontade. Se a forçamos minimamente, nesse instante cessa de ser verdadeira amizade para se converter noutra coisa.

O que é então a amizade? De maneira intuitiva esta palavra traz-nos à mente um sentimento sereno, transparente, feito de fé e de confiança. É um sentimento que identificamos como algo muito profundo, um dos valores eternos que possui o homem, o Amor numa das suas múltiplas formas. Sim, não nos surpreendamos. Quando pensamos nos nossos amigos mais queridos, na verdadeira amizade, pensamos numa forma de amor. “É dentro da alma que temos os amigos...”(1) e não é na alma onde nasce o amor?

Amizade é dar o que é devido e o amigo é quem nos faz justiça, num sentido profundo e vital. O amigo está do nosso lado, luta connosco. “Para quê arranjar então um amigo?”, dizia Séneca, “para ter alguém por quem possa morrer, alguém que possa acompanhar ao exílio, alguém por quem me arrisque e me ofereça até à morte”(2). Assim é o carácter desinteressado e sublime da amizade.

Desde a origem dos tempos, a amizade foi um componente essencial da nossa vida e filósofos de todas as épocas reflectiram sobre ela. Confúcio enumerava cinco tipos fundamentais de contactos inter-pessoais: a relação entre o imperador e os seus súbditos, entre pais e filhos, entre o homem e a mulher, entre o irmão mais velho e o irmão mais novo e, por último, a que se dá entre pares, ou seja, entre iguais e essa é a amizade. Séneca, nas suas cartas a Lucílio, disse sobre a verdadeira amizade: “...essa amizade que não destrói nem a esperança, nem o temor, nem a inquietude do interesse próprio; aquela amizade com que os homens morrem e pela qual morrem...”. É bem verdade que em épocas e sociedades diversas a amizade apresenta-se de formas dife-rentes; numa sociedade guerreira tratar-se-á no essencial de uma irmandade de armas e se nos aproximarmos da era moderna, encontramos amizades em que a cultura e a política adquiriram uma maior importância.

Mas, para além das diferenças, existe algo em comum que nos permite falar da amizade em qualquer época e contexto. É que a amizade é uma necessidade da alma humana e o homem tende para ela do mesmo modo que a água procura o mar para se fundir nele, porque esse é o seu destino e assim o entendeu. A amizade é um rio de prata pelo qual os homens anseiam navegar e, embalados pela corrente, desembocar no grande oceano da Fraternidade. Esse é o nosso destino e essa é uma lição que os homens ainda devem aprender.

“...A amizade é a união dos espíritos afins, é um sorriso constante, uma mão sempre aberta, um olhar de compreensão, um apoio seguro, uma fidelidade que não falha, é alegria e esperança. É dar mais do que receber, é generosidade e autenticidade. É um tesouro que vale a pena procurar e uma vez encontrado, manter para toda a vida como antecipação do reencontro das almas gémeas e como sombra favorita do eterno.

Que o melhor de ti seja para o teu amigo.”(3)

 

Carmen Morales

 

 (1) Séneca. Epist., 9,8-10.

(2) Séneca. Epíst., 55,10-11.

(3) Délia Steinberg Guzmán. Para Conocerse Mejor

 

 

 

 

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